Curitiba distorce estudo e ignora dados para dizer que ônibus são seguros na pandemia | Jornal Plural
9 jun 2021 - 17h05

Curitiba distorce estudo e ignora dados para dizer que ônibus são seguros na pandemia

Estudo desconsidera assintomáticos e transforma índice de positividade entre passageiros em “índice de contaminação”

Logo após voltar a declarar bandeira vermelha em Curitiba, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) fez um esforço para afirmar que o transporte coletivo é seguro. Em material divulgado no site da prefeitura, o órgão afirma que a contaminação por Covid-19 nos veículos de transporte urbano é baixa: “Segundo estudo epidemiológico da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), feito em parceria com a Urbs, o índice de contaminação de passageiros do transporte coletivo de Curitiba é inferior a 1%”.

A afirmação, no entanto, não corresponde às informações do estudo da própria Secretaria, que usou duas bases de dados para tentar identificar entre as pessoas que tiveram resultado positivo no exame PCR para Covid-19, quem andou de ônibus no período em que deveria estar em isolamento entre março de 2020 e março de 2021. O estudo levou em consideração cerca de 60% das pessoas que usam transporte coletivo e têm cartão transporte, cujos dados foram usados na análise.

No período de março a dezembro de 2020, doze mil pessoas com PCR positivo para Covid-19 foram identificadas em viagens do transporte coletivo curitibano. É pouca gente se comparada com a média de 249 mil pessoas que diariamente usaram o transporte no período. Segundo o responsável pela pesquisa, Diego Spinoza, educador físico com mestrado em Saúde Pública pela UFPR, o maior índice de pessoas com PCR positivo em relação ao total de passageiros do dia foi de 0,09%.

O que se mediu no estudo não foi a contaminação e sim só a presença de pessoa com resultado positivo para a doença

Foi daí que saiu a conclusão de que o “índice de contaminação” é inferior a 1%. Porém, o que se mediu no estudo não foi a contaminação (ou seja, a transmissão da doença de um paciente doente para outras pessoas dentro do ônibus), e sim só a presença de pessoa com resultado positivo para a doença. Para medir a contaminação seriam necessárias outras formas de mensurar a transmissão do vírus dentro dos ônibus e demais ambientes da rede de transporte, em especial a consideração da densidade de passageiros nos veículos e o tempo de permanência das pessoas dentro do carro.

Gráfico divulgado pela SMS com os resultados da pesquisa. Aqui a conclusão, divulgada pela SMS, de que o estudo conclui que 99,9% dos passageiros não têm Covid-19. Fonte: SMS

O Departamento de Epidemiologia da SMS não quis fornecer ao Plural os dados usados na produção do gráfico com os resultados da pesquisa porque eles estariam ainda “em análise”, muito embora tenham sido amplamente divulgados.

Segundo Spinoza, os resultados obtidos “não querem dizer que não se transmite Covid-19 no ônibus”. Mas ele acredita não ter identificado “uma relação entre o aumento do número de casos e o aumento no número de usuários do transporte”. Ele conclui isso ao sobrepor os dados de número de passageiros por dia no transporte com o número de casos de Covid-19 confirmados na cidade. Essa observação, no entanto, não leva em consideração outros fatores, como o índice de reprodução do vírus (R0).

Outra limitação do estudo diz respeito à baixa testagem de pessoas para rastrear casos de Covid-19. Via de regra, a cidade só realiza exames em pessoas com sintomas moderados e graves. Segundo estudo do Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford que sistematizou os resultados de diversos estudos sobre a evolução de casos de contaminação pelo coronavírus, entre 5 e 80% dos pacientes contaminados permaneceram assintomáticos e parte desses casos assintomáticos podem apresentar sintomas após uma semana.

Questionado sobre a ausência de consideração sobre os assintomáticos, Spinoza disse que os casos sintomáticos “têm maior risco de transmissão”. Ele concordou que “seria melhor testar mais pessoas”, mas que os dados usados “são representativos”.

Ou seja, ao testar só casos moderados e graves, provavelmente uma parte significativa dos casos ativos da doença na cidade jamais entraram para as estatísticas da pandemia na capital. Nem estão entre os casos identificados de pessoas doentes que mantiveram a circulação em ônibus do transporte coletivo.

Segundo Spinoza, o plano agora é ampliar a pesquisa incluindo resultados de exames rápidos, cujo uso foi ampliado pela SMS recentemente. Não há, porém, planos para realizar ampla testagem, mesmo que pontual, dos passageiros do transporte coletivo. Spinoza também afirma que o resultado do estudo aponta para efetividade do uso da máscara, distanciamento e pouca interação entre pessoas dentro dos veículos do transporte na contenção da Covid-19, o que só estudos mais completos de acompanhamento de grupos de passageiros teriam, de fato, condição de concluir.

Um desses estudos, realizado na China, acompanhou 2334 pacientes e 72 093 pessoas que tiveram contato próximo com eles em trens de alta-velocidade do país e concluiu que o risco de transmissão aumenta de acordo com a distância da pessoa do paciente contaminado e o tempo de viagem. A conclusão dos pesquisadores é de que o risco de transmissão dentro do transporte pode ser reduzido ao se reduzir também a densidade de passageiros, a distância entre eles e o uso de equipamentos de higiene pessoal.

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3 comentários sobre “Curitiba distorce estudo e ignora dados para dizer que ônibus são seguros na pandemia

  1. Sugiro que as autoras façam uma matéria igualmente esclarecedora sobre o pesquisador do Amazonas que é paparicado por aqui, manejando estatísticas, sequer corando com os furos.

