Chão vivo no topo de um prédio | Jornal Plural
Clube Kotter
28 fev 2019 - 0h00

Chão vivo no topo de um prédio

Grupo de curitibanos decidiu usar terraço vazio para plantar, reciclar e fazer shows (entre outras coisas)

Foram os sonhos mais utópicos e os problemas mais concretos dos centros urbanos que nos motivaram a reunir pessoas dispostas a percorrer caminhos alternativos que reconectem as pessoas com o verde e o vivo em busca de soluções urbanas.

Não é possível precisar quando o projeto surgiu, mas teve como marco o ano de 2011 quando reunimos pela primeira vez um grupo de amigos para discutir a ideia de transformar o terraço da sede do Coletivo Soylocoporti, à época absolutamente ocioso. Pensávamos em criar um espaço dedicado à construção de ações práticas que dessem conta de problemas concretos dos centros urbanos, passando por temáticas ligadas ao meio ambiente, desenvolvimento urbano e cultura. A partir daí fomos reunindo diversas referências que orientaram a construção do primeiro rascunho deste sonho, já com o nome “terraço verde”.

Logo de início tivemos contato com a permacultura, que orientou nossos primeiros passos, apontando a necessidade de trabalharmos de forma integrada ao ambiente, utilizando dos recursos disponíveis para viabilizar o que queremos, causando o mínimo impacto no ambiente com os materiais que estivessem ao nosso alcance. E foi o que fizemos; observamos o desenvolvimento de cada iniciativa, conectamos os parceiros para cada área e ficamos sempre atentos para os recursos que aparecem nos lugares mais inusitados, muitas vezes no próprio “lixo”.

A agroecologia também aparece nos debates preparatórios como um grande portal de referências, conceitos, possibilidades e perspectivas, trazendo sua dimensão holística do pensar a terra, a sociedade e as pessoas. Percebemos que as definições e interseções da agroecologia completam nosso projeto: Soberania Alimentar, Comunicação e Cultura, Saúde Coletiva, Economia Solidária, Direito ao espaço urbano, Justiça Ambiental e Feminismo são temáticas que consolidam o caminho a ser percorrido.


O projeto do terraço.

Fortalecidos pelo conceito e articulados em rede, mapeamos os diversos profissionais e parceiros que de alguma forma já estavam envolvidos nesta construção, clareando para nós a potência criativa e realizadora que já estava em curso, mesmo que com desafios ainda muito expressivos; destacamos especialmente a necessária impermeabilização da laje do terraço do Itupava com custos muito além do que poderíamos arcar naquele momento.

As campanhas de financiamento coletivo ainda eram muito recentes, mas decidimos encarar os obstáculos e estruturamos toda uma política de comunicação, que teve relativo sucesso ao mobilizar mais de 50 pessoas entre apoios digitais e presenciais, mas que não foi suficiente para arrecadar o recurso financeiro necessário. Também realizamos um conjunto de ações culturais, sempre estruturados pelo Coletivo Soylocoporti, nosso berço organizativo.

Naquele momento (2011), o projeto não conseguiu chegar à dimensão que gostaria, os R$ 50 mil necessários para impermeabilizar a laje não foram atingidos, mas a articulação que o projeto gerou naquele momento proporcionou saltos importantes de formação e articulação para cada uma das pessoas e organizações envolvidas. O sonho, porém, precisou aguardar mais um pouco.


Fachada do 1.299 na Itupava, sede do Terraço Verde

Tem coisas que precisam acontecer no momento certo, e foi em 2018, um ano cheio de conflitos, em que embates de todos os tipos dividiram o país, que ressurgiu a ideia de transformar concreto em agroecologia urbana, desta vez com o movimento mais forte e articulado, com uma visão pluralista de sociedade, de respeito às diferenças, de reafirmação das diversidades, de compromisso com o meio que vivemos, com a pró-atividade para buscar e construir soluções práticas para as cidades.

De março a junho de 2018 foram realizadas as obras de impermeabilização da laje, obra que concedeu benefícios para todo o edifício, e foi marco para início da maratona Terraço Verde; ainda em junho daquele ano ocorreu o primeiro curso “Verdejando as Cidades” que resultou em mais verde na Rua Itupava 1299, agora construído coletivamente.

São os primeiros 50m2 do nosso jardim agroecológico.

Em seguida vieram o sistema de captação de água da chuva, 3 tecnologias de compostagem e 1 biodigestor que hoje, juntas,  processam quase meia tonelada de resíduos por mês. Também instalamos um sistema de irrigação automatizado controlado pelo celular, hortas verticais com marcenaria sustentável, construímos um castelo de insetos com as crianças, transformamos o terraço em um palco aberto para artistas da cidade. Promovemos um grande mutirão na praça pública embaixo do prédio onde instalamos uma horta comunitária, parquinho para crianças, revitalização de bancos, arte na praça e mais um tanto de atividades e nos tornamos objeto de estudo de pesquisas de diversas universidades da cidade. Tudo isto em apenas 7 meses!


Terraço em obras: projeto coletivo.

E durante todo este turbilhão seguimos estruturando o ambiente com programas estratégicos focados em produzir soluções para os centros urbanos, cada espaço com vida própria.

Terra Escola delineia o espaço como um ambiente de aprendizado permanente onde o compartilhamento de conhecimento é peça chave para seu funcionamento.

TerraCo é o espaço de Cowork que reúne profissionais diversos comprometidos com sustentabilidade, desenvolvimento urbano, inovação e colaboração como métodos de trabalho.

Terra Cult traz a premissa de cultura em toda parte, de que as linguagens artísticas, os conhecimentos ancestrais e o movimento cultural de base comunitária está enraizado em nossos propósitos.

Terra Pesquisa se consolida como a frente para produzir, documentar e compartilhar conhecimento, integrando pesquisadores, jardineiros, agricultores e todos aqueles interessados em produzir conhecimento coletivamente.

Terra Economia tem como tarefa movimentar empreendedores locais, abrir mercado para negócios sustentáveis e viabilizar economicamente o terraço.

Terra Comunidade é nosso compromisso de articulação e fortalecimento da relação do terraço com a comunidade do entorno.

Cabem histórias e desdobramentos para cada uma destas frentes, que seguem em construção e transformação.

O terraço verde não é, ele está em permanente movimento, em construção constante, sendo lapidado pela inteligência coletiva de pessoas que amam a sua cidade e querem fazer dela um lugar para o bem viver.

Você é nosso convidado.

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