Contrariando discurso, Moro faz campanha com alvos da Lava Jato

Ex-juiz diz ter saído do Podemos por suspeita de corrupção, mas está em partido de Garotinho, filha de Cunha e Arthur Maia

Sergio Moro afirmou de ter deixado o Podemos devido a um caso de corrupção na cúpula do partido. Por conta disso, em março de 2022 o ex-juiz da Lava Jato se filiou ao União Brasil e agora disputa uma vaga no Senado contra Alvaro Dias, líder do Podemos. Porém, o União Brasil nasceu da fusão do DEM e do PSL, dois partidos que foram varias vezes envolvidos na operação Lava Jato, da qual Sergio Moro foi o principal juiz.

Ao lado de Sergio Moro, estão vários candidatos que foram investigados pela força-tarefa de Curitiba ou que receberam propina no mesmo período em que o próprio juiz Moro perseguia esse tipo de crime.

Em Pernambuco, por exemplo, o União Brasil apoiou a reeleição de Fernando Bezerra Coelho Filho, deputado do MDB que em junho do ano passado foi considerado suspeito pela Polícia Federal de corrupção, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

Em 2016, Fernando Bezerra Coelho Filho foi nomeado pelo presidente Michele Temer para o posto de ministro de Minas e Energia e no ano seguinte votou contra a abertura da investigação por corrupção contra o então presidente.

Também seu pai Fernando Bezerra, atual líder do governo Bolsonaro no Senado, foi investigado por suspeita de ter recebido R$ 10,4 milhões das empresas Barbosa Mello, S/A Paulista, Constremac e OAS, famosa empreiteira envolvida na Lava Jato. De acordo com as defesas dos deputados, “essa investigação, nascida das palavras falsas de um criminoso confesso, é mais uma tentativa de criminalização da política, como tantas outras hoje escancaradas e devidamente arquivadas”.

Além de Fernando Bezerra Filho, o deputado Arthur Maia também se filiou ao União Brasil e agora é candidato novamente na Bahia à Câmara dos Deputados. Em 2017, o deputado, conhecido com o apelido de Tuca, entrou na lista de políticos suspeitos de receber propina da Odebrecht. Dois ex-funcionários dessa empreiteira, José Carvalho Filho e Claudio Melo Filho, citaram Arthur Maia nas suas delações, afirmando terem sido procurados pelo político baiano que em 2010 precisava de dinheiro para financiar a sua campanha. O ex-funcionário da Odebrecht alegou ter entregue R$ 200 mil à Maia por meio do setor de ‘operações estruturadas’, ou seja, a divisão da empreiteira que tratava do pagamento de propinas para os políticos.

No Rio de Janeiro, o União Brasil tem como candidato a deputado federal Anthony Garotinho, ex-governador do estado entre 1999 e 2002. Em 2019 Garotinho foi preso acusado de ter participado em um esquema de superfaturamento de contratos entre a Odebrecht e a prefeitura de Campos dos Goytacazes, que foi administrada pela esposa de Garotinho, Rosinha (presa com o marido) entre 2009 e 2012. Em particular, o casal foi considerado suspeito de ter aumentado o contrato de construção de casas populares do programa ‘Morar Feliz I’ e ‘Morar Feliz II’ em troca de R$ 25 milhões em propinas. De acordo com o Ministério Público, o nome de Garotinho também foi encontrado na planilha da Odebrecht, que resumia todos os políticos que receberam dinheiro da empreiteira.

Em um outro processo, Anthony Garotinho foi acusado por Ricardo Saud, ex-diretor da J&F, de ter recebido R$ 3 milhões da JBS para a campanha de 2014. Algumas dessas ações foram posteriormente anuladas pelo STJ e pelo STF. Apesar das absolvições, o Ministério Público Eleitoral solicitou que o registro da candidatura de Garotinho fosse indeferido pelo Tribunal Regional do Rio.

Danielle Cunha, candidata do União Brasil e filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, também disputa uma vaga na Câmara dos Deputados. Eduardo, que saiu da cadeia e agora é candidato a deputado federal em São Paulo pelo PTB, esteve envolvido várias vezes na operação Lava Jato. Em Curitiba, Cunha foi investigado por ter uma conta na Suíça que recebeu US$ 5 milhões de um contrato de compra de um campo de petróleo pela Petrobras em Benin, na África. Foi o mesmo Moro quem condenou Cunha em primeira instância nesse caso, que agora tramita na Justiça eleitoral.

Em outro caso, porém, o ex-presidente da Câmara foi acusado de ter recebido mais US$ 5 milhões relativos ao contrato de compra dos navios-sondas pela Petrobras. Neste último caso, ele foi condenado a 15 anos de prisão em 2020, mas atualmente o processo está suspenso até a decisão do STF sobre se o caso será julgado pela justiça comum ou na justiça eleitoral.

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