Poesia de verdade “dá trabalho”, diz Rodrigo Garcia Lopes | Jornal Plural
15 set 2020 - 11h30

Poesia de verdade “dá trabalho”, diz Rodrigo Garcia Lopes

De delações premiadas à pandemia, parece não haver tema capaz de intimidar o escritor, que publica “O enigma das ondas” na semana que vem

(Foto: Elisabete Ghisleni/Divulgação)

Para o escritor Rodrigo Garcia Lopes, a vida hoje só é suportável se você recorre a elementos de humor e sátira. Eles ajudam a lidar com o desencanto, a sensação de impotência e a nostalgia. Nenhum desses sentimentos é estranho à poesia que Garcia Lopes escreve, como fica claro no livro “O enigma das ondas”, que a Iluminuras publica na semana que vem.

Parece não haver tema capaz de intimidar o poeta londrinense: de delações premiadas até a pandemia do coronavírus, ele mostra como é possível fazer uma poesia que é tão rigorosa na forma quanto urgente no conteúdo.

“Acredito que o verdadeiro poema, onde forma e conteúdo estão em perfeita simbiose, mobiliza leitor e autor por inteiro: inteligência, emoção, sensibilidade, memória, cultura, intuição etc. Dá trabalho, enfim”, diz, nesta entrevista ao Plural, feita por e-mail.

“Cheguei a parar o romance policial que estou escrevendo. Pensava: o que é esta trama de mistério perto desta minissérie trágica, triste e interminável que estamos testemunhando nos últimos anos no Brasil?”

Em “O enigma das ondas” você encara questões atuais e urgentes. No livro, há até um poema que fala sobre delações premiadas. Por que escrever versos sobre política? (Ou talvez a pergunta seja: Por que a política tem de aparecer também na poesia?)

Porque me parece um desafio escrever poemas de qualidade e relevantes, impactados pela realidade imediata ou pelo mundo contemporâneo. Um impulso que passou a ser mais urgente nesses últimos cinco duros anos, desde o golpe à presidente Dilma.

Fiquei por um tempo com uma sensação de impotência e um desencanto muito grandes, um silêncio e uma inação, em que cheguei a questionar a própria razão de escrever poesia, de fazer literatura, arte. Talvez tenham sido os mais difíceis de escrever.

Cheguei a parar o romance policial que estou escrevendo. Pensava: o que é esta trama de mistério perto desta minissérie trágica, triste e interminável que estamos testemunhando nos últimos anos no Brasil? Ou, ainda, o que são dois ou três assassinatos de papel, comparados à chacina à democracia e às milhares de mortes diárias, a tantos crimes?

Aí escrevi o longo poema “O enigma das ondas” e o livro ganhou novo impulso, com as quatro seções bem claras na minha cabeça. O importante, para mim, é escrever poemas políticos de qualidade, caso eles se imponham por necessidade, mas sem ser panfletário, sem cair no “discurso” e, acima de tudo, sem nunca descuidar da forma, ou da tensão entre forma e significado.

Alguns poemas do livro foram terminados já em plena pandemia, os últimos em agosto de 2020 (este ano distante), como “Sextina”, “Pandora”, “Sextina: o Dia da Marmota”, “Autópsia”, “Tritina: writer´s block”, “Tritina para Orfeu”, “Tritina: alba” e “Tritina: sumi-ê”. As restrições impostas por uma forma fixa fechada, como nesses casos, me pareceram adequadas para captar essa atmosfera de confinamento – de lockdown – em que vivemos, essa experiência da pandemia, de eterno retorno do mesmo em que parecemos ser “prisioneiros do presente”.

“Paradoxalmente, estes poemas [do livro novo] foram trabalhosos mas me deram uma liberdade inédita. Um truque foi escrever de coisas que estavam acontecendo como se já fossem parte do passado.”

Paradoxalmente, estes poemas foram trabalhosos mas me deram uma liberdade inédita. Um truque foi escrever de coisas que estavam acontecendo como se já fossem parte do passado. “O enigma das ondas” [o livro] tem quatro seções bem distintas e “pandemonium” reúne esses poemas mais políticos. Uso a palavra política no seu sentido etimológico, que me parece mais amplo e mais preciso: do grego politikos, de pertencente à polis, ou seja, ao público, referente à vida pública, “as coisas relativas à vida da cidade”. Em contraposição ao idiota, “aquele que só se preocupa consigo mesmo”, aos seus “interesses particulares”. Nesse sentido, mesmo um poema “sobre” a natureza, ou que busque captar o infraordinário, o cotidiano, pode ser político à medida que, via arte da linguagem verbal (poesia), aumenta nosso conhecimento e percepção para o que nos rodeia, para a natureza, nossas relações com os seres e as coisas, para nossa consciência de linguagem, para nossa existência.

