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Esta semana vou dar uma folga para os gráficos e explorar um mito: o do pobre que "vive" do Bolsa Família. Talvez você não saiba, mas esse mito tem data de nascimento e até biografia. Ele nasceu em 1974 quando o jornal Chicago Tribune publicou uma reportagem sobre Linda Taylor, uma mulher que teria fraudado em mais de US$ 100 mil programas sociais (em valores atualizados, cerca de US$ 640 mil).
Taylor foi retratada como uma mulher que andava de casaco de pele e dirigia um Cadillac, um luxo patrocinado por dinheiro obtido de forma fraudulenta em vales-refeição, bolsas sociais e até pensões para veteranos das Forças Armadas.
O caso ganhou uma certa repercussão na época, mas o mito ganhou corpo mesmo quando Ronald Reagan, na época candidato à presidência dos Estados Unidos, usou como forma de criticar os programas sociais do governo que haviam sido construídos principalmente depois da Quebra da Bolsa em 1929 e a crise econômica que se seguiu.
O sistema de "Welfare" (Bem-estar) americano foi construído a partir do New Deal, de Franklin D. Roosevelt, estabelecendo direitos sociais. O acesso a esses direitos deveria ser garantido ao cidadão que estivesse abaixo de um limite de miséria.
A reforma desse sistema impulsionou outros políticos dos dois partidos americanos durante décadas. No início dos anos 1990, o democrata Bill Clinton prometeu na campanha reformar o sistema e acabar o "ciclo de pobreza" que os programas de Bem-estar supostamente promoviam.
Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência. Por aqui, a reforma dos programas seguiam uma retórica que prometia (e promete) uma "porta de saída". Tanto aqui quanto nos EUA houve uma mudança de paradigma.
Os programas sociais que, conceitualmente, eram concebidos para garantir "mínimo para viver" para qualquer um que estivesse abaixo de um limite passaram a ser vistos como uma intervenção temporária destinado a só parte das pessoas pobres e miseráveis qualificadas para receber ajuda.
A reforma de Clinton foi aprovada em 1996 e previa maior poder dos estados na administração dos programas e um limite de tempo para receber os benefícios, a tal "porta de saída".

Racialmente ambígua e rejeitada
É óbvio que Linda Taylor sozinha não é responsável por milhões de pessoas julgarem os pobres como moralmente inferiores. Ela foi a pessoa certa no momento certo que cristalizou algo na consciência coletiva americana. Mas a ideia da pobreza como falha moral já estava por lá antes.
Segundo o biógrafo dela, Josh Levin (The Queen, The Forgotten Life Behind a American Myth) Taylor era racialmente ambígua e podia ser identificada como branca, negra e latina em diferentes momentos. Ela nasceu numa família branca que a rejeitou justamente por seus traços miscigenados e surgiu como Welfare Queen justamente numa era em essas políticas eram vistas como coisa dos negros e latinos.
Mas a carreira criminosa de Taylor não se limitou a fraudes contra programas sociais. Ela chegou a ser acusada de sequestro e homicídio. Só que a imagem que prosperou foi a da Rainha dos programas sociais. No caso da acusação de fraude, foi condenada a até seis anos de prisão. Morreu em 2002 completamente esquecida.
O mito continuou firme e forte. Muito embora Taylor não tenha sido nunca uma pessoa "presa no ciclo de pobreza" ou que se acomodou diante da generosidade estatal.
Moral cristã, trabalho e pobreza
Para a escritora americana Barbara Ehrenreich, o pragmatismo americano está na raiz da convicção de que está nas mãos de cada um a capacidade de prosperar.
"Consigo apreciar algumas das fortalezas instigadas pelo espírito calvinista - ou até a ética protestante - como a auto-disciplina e a recusa em aceitar o conforto imaginário do amor incondicional de Deus. Mas também sei algo sobre seus tormentos, mitigado no meu caso por um pai mais irlandês: o trabalho - trabalho duro, produtivo, visível no mundo - era nossa única oração e salvação, tanto como caminho para fora da pobreza quanto refúgio do terror da insignificância" (Bright-Sided, How Positive Thinking is Undermined America).
