Superlotação do Pequeno Príncipe revela saga de famílias com filhos doentes | Jornal Plural
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9 maio 2019 - 5h55

Superlotação do Pequeno Príncipe revela saga de famílias com filhos doentes

Desde terça hospital não está mais recebendo novos pacientes

O aviso, assinado pela direção do Hospital Pequeno Príncipe, está afixado na porta dos atendimentos de Emergência do SUS: em negrito pode-se ler “não temos condições de receber mais pacientes”. Desde a noite de terça, o hospital fechou o atendimento de emergência pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em razão da superlotação nos leitos. Há 14 crianças internadas nos consultórios – essa é a terceira vez, em duas semanas, que o hospital precisa interromper os atendimentos.

Em apenas 15 minutos, pelo menos cinco mães passam pelo local em uma tarde de quarta-feira. “Ué, mas tá fechado!”, exclama uma delas, ao se deparar com a porta cerrada e o aviso. Dos 370 leitos disponíveis, a entidade informa que 70% são reservados ao SUS.

O problema, me informa o vice-diretor clínico do hospital, Victor Horácio de Souza Costa, é a alta procura direta de pacientes de Curitiba e da região metropolitana. “A orientação para os pacientes é se dirigir a uma UPA ou Unidade de Saúde para o atendimento primário”, afirma. A situação revela problemas mais profundos no sistema de Saúde.

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Pingue-pongue

Em frente à porta fechada, uma mãe – com o bebê no colo – chora enquanto fala ao telefone. Relata que o filho não tem se alimentado, e não evacua há dias. Andresa Bueno (31), é operadora de caixa e carrega o pequeno Lyonel, de um ano e cinco meses. Nos braços da mãe, o bebê dorme um sono inconstante, vira e mexe abre os olhos, geme baixinho. Os dois enfrentam uma saga desde 24 de abril: moradores do Sítio Cercado, a família relata ter ido à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da região pelo menos quatro vezes.

Lyonel passou dez dias fazendo um tratamento com antibióticos, e chegou a tomar injeção. A febre do pequeno, no entanto, não cedeu. Da UPA, Andresa tentou recorrer diretamente ao Pequeno Príncipe, mas foi direcionada a uma Unidade de Saúde, para receber o encaminhamento. Buscando atenuar a febre do menino, em meio à busca por um atendimento definitivo, Andresa foi mais uma vez até a UPA: “O médico olhou ele e tudo, falou que era suspeita de gripe HN1. Ele tá fazendo tratamento, o médico mandou ficar em observação, só que a febre não cedeu”, relata.

A mãe fez, ainda, mais uma tentativa, dessa vez na Unidade de Saúde – lá, o diagnóstico foi de infecção: nem ouvido, nem garganta, algo mais profundo. Nenhum exame foi solicitado, de acordo com a mãe. De volta ao Pequeno Príncipe pela segunda vez na semana, Andresa aguarda a chegada da cunhada, para que juntas possam tentar atendimento em outro hospital.

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Jornadas sem fim

A jornada em busca de um tratamento eficiente não é exclusividade de Andresa e Lyonel. Megtei dos Santos (28) e a filha, Emily, de cinco anos, também estão há dias tentando resolver uma tosse incessante. De Fazenda Rio Grande, região metropolitana de Curitiba, as duas já passaram por postos de saúde – onde não conseguiram consulta -, atendimentos 24 horas e até mesmo por médicos particulares.

Emily tem asma, e mesmo sem exames, teve antibióticos receitados para tratar uma suposta infecção nos pulmões. Os remédios, no entanto, não surtiram efeito, a menina chegou a passar mal. Sem conseguir marcar consulta com urgência, o Pequeno Príncipe foi a saída melhor recomendada pelos conhecidos.

“Não pedem exame, estou entrando em desespero. Falam que ela está com os pulmões infeccionados, mas não fazem nada”, relata a  mãe. A cada novo atendimento, um diagnóstico diferente: para um médico,  a asma está sob controle, os problemas são os pulmões, para outra a infeção vem da asma. “Não pediram exame de sangue, raio X, nada, nada, nada”, lamenta Megtei enquanto se dirige com a menina ao quinto local para tentar atendimento.

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