Entre os 91 poemas há alguns que levantam questões e críticas, às vezes sob a forma de pastiche, sobre “a morte do autor” e o ambiente literário, a própria poesia e o solipsismo, a superficialidade e informalismo de parte da poesia praticada hoje (o último poema do livro a ser escrito chama-se, justamente, “La maison de mère Jeanne”).

“Apesar de tudo, ainda acredito que a poesia nos abre a possibilidade de experimentar um tempo não utilitário, o uso não pragmático (e, por que não dizer, mágico) da linguagem.”

Num dos poemas, você repete a pergunta: “Quem vai herdar nossa miséria?”. Em outro, você termina oito estrofes com as palavras: “Tudo vai dar certo”, mas de um jeito nada otimista (“Pior do que está pode ficar./ Dias sombrios, céu encoberto./ Mentiras turvam o ar./ Tudo vai dar certo”). Mesmo assim, mesmo sem otimismo, o efeito é reconfortante. Nesse contexto, você acha que a poesia pode ser uma espécie de respiro? (Ou não se deve ler poesia buscando alento?)

Os poemas da segunda seção são marcados pelo desencanto, sensação de impotência, nostalgia. Mas isso é contraposto com a imersão na arte e a busca pela beleza, pelo sentido das coisas e pela música do pensamento poético. Por outro lado, creio que minha poesia também tem um elemento de humor e de sátira sem os quais acho impossível viver no mundo atual.

Para mim, poesia é uma arte, não autoajuda, nem entretenimento. Todas as falas e vozes cabem nesse lugar, neste habitat comum que é a linguagem humana. Apesar de tudo, ainda acredito que a poesia nos abre a possibilidade de experimentar um tempo não utilitário, o uso não pragmático (e, por que não dizer, mágico) da linguagem. Como escreveu o poeta Joseph Brodsky: “Se o que nos distingue de outras espécies de animais é a fala, então a poesia, que é a operação linguística suprema, é nosso objetivo antropológico – genético, de fato”. Acredito que o verdadeiro poema, onde forma e conteúdo estão em perfeita simbiose, mobiliza leitor e autor por inteiro: inteligência, emoção, sensibilidade, memória, cultura, intuição etc. Dá trabalho, enfim.

Como Antonio Cicero lembra, em um ensaio: “Para fruir um poema é preciso nele imergir. E como a imersão não combina com a temporalidade acelerada do presente, muitos afirmam que a poesia simplesmente não tem mais lugar neste mundo. Pois bem, é exatamente por não se ajustar à temporalidade acelerada do presente que a poesia é necessária hoje”.

Assim como você, o poeta John Ashbery (1927-2017), foi tradutor de Rimbaud. E ele dizia se sentir mais confiante com as traduções que fazia do que com a poesia que escrevia. Como é a sua relação com esses dois trabalhos – o de traduzir versos e o de produzir versos? (Sem considerar que traduzir poesia é também, claro, fazer poesia.)

Sim. E somos, curiosamente, tradutores da mesma obra: as “Illuminations”, que o grande Ashbery traduziu em 2012. Eu e Maurício Arruda Mendonça publicamos a nossa tradução em 1994, pela Iluminuras. A tradução é uma atividade crítica e criativa. Comecei a traduzir por volta dos 16 anos, depois de tomar contato com as traduções dos irmãos Campos e com “ABC da Literatura”, de Ezra Pound, em que o poeta americano defendia a tradução como uma espécie de laboratório poético, um instrumento importante para o poeta iniciante (e mesmo para o veterano, eu diria). É uma espécie de academia de ginástica poética. Ou a solução de um quebra-cabeça. Eu pude explorar a relação detetive-tradutor em “O trovador”, romance policial ambientado em 1936 em Londres, Rolândia, Londrina e Escócia. Ao traduzir, você é capaz de repoetizar o original em sua própria língua. É uma arte que nos permite recapturar, em momentos privilegiados, o momento da criação (ou do “crime”, como escrevo em “Autópsia”). Acredito na tradução como um exercício de alteridade, uma prática que nos permite dialogar com outras eras e culturas, lugares, falas, outros modos de fazer. É natural que essa atividade acabe contaminando minha poesia, e que minha poesia acabe, por sua vez, influenciando os textos que traduzo.

O livro

“O enigma das ondas”, de Rodrigo Garcia Lopes. Iluminuras, 152 páginas, R$ 53 (o livro) e R$ 32 (e-book).

Na página da editora, o livro está em pré-venda com 40% de desconto (R$ 31,80). O lançamento será no dia 21 de setembro.

Leia “Selvageria”, um dos poemas do livro, publicado com exclusividade pelo Plural.

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