  2. Vocês foram precisas no título: Curitiba distorce os dados. Mais um registro de uma época triste em uma cidade governada por gente tosca.

    Um amigo estatístico me alertou: “torture os dados que eles confessam”. Pra ficar à altura da imagem de Curitiba, seria o caso de criar uma expressão nova: “ciência prêt-à-porter”. Greca e suas secretarias escolhem o modelito (da ciência a ser usada para justificar suas escolhas políticas) e vão pra passarela… Um dos resultados é justamente o reforço da situação conflagrada: tem os “contra” e os “a favor”. No caso da possibilidade de transmissão da Covid-19 no transporte público, a má-informação tem impactos seríssimos. Porque a prefeitura fala verdades misturadas com mentiras. Em tempos de pandemia, autoridades devem agir sem ambiguidades, com responsabilidade. Responsabilidade que falta em Curitiba.

    É evidente que o transporte público deve funcionar, especialmente porque há atividades que demandam o serviço. Essa não é a questão. Profissionais da saúde e trabalhadores de mercados, por exemplo, precisam se deslocar pela cidade.

    Onde o busílis? Alguns grupos de interesse criaram uma falsa questão: para se opor às medidas de restrição de mobilidade decorrentes da bandeira vermelha, passaram a advogar pela suspensão do sistema de transporte. Ora, é intelectualmente desonesto comparar o trânsito de pessoas que atuam em serviços fundamentais com aquele associado a gente que circula nos ônibus para passear, olhar vitrine de loja etc. Para conter a pandemia, é imperativo reduzir contatos entre pessoas, particularmente os que se dão em lugares fechados. Restaurantes, lojas, salas de cinema e salas de aula são ambientes fechados. E, muitas vezes, os ônibus. Alguém poderia argumentar que supermercados e farmácias também são ambientes fechados. Sim, mas não se pode deixar de frequentar esses lugares. A bandeira vermelha serve de recurso justamente para restringir a circulação de pessoas a um “mínimo necessário”. Portanto, é imperativo restringir possibilidades de aglomeração (duas pessoas provenientes de lugares diversos, compartilhando de um ambiente fechado, sem ventilação, por longos períodos, pode ser aglomeração, particularmente quando os números de casos na comunidade são muito altos). Há grupos de interesse sempre insistindo em “aumentar o mínimo”, até o limite bizarro das campanhas do tipo “não pode parar” (mais correto seria nomear “deixa morrer”). Nesta cruzada, se valem de argumentos toscos. A prefeitura, ao contra-argumentar, produz desinformação (feito essa “pesquisa” sobre contaminação nos ônibus).

    As jornalistas desmascaram a farsa. Seria o caso de incluir mais um ponto: quando o pesquisador argumenta que os casos sintomáticos “têm maior risco de transmissão”, na tentativa de minimizar a importância dos assintomáticos, está cometendo um erro crasso. Trata-se de desonestidade intelectual (uma das muitas etapas da tortura de dados – ou da costura dessa ciência prêt-à-porter curitibana). Assintomáticos podem transmitir. Já um cientista não pode agir com desonestidade intelectual. Agentes públicos responsáveis por medidas visando ao cuidado com a vida, muito menos. Ponto.

    E ficam se referindo a dados “científicos” sem apontar as publicações. Quando o fazem, mencionam revistas que não são revistas científicas. E mobilizam “pesquisadores” que, ainda que tenham formação acadêmica, agem de modo anti-científico, porque embasam suas falas em opinião. Opinião não é ciência. Mas Curitiba talvez não aprenda isso nunca. Seria mais uma excentricidade ridícula e risível, não estivesse causando sofrimento e morte.

    Vontade de jogar tortas nas caras desse povo, quando começam a falar besteiras.

    Ao se enveredar por esses caminhos de confusão, a prefeitura deixa de fazer o trabalho. Por exemplo, o de conscientizar as pessoas de que o vírus da Covid-19 se propaga pelo ar. De que as pessoas devem usar máscaras de melhor qualidade. De que os estabelecimentos (públicos, comerciais, de ensino etc.) precisam fazer o monitoramento da qualidade do ar (com medidores de CO2, por exemplo) e melhorar a circulação e purificação do ar (com filtros HEPA, por exemplo).

    Na página da prefeitura, está escrito “Os ônibus têm renovação do ar feita pelo sistema de ventilação pelo menos 20 vezes a cada hora – ou seja, é restaurado a cada três minutos”. Sugiro que essa informação seja mais bem explicada. De onde veio o número “20 vezes a cada hora”? Seria fundamental entender como isso foi medido – e que estratégias vem sendo adotadas para melhorar e monitorar a circulação de ar. Para além do discurso vazio de “todos os protocolos”, que insiste em dar ênfase à sanitização de superfícies – uma medida inócua ante ao risco infinitamente maior da transmissão pelo ar.

    Com duas universidades federais na cidade, onde estão os cientistas de Curitiba?

    Dia após dia, vamos acumulando doentes e mortos. Por conta de um mal que poderia ser evitado caso as autoridades realmente agissem com base na ciência – e não em propaganda.

    Mas Greca é um político tosco. E suas secretarias seguem o mestre. Que dizer das “associações” que defendem CNPJs com o argumento das buzinas?

    Não faz mais sentido mandar essa gente pro inferno. Eles se anteciparam e nos vão carregando junto. Ai.

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