3 dez 2021 - 21h52

Morre aos 91 anos Saul Raiz, ex-prefeito “biônico” de Curitiba

Engenheiro e político, ele sofria consequências de um Alzheimer em estágio avançado

Morreu na noite desta sexta-feira (3), aos 91 anos, o ex-prefeito de Curitiba Saul Raiz, afilhado político de Ney Braga e um dos principais articuladores das campanhas de Jaime Lerner ao governo do Paraná. Ele sofria consequências de um Alzheimer em estágio avançado e estava internado há quase um mês. Ele tinha duas filhas.

Engenheiro formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), assumiu a administração da capital paranaense entre 1975 e 1979, nomeado pelo governador Jaime Canet Júnior. Ambos representavam  no Paraná a Arena, partido oficial da ditadura cívico-militar, a quem Raiz se referia como “revolução”. À época, prefeitos de capitais e senadores não eram eleitos e, sim, nomeados, motivo pelo qual assumiam cargos biônicos – uma estratégia esquematizada pela própria cúpula ditatorial para frear a dispersão do controle militar.

Sob seu comando foram executadas as famosas obras de drenagem dos rios que cortam o centro de Curitiba. Ele encorpou a infraestrutura da Cidade Industrial de Curitiba, iniciada anos antes por Jaime Lerner.

Saul Raiz nasceu em Curitiba em 19 de janeiro de 1932. Era filho de judeus poloneses que migraram para o Brasil na década de 1930. Frequentou o Colégio Estadual do Paraná (CEP) e, antes de se formar na UFPR, já era topógrafo na prefeitura de Curitiba. Após receber o diploma, assumiu o cargo de engenheiro e ascendeu, logo em seguida, à função de chefe de Urbanismo no mandato de prefeito do militar Ney Braga, em 1955.

Em 1961 –  já sob o clima da Guerra Fria que, catalisado pela interferência dos Estados Unidos, culminaria em um golpe de estado três anos mais tarde no Brasil – Ney Braga derrota Moisés Lupion, assume o governo do Paraná e leva Raiz para a direção do Departamento de Estradas e Rodagem (DER). Na pasta, o engenheiro ajuda a concretizar no estado um dos maiores e mais controversos projetos intervencionistas do país, o Aliança pelo Progresso.

O programa financiado pelo governo do Presidente John F. Kennedy em vários países da América Latina cedeu aportes milionários para a execução de metas políticas em contrapartida de uma “união” antissocialista. No Brasil, parte do dinheiro foi empregado em obras rodoviárias para ligar o Norte ao Sul do Paraná, a Rodovia do Café. A obra foi inaugurada por Castello Branco, primeiro presidente da ditadura.

Alternando com cargos fora da vida pública – entre pastas e a prefeitura, foi representante do Banco Mundial no Brasil e diretor na empresa de celulose Klabin – continuou marcando sua presença na política paranaense. Ocupou também por um curto período de tempo a Secretaria de Estado de Obras Públicas na gestão de Paulo Pimentel e, já no período de abertura, em 1981, a Secretaria de Desenvolvimento Municipal, nomeado por Ney Braga, último chefe do Executivo paranaense nomeado pelo regime ditatorial.

Em entrevista ao jornalista José Wille, em 1988, ao programa Memória Paranaense, afirmou ter na área administrativa sua principal fonte de renda e, por isso, não se julgava político de profissão, embora tivesse a certeza que, sempre que quisesse teria um cargo à disposição.

A perda nas urnas para José Richa em 1982 foi uma de suas últimas investidas diretas na política.

“Eu representava a revolução. Foi uma campanha muito difícil”, disse ao jornalista José Wille. “O [bairro de Curitiba] Boqueirão, que eu trabalhei muito no Boqueirão, fiz pavimento, aquilo era um brejo porque tudo inundava, fiz escola, fiz um trabalho enorme, era bem conhecido. Pois eu perdi para o Richa no Boqueirão. Se o Richa saísse a pé sozinho lá ninguém sabia que era o Richa. Por quê [a derrota]? Porque eu representava a revolução. As pessoas olhavam para mim e me achavam parecido com o Delfim Neto, com o [João] Figueiredo porque eu representava aquilo que queriam mudar. Tanto é verdade que não foi só aqui que nós perdemos. A revolução perdeu em todo o brasil praticamente”.

Na redemocratização, Saul Raiz foi um dos principais articuladores das duas campanhas de Jaime Lerner ao governo do Paraná, em 1994 e 1998. Para eleger o arquiteto, trabalhou lado a lado com um dos principais nomes de coordenação de campanhas políticas do estado, Gerson Guelmann – que veio à público nesta noite confirmar a morte do amigo de longa data.

“Lamento informar o falecimento do ex-Prefeito de Curitiba, Eng. Saul Raiz. Um amigo muito querido de minha família e líder da Comunidade Judaica de Curitiba, era dono de personalidade marcante, uma pessoa da mais absoluta integridade e cuja vida foi dedicada ao bem comum. Curitiba, que teve a felicidade de tê-lo como Prefeito e o Estado do Paraná, ao qual serviu em diversos cargos, devem muito à esse exemplo de Administrador competente e honesto. Baruch Dayan ha’Emet – Bendito seja o verdadeiro Juiz”.

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