Ehrenreich faz um excelente trabalho de reconstrução histórica da ideia de que pensamentos e atitudes têm poder sobre a realidade, uma convicção que está tanto em discursos religiosos, quanto motivacionais entranhados na cultura americana.
Se o sucesso é resultado da capacidade de podermos visualizá-lo até o concretizar, resta aos pobres e miseráveis o rótulo de fracos, falhos. Caberia aos programas sociais tirá-los desse apego ao fracasso, não impedi-los de morrer de forme enquanto se recusam a mudar de mentalidade.
Mas e os dados?
Esta não é uma newsletter de dados? Verdade. Guenta aí, que já chego lá.
É óbvio que ninguém anda de casaco de pele e Cadillac vivendo de Bolsa Família. Hoje o valor máximo pago por família é de R$ 800, muito menos que os R$ 6.769,87 do Salário Mínimo Necessário calculado pelo DIEESE (aquele que segundo a Constituição deveria suprir as necessidades de moradia, alimentação, vestuário, higiene e transporte do trabalhador).
Mas a convicção de que um programa social pode "acomodar" as pessoas existe a despeito dos fatos porque nem sempre a forma como as pessoas lêem uma informação é, digamos, objetiva. Na realidade, nós seremos sempre parciais porque não temos como abandonar nossa perspectiva, afinal é a única que temos.
É comum que se acuse a imprensa de não ser imparcial, de deturpar informação e ser sensacionalista. Mas essa deturpação está também no olhar de quem lê.
E ela está moldando a forma como se consome notícia. O Pew Research Center, a principal instituição americana a estudar consumo de mídia nos EUA, aponta que menos americanos estão acompanhando o noticiário. A queda acontece em todos os grupos etários, sociais e raciais, mas é mais evidente entre os eleitores republicanos.
No Columbia Journalism Review, Josh Hersh aponta que "“A crença popular de que Clinton havia perdido a eleição por causa do comprometimento da mídia tradicional com interpretações ultrapassadas da objetividade jornalística — combinada com o ambiente supercarregado com conteúdo político partidário nos anos Trump — criou uma demanda por algo novo”. "Uma série de empreendimentos digitais surgiram rapidamente, muitos deles apoiados por membros do Partido Democrata".
O problema aí é que para evitar um jornalismo que talvez tenha falhado com seu público, o público migra para um jornalismo que só fala o que ele quer ouvir. Esse é um jeito muito direto de solidificar equívocos. Ao leitor, Hersh recomenda uma "dieta variada de mídia".
Projeto de Vida
Ano que vem Curitiba deve ganhar uma Secretaria de Desenvolvimento Humano liderada pela atual vereadora do Novo, Amália Tortato.
Na Câmara, a principal iniciativa dela na área foi propor que as escolas da rede municipal (que atendem alunos de 0 a 10 anos) reduzam a evasão escolar (que é 0,1%) através da implantação de uma metodologia de "Projeto de Vida" e "Incentivo para Escolhas Certas (Nudge)". Tortato quer mudar o "mindset" da criançada.
São ideias que não surgiram no campo da Pesquisa em Educação, muito embora estejam sendo incorporadas pelas escolas. O tal "Projeto de Vida" está no Novo Ensino Médio, que abandonou o currículo comum em nome de itinerários formativos.
O conceito por trás de algumas dessas iniciativas é de que o papel da escola é dar direção às mentes perdidas dos estudantes. Parece uma releitura do conceito ultrapassado da educação como responsável por colocar conhecimento nas páginas em branco que um cérebro jovem representa.
Nada de NOVO.
Até a próxima semana!
Rosiane Correia de Freitas