O Paraná registra cerca de 2.560 novos casos de câncer de intestino por ano, o equivalente a sete diagnósticos por dia, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o período 2023–2025. São diagnosticados cerca de 20,8 casos a cada 100 mil habitantes. A incidência só é menor que Rio de Janeiro (25,35), Santa Catarina (32,4) e São Paulo (33,1). No Brasil, o câncer colorretal já é o terceiro tumor mais frequente entre homens e mulheres. “Na minha rotina, esse número tem rosto, tem nome, tem família. Cada um desses sete diagnósticos diários representa uma vida que poderia ter sido protegida com rastreamento adequado”, afirma a oncologista clínica Aline Vieira.
No Março Azul, mês de conscientização, a médica chama atenção para tabus e avanços em outras faixas etárias. “O que mais me preocupa na prática clínica é o aumento crescente de casos em pacientes jovens, abaixo dos 50 anos”, diz. Dados publicados no Journal of the National Cancer Institute, mostram que a incidência em adultos entre 20 e 49 anos vem crescendo cerca de 1 a 2% ao ano desde a década de 1990.
Estilo de vida e fatores de risco
Aline destaca que o câncer colorretal está fortemente associado ao estilo de vida. “Na minha experiência clínica, os fatores que mais observo são: alimentação desequilibrada e rica em ultraprocessados, obesidade e sedentarismo.” A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde (OMS), classifica carnes processadas como salame, salsicha, presunto e bacon como cancerígenas do Grupo 1, mesma categoria do cigarro, e estima que o consumo diário de 50 gramas aumenta em 18% o risco de câncer colorretal.
Para a médica, características da Região Sul ajudam a explicar a incidência mais alta: “Temos uma cultura gastronômica fortemente baseada em churrasco, embutidos e consumo de álcool, além de taxas de obesidade acima da média nacional.” Dados de 2025 do SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) apontam que o Sul, nacionalmente, tem prevalência acima da média de 36,3% obesidade e 70,9% excesso de peso. “O histórico familiar também é um fator importante. Ter um parente de primeiro grau com câncer colorretal pode duplicar o risco”, acrescenta.
Normalização é a maior inimiga do diagnóstico precoce
A oncologista lista sintomas de alerta que não devem ser normalizados: “Os principais são: alteração do padrão intestinal persistente — como períodos de constipação alternados com diarreia por mais de duas semanas; presença de sangue ou muco nas fezes, seja sangue vivo ou escurecido; emagrecimento sem causa aparente; e anemia sem explicação, principalmente em pessoas acima de 50 anos.”
Ela relata que muitos pacientes demoram a procurar ajuda. “O que mais me preocupa na prática é que muitos pacientes normalizam esses sintomas. Atribuem o sangue nas fezes a hemorroidas, a alteração intestinal ao estresse, e o emagrecimento a ‘correria do dia a dia’. Essa normalização é o maior inimigo do diagnóstico precoce”, afirma.
Diferença entre diagnóstico precoce e tardio
“As chances de cura quando o câncer colorretal é diagnosticado em estágios iniciais (estádios I e II) atingem mais de 90%. Em muitos casos de estádio I e II, a cirurgia é curativa, sem necessidade de quimioterapia”, diz Aline. O cenário muda nos estágios avançados. “Quando o diagnóstico é feito em estágio avançado, com metástases à distância (estádio IV), a sobrevida em 5 anos cai para cerca de 15%. Estamos falando de uma diferença brutal: de mais de 90% para aproximadamente 15%”, compara.
“O tempo é o maior aliado ou o maior inimigo no câncer. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de cura e menor a agressividade do tratamento”, afirma a médica.
Quebrar tabus é agir
Entre os grupos mais vulneráveis, a oncologista cita populações de baixa renda, regiões com menor acesso a serviços especializados e pessoas que resistem ao exame por medo ou constrangimento. “Ainda observo resistência significativa por parte dos pacientes, especialmente homens, que postergam o exame por medo ou constrangimento. É fundamental que as pessoas entendam que o preparo melhorou muito e que o exame é feito com sedação, sem dor”, diz. Ela também alerta para a falsa ideia de que se trata de uma problema relacionado apenas à idade: “Não podemos mais tratar câncer de intestino como ‘doença de idoso.”
Gargalos no SUS: colonoscopia ainda é desafio
No sistema público, o principal gargalo está no diagnóstico. “Infelizmente, o acesso à colonoscopia pelo SUS ainda é um gargalo importante. No Paraná, o tempo de espera para uma colonoscopia eletiva pode variar de 3 a 12 meses, dependendo da região e da demanda local”, relata Aline.
O tratamento oncológico, segundo ela, tende a fluir com mais rapidez após o diagnóstico. “Com relação ao tratamento, é possível fazer a cirurgia e, nos casos em que há necessidade, a quimioterapia pelo SUS. Para ter a primeira consulta com a oncologia, demora cerca de 15–20 dias no Paraná”, afirma. “O ponto crítico é o tempo entre o primeiro sinal de alerta e a realização da colonoscopia diagnóstica. Essa demora precisa ser enfrentada com políticas públicas mais robustas de rastreamento e com mutirões de colonoscopia”, defende.
O que diz a Secretaria da Saúde
Em nota, a Secretaria da Saúde do Paraná (Sesa-PR) informa que as ações de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer colorretal estão integradas à Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no SUS e ao Plano de Atenção para Diagnóstico e Tratamento do Câncer no Paraná, que organiza de forma regionalizada a rede de atendimento. A Secretaria cita ainda monitorar indicadores assistenciais por meio do Painel de Oncologia, incluindo o cumprimento da chamada Lei dos 60 dias, que determina início do tratamento oncológico em até 60 dias após a confirmação do diagnóstico no SUS.
Como prevenir o câncer de intestino
Do ponto de vista da prevenção, Aline destaca três mudanças de maior impacto. Primeiro: eliminar ou reduzir drasticamente o consumo de carnes processadas e embutidos. “Por exemplo, trocar o presunto ou salame por ovos no café da manhã”, recomenda. Segundo: manter um peso saudável e praticar atividade física regular. “Vários estudos mostram que indivíduos fisicamente ativos têm 20 a 25% menos risco de desenvolver câncer colorretal em comparação com sedentários”, orienta e recomenda pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana”, afirma. Terceiro: manter a colonoscopia de rastreamento em dia. “Isso não é apenas detecção precoce, é prevenção real, porque a remoção de pólipos impede o surgimento do câncer”, destaca. Ela acrescenta que uma dieta rica em fibras, frutas e vegetais também está associada à redução do risco
“Se você tem histórico familiar de câncer de intestino, converse com seu médico sobre quando começar o rastreamento, pode ser antes dos 45. E se você está sentindo algo diferente no seu intestino há mais de duas semanas — sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, emagrecimento sem causa — procure um especialista hoje. Não no mês que vem. Hoje”, reforça. “A colonoscopia não é algo para se ter medo. Medo de verdade é receber um diagnóstico tardio quando a prevenção estava ao seu alcance. Faça do Março Azul o mês em que você toma a decisão que pode salvar sua vida.”