Se a infância tem um gosto, ele está no cardápio d'A Formiga | Plural
22 out 2019 - 23h50

Se a infância tem um gosto, ele está no cardápio d’A Formiga

Gerações já tomaram sorvete no degrau do estabelecimento aberto em 1951, na Avenida Iguaçu

A placa redonda, logo abaixo das letras vermelhas, diz: “A Formiga”. Contra o fundo branco, o artrópode aparece segurando uma casquinha com bolas de sorvete. As portas de vidro da sorveteria, emolduradas por uma cor clara, dão para o degrau que acompanha a fachada, e serve de banquinho para quem visita o local. Ali, no número 2.011 da Avenida Iguaçu, a calçada é larga e conta com retângulos de grama e árvores frondosas. 

Em dias de sol, a luz que passa entre as folhas parece reforçar o clima de nostalgia – aquela sensação mais lenta dos domingos pela manhã. O sorvete d’A Formiga, de produção artesanal, colabora: há quem diga – incluindo a dona atual, Evani Frishmann – que tem gosto de infância. O preparo simples tem sido o mesmo há anos: leite, fruta e pouco açúcar. 

Uma receita que chega à consistência de sorvete com a ajuda do maquinário. “As pessoas acham que não chega no ponto, mas a máquina chega”, comenta a proprietária. Embora tradicional, a receita é também o diferencial da sorveteria: “Se eu mudar porque é mais barato, ou dá mais lucro, vou cair no que tem por aí”, diz ao lembrar que chegava a atravessar a cidade de São Paulo, quando morava lá, para ir a uma sorveteria de sorvetes naturais.

Hoje, aos 63 anos, Evani já passou metade da vida na sorveteria – ela é a personalidade por trás d’A Formiga. Quem abriu o estabelecimento foi Seu Carlito, ou Carlos Augusto Verlangieri, em 1951. O fundador morreu em agosto de 2011, deixando duas filhas.

A compra

A história da compra da sorveteria de paredes amadeiradas é inusitada. Era algo entre maio e junho de 1988, vinda do interior de São Paulo, Evani havia se mudado para Curitiba com o marido, Alberto, e o filho Max, de seis anos. A família veio à capital paranaense temporariamente por causa do trabalho de Alberto, que acabou sendo definitivamente transferido para a cidade. 

A placa ilustrada d’A Formiga. Foto: Washington Cesar Takeuchi

Na época, ele ia frequentemente a uma papelaria nas proximidades da sorveteria, fazer fotocópias. Lá, ele ouviu que Seu Carlito procurava por um comprador. Depois de mais de 30 anos de negócio, o proprietário e fundador queria se aposentar e cuidar da esposa doente. A ideia era o “boca a boca” mesmo, Carlito tinha muito amor pelo lugar e queria escolher alguém que fosse dar continuidade à história d’A Formiga. 

Disposta a trabalhar, e com a transferência definitiva do marido, Evani foi conhecer a sorveteria: passou dois fins de semana no lugar, queria ver como era o movimento, o trabalho. A conversa com o proprietário chegou à residência da própria Evani, que conquistou Seu Carlito lhe servindo uma torta de banana. “Até a minha geladeira ele olhou, pra você ter ideia!”, diz Evani. 

Apesar da boa impressão, ela conta que não se interessou pela compra: “Era muito compromisso, de segunda à segunda. A gente viajava…”, comenta. O prazo de Seu Carlito para a venda, no entanto, estava se encerrando e ele voltou a falar com a pretendente. Insistiu, fez propostas para facilitar o pagamento. Por fim, o que convenceu Evani foi simples: o negócio estava pronto, andando, e ela sentiu que as coisas simplesmente se encaixavam. Em 8 de outubro de 1988, A Formiga mudou de dono. 

