16 abr 2022 - 19h57

Vestir a revolução: marca traz o feminismo para o cotidiano das brasileiras

O Plural conversou com a idealizadora da Puta Peita para entender como funcionam os processos de criação e produção das camisetas conhecidas pelas frases impactantes

É possível ver os escritos feministas que estampam as camisetas da Peita de longe. Como cartazes itinerantes, desde 2017 os produtos da marca-protesto curitibana comunicam, em quatro palavras, uma revolução: “Lute como uma garota”. 

“Não é só uma frase. Graficamente sim, mas ela representa muito mais que isso. Eu não posso falar da Peita sem falar de gênero, de feminismo, de patriarcado”, afirma a idealizadora da marca, a designer Karina Gallon. 

Com o objetivo de difundir o feminismo de uma maneira simples e direta, e estar presente na vida das mulheres como uma ferramenta de enfrentamento, a ideia por trás da Peita é promover diálogos através da identificação ou do desconforto causados pela mensagem.

“A gente queria democratizar essa pauta, atingir a massa, sair da academia, da própria militância e chegar em outros espaços mostrando que o feminismo é uma rede de apoio também e uma luta por direitos. A Peita vem para provocar e instigar as pessoas para a resistência.”

Karina Gallon

Como cartazes

Karina conta que foi a partir dos cartazes das marchas feministas que teve a inspiração para criar a Peita. “Veio dessa inquietação que muitas mulheres não podem parar e ir nas manifestações. Então a ideia foi justamente vestir a mensagem do cartaz para que a gente no dia-a-dia pudesse expressar essa luta e fazer uma microrrevolução nas nossas relações e ambientes.”

No dia 8 de março de 2017, Karina juntou alguns amigos e decidiu fazer a primeira camiseta com a frase “Lute como uma Garota”, para o grupo usar nas manifestações do Dia Internacional da Mulher. Foram 20 camisetas e um investimento de cerca de R$ 300 que resultaram no que hoje é a marca. “A Peita aconteceu assim: primeiro lancei o produto e aí depois eu tive que correr atrás de todo o resto, entender os processos de uma empresa, ir atrás de fornecedor…”

Durante o primeiro mês, Karina produzia as camisetas manualmente com a ajuda de um amigo que entendia de serigrafia. Mas, à medida que os pedidos começaram a aumentar, foi preciso expandir e profissionalizar o negócio. Hoje, são seis mulheres diretamente ligadas com a Peita.

Desde o início, todas as escolhas, desde a tipografia e o uso de cores neutras (branco, cinza e preto), foram feitas para não haver interferência na mensagem e ter o foco voltado totalmente ao conteúdo. “Se isso não fizer sentido nós estaremos fazendo um produto só para vender e não é isso que a gente quer. Por exemplo, tem gente que não pode usar a camiseta no trabalho, mas pode usar um adesivo no computador ou a caneca para passar uma mensagem numa reunião ou algo assim.”

Em média, só de camisetas a Peita vende cerca de 500 pedidos por mês. Com a pandemia, no entanto, em alguns meses a empresa registrou uma queda nas vendas de 30% a 60%. O que salvou a marca nesse período, de acordo com Karina, foi o lançamento da frase “Lute pelo SUS” e o retorno das discussões envolvendo o “Ele não”. 

“Em cinco anos de Peita foi a primeira vez que a ‘Lute como uma garota’ foi desbancada do primeiro lugar de vendas. Essas frases do SUS e do ‘Ele não’ vão além da questão de gênero, o que é legal porque mostra que a Peita tá chegando em outros lugares.” 

Karina Gallon

As frases

Atualmente, a Peita conta com 40 frases, das quais 70% são parcerias com movimentos, instituições, projetos sociais, mulheres que estão na militância e/ou empresas que se comprometem com o combate às opressões. “O fato da gente fazer as frases em co-criação faz com que elas não sejam sobre a gente e sim sobre quem está vestindo porque trazemos várias perspectivas e conseguimos incluir e atingir um número muito maior de mulheres dessa forma.”

Para chegar no resultado final de cada frase, Karina explica que, em conjunto, são pensados contexto, tom da mensagem e com quem ela está falando. “Tem esse desafio que é comunicar em quatro palavras. Mas isso é muito legal porque faz a gente pensar e era isso que a gente queria, gerar uma discussão sobre a pauta. Entender e considerar tudo isso faz com que a gente consiga criar mensagens bem fortes.”

Quem usa

Segundo Karina, 95% do público da Peita é formado por mulheres entre 24 e 34 anos. Isso não significa, entretanto, que outros grupos não usem os produtos da marca. “A gente não vende só para feministas, vendemos para pessoas inquietas.”

A designer explica que a simplicidade dos conteúdos é uma forma de fazer com que outras pessoas sejam tocadas pela mensagem. “A gente entende que não estamos falando apenas com feministas, muitas vezes precisamos ser até didáticas. A maioria das pessoas chega na Peita porque viram pessoas que gostam usando, não por conta do movimento feminista, e aí é na Peita que começa a entender mais e conhecer outras pautas.”

Quem conheceu a Peita por conta do círculo social e pela referência que a marca se tornou em Curitiba foi Sofia Magagnin, de 22 anos. Ela conta que, normalmente, usa as camisetas em shows e eventos culturais porque elas passam um recado sobre a luta feminista. “O que me fez comprar foi a proposta. As frases são uma forma de a gente se impor na sociedade, expor para fora e usar o nosso corpo com uma finalidade política mesmo.”

Futuro 

Neste momento, a equipe da Peita trabalha com o lançamento de uma nova frase que irá abordar a luta das pessoas com deficiência. Além da nova criação, Karina pretende expandir o time e abrir uma loja física ainda em 2022.

Mesmo com a expansão da empresa, Karina afirma que o objetivo da Peita continua sendo o mesmo do início: conectar e libertar pessoas, principalmente mulheres, por meio do feminismo. “A revolução não é a Peita que vai causar. A Peita só vai instigar a resistência e deixar as pessoas inquietas, o que elas vão fazer a partir disso é sobre elas, sobre as opressões e o contexto de cada uma, a Peita só vai tentar acender esse despertar.” 

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