Da floresta à livraria: setor gráfico do Paraná se adapta e sobrevive ao digital

Paraná tem produção de papel, parques gráficos e livrarias tornam setor importante para a economia do Estado

Mais de 250 quilômetros separam a cidade Arapoti, nos Campos Gerais do Paraná, de Curitiba. Caminho que leva e traz histórias por meio de páginas em branco que são timbradas na capital, onde fica a Posigraf, empresa paranaense que atende todo Brasil. 

Na Posigraf estão empregadas 900 pessoas que mantêm a indústria funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana, em três turnos. São impressos todo tipo de material, com destaque para livros didáticos. Grande parte do papel para produção também é paranaense: vem da empresa BO Paper, de Arapoti. 

A empresa tem capacidade de produção de 360 mil toneladas de papel por ano, juntando a unidade de Jaguariaíva, também no Paraná. Parte da produção é destinada para a Posigraf a cada 30 dias para impressão de mais de 80 milhões de livros anualmente.

De acordo com o relatório anual da Indústria Brasileira de Árvores de 2023 a produção de celulose no Brasil alcançou 25 milhões de toneladas em 2022, tornando o país à época o maior exportador de celulose do mundo. 

Os números suntuosos, a era digital impactou o mercado dos impressos, principalmente no que tange aos livros. No ano passado, segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL), houve uma queda na venda e no faturamento do varejo. A pesquisa realizada pela Nielsen Book revela que em 2023 os houve variação de -17,21% na venda de livros. Há diversos fatores que impactaram o volume de vendas, entre eles a Copa do Mundo, por conta das vendas dos álbuns de figurinhas. 

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Para enfrentar as adversidades, as indústrias que integram a cadeia produtiva do setor gráfico têm apostado em inovações e diversificado as estratégias. Na Posigraf, por exemplo, além da priorização do mercado nacional, a ideia é não ser um concorrente do digital, mas um aliado. 

“Entre 60% e 70% da produção é voltada para os livros didáticos, e as próprias editoras têm mesclado o digital com o papel. Imprimindo livros que utilizam QR Code para atividades complementares, por exemplo”, explica o gerente de marketing da Posigraf, Fábio Cordeiro, que há mais de uma década atua na indústria. 

Ciência

Neste mesmo panorama, o livreiro Jeferson Freitas, da Pulga Edições, também de Curitiba, conta que atuou como professor por muito tempo e no setor educacional há preferência por materiais impressos, sobretudo porque há alunos que não têm acesso de qualidade à internet. 

Para a empreendedora Samantha Oyama, de 33 anos, a leitura em papel supera a leitura nos dispositivos digitais. “Apesar de ser uma tecnologia que facilita a vida dos leitores, não traz a emoção humanizada de sentir o cheiro do papel, dos pensamentos soltos transcritos com caneta, perde a essência de quem é o leitor”, diz.

Isso é justamente o que discute uma pesquisa orientada pelo professor-doutor Roberlei Alves Bertucci, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). O estudo, do mestrando Lucas Granado Busato, intitulado “Anotações em ambiente digital: mediação e impacto na leitura” deve ser concluído ainda neste ano e averigua se há diferenças nas aprendizagem por meio da análise das anotações feitas em papel e em equipamentos digitais. 

Made in Paraná

Além das florestas para produção de papel e celulose, o Paraná também tem inúmeras editoras que fazem impressões sob demanda para diminuir custos e concorrer de forma mais párea com os e-books

Uma delas é a Arte & Letra, que fica em Curitiba. O livreiro Tiago Tizzot explica que há mais de cem títulos impressos, contra seis livros digitais no catálogo. 

A empresa mescla indústria e varejo e consegue produzir, em média, 80 exemplares por semana. A produção é feita artesanalmente, o que deixa o tempo de produção maior, mas agrega valor ao produto, que é vendido em todo Brasil, sobretudo para o Estado de São Paulo. “Acho que tem relação também com o tipo de livro que nós publicamos. Quem gosta de literatura, em geral, prefere ler no físico”, analisa. 

A tática do setor livreiro caminhar lado a lado com os dispositivos eletrônicos parece ter surtido efeito. A projeção das indústrias que compõem é otimista para este ano: a Posigraf espera aumentar o volume de impressos em dois dígitos; já a Klabin, que produz anualmente 4,6 milhões de toneladas de celulose e papéis, anunciou investimento U$ 1,160 bilhão para aquisição da operação florestal da Arauco, no Paraná.  A previsão é que o primeiro ciclo de colheita permita autossufiência de 60 mil hectares produtivos. 

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