Logo que entrou, e começou a aprender o ofício, a nova dona provou todos os sorvetes, mudou receitas, incluiu sabores. O sorvete de coco, o favorito da infância, foi o primeiro: “Usava floco, daquele fininho, uma miséria de floco. Coco é com pedaço de coco, como eu comia na infância”, diz.

Apesar da venda da sorveteria, Seu Carlito manteve o imóvel no qual A Formiga está instalada – hoje, o patrimônio pertence a uma das filhas do fundador. Além do lugar do negócio, a família também tinha um apartamento no prédio logo acima da sorveteria, no qual Seu Carlito morou por algum tempo. Quando pergunto se ele frequentava a sorveteria, e se criticava as mudanças feitas pela nova proprietária, a resposta vem com um sorriso: “Ele não podia falar isso, porque eu melhorei tudo aqui!”, diz.

Conquistar as quatro funcionárias do lugar foi outro passo importante: depois que ficaram amigas, elas contaram que colocaram Evani em período de experiência. Deram um mês: se não se acertassem, sairiam todas juntas. O quarteto permaneceu, entre elas Rosa Batista Teixeira, a Rosinha, que trabalhou 43 anos na sorveteria – 12 com Seu Carlito e 31 com Evani. 

O legado

Como todo bom estabelecimento com décadas de funcionamento, os clientes fiéis fazem a história – gerações passaram e ainda passam pel’A Formiga. “Tem famílias e famílias que a gente viu namorar, noivar, casar e que agora trazem os filhos”, conta ao lembrar das paqueras escondidas, que marcavam encontros na sorveteria. 

No interior, prêmios e indicações adornam as paredes. Foto: Washington Cesar Takeuchi

Além das histórias acompanhadas de trás do balcão, outro deleite da proprietária é o reconhecimento do trabalho – os prêmios, indicações e reportagens ornamentam boa parte das paredes da sorveteria. As molduras vermelhas destacam as premiações.

Há casos, ainda, como o de uma família que havia se mudado para Brasília (DF) há anos, sem retornar a Curitiba. Quando voltaram à capital paranaense, procuraram pel’A Formiga. “Eles tinham aquela lembrança. Enquanto passeavam pela cidade vieram aqui todos os dias”, recorda. Os relatos de indicação são uma constante na história da sorveteria, algo que Evani confessa só ter tido noção depois da compra.

Os próximos verões

Além do sorvete, A Formiga conta com outras duas “peculiaridades” nos tempos modernos: não há mesas e o lugar só aceita pagamentos em dinheiro. O primeiro se explica pelo espaço físico: há residências no local e a pequena cozinha não conseguiria armazenar mais do que já comporta.

Quanto a não aceitar cartões, Evani diz que até tem pensado no assunto, mas justifica a ausência da alternativa listando uma série de outros comércios que também não aceitam (chega a me dar mais um exemplo, via WhatsApp, após a entrevista). Com um apreço por ilustrar exemplos, conta como “salvou” o filho com um rápido empréstimo de dinheiro físico, necessário para pagar o conserto de um celular. Manter o preço é, segundo ela, outro fator decisivo nessa questão. Atualmente, cada bola custa seis reais – valor que, de acordo com a proprietária, está defasado. A máquina de cartões vai depender do ritmo dos próximos verões. 

Embora as vendas se mantenham no inverno, Evani sabe que não é uma boa época para negócios. “O movimento mudou. A cidade mudou. O país mudou”, diz. A Formiga continuará existindo, enquanto der, embora sua proprietária reconheça que, não fosse o trabalho do marido, teria tido mais problemas financeiros na sorveteria. O olhar para o futuro vem com outro ponto – quando questionada por um cliente sobre a divulgação, que fica só no boca a boca – arrematou: “Não, está bom aqui, é o que eu dou conta de cuidar, não precisa aumentar”, diz.  

Serviço 
Sorveteria A Formiga
Onde: Avenida Iguaçu, 2011 (Água Verde)
Quando: todos os dias, das 10h às 19h

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