23 jan 2020 - 22h58

O Roberto Alvim que Curitiba conheceu

Demitido do governo Bolsonaro por repetir Goebbels, Alvim deu aulas para grandes nomes do teatro paranaense. Hoje, todos estão atônitos com seu comportamento

A passagem relâmpago de Roberto Alvim pelo governo Jair Bolsonaro (PSL), que culminou com o vídeo em que ele repete Joseph Goebbels, causou mal-estar entre os artistas de teatro do Brasil inteiro. Em Curitiba, onde Alvim criou toda uma história de proximidade com atores e diretores, o mal-estar foi duplo.

Desde que o dramaturgo apareceu com uma camiseta de Jair Bolsonaro, ainda antes do segundo turno, o clima esquentou. “Foi bem pesado. Num grupo, começaram a questionar todo mundo que tinha convivido e trabalhado com ele. Eu nunca respondi nem vou responder. Também não vou falar do Alvim agora pra bater em cachorro morto”, diz uma pessoa da classe artística que conviveu com o dramaturgo mas que, a essas alturas, prefere não se identificar.

Alvim chegou a Curitiba em 2009 por meio de um projeto do Sesi, o Núcleo de Dramaturgia. Durante vários anos colaborou dando aulas para diretores e atores locais. Depois, acabou assumindo a coordenação do projeto, que se estendeu até 2016. No projeto, também ajudou a coordenar uma mostra importante de teatro.

Na época, Alvim tinha fama de ser o novo gênio do teatro brasileiro, apresentado como possível sucessor da geração de José Celso Martinez Corrêa e Antunes Filho. “O talento dele é inegável, como diretor, como dramaturgo”, diz Marcos Damaceno, diretor premiado com o Shell de Dramaturgia no ano passado e primeiro coordenador do Núcleo de Dramaturgia.

Na cidade, passou a ser incensado por muitos. Suas aulas eram concorridas, e atraíam alguns dos principais nomes do teatro paranaense. Outros já de cara não gostavam dele, por diferentes motivos. O próprio Damaceno diz que o talento vinha mesclado com outras características complicadas, como mitomania e culto da personalidade. Um déficit de caráter, digamos.

Casado com a atriz Juliana Galdino, outra artista considerada de primeiro time mas que agora passou a ser anátema, Alvim se tornou adorado e odiado ao mesmo tempo. (Curiosamente, Anátema era o nome de uma das peças apresentadas por ele em Curitiba.)

Em 2017 e 18, com o fim do projeto do Sesi, Alvim se afastou da cidade e parecia que tudo tinha ficado para trás. Mas em junho do ano passado, ele reapareceu: se dizendo vítima de boicote por votar na direita, previa o fim da própria carreira. Ao saber do caso, Bolsonaro foi buscá-lo para a Funarte.

Lá, Alvim chamou Fernanda Montenegro de sórdida e acabou promovido. Virou secretário nacional de Cultura – uma espécie de ministro, só sem o título. E aí, com o episódio da citação a Goebbels, sua carreira parece de fato ter se encerrado.

Desde o segundo turno, porém, a coisa vinha se acirrando de novo. “Houve muita cobrança em cima de mim na época que ele foi para o lado negro da força, mas eu estava tão confuso quanto todo mundo”, diz um diretor que só aceitou falar com o Plural em off.

“Ele realmente não era essa pessoa que está aí hoje”, diz um diretor. “Ele era amigo do Vladimir Safatle, chamava o Marcelo Freixo de maior homem público do país. Foi ele que me apresentou para o Chico Buarque!”

Para alguns, Alvim sempre foi um sujeito de comportamento errático. “Eu brincava que nunca sabia quem ia morrer antes, se ele ou a Amy Winehouse. Mas a Amy morreu e ele está aí”, diz Damaceno, que não renega a antiga proximidade, embora, como todo mundo, se diga estupefato com a virada de Alvim.

“Um artista brilhante, um dos mais brilhantes que conheci, que se apagou pelos seus próprios problemas de caráter, desvarios de todo tipo, que se tornaram maiores que o artista”, diz.

A virada de fato ocorreu depois da saída de Curitiba, quando Alvim descobriu um câncer e passou a acreditar que foi salvo por Jesus. Uma empregada de sua casa orou por ele e, segundo Alvim, um milagre fez o tumor quase sumir. Em pouco tempo, ele tinha se tornado crente fervoroso e, mais adiante, discípulo de Olavo de Carvalho.

Os antigos admiradores evidentemente negam concordar com o novo Alvim. “Tem gente dizendo que se ele era fascista e a gente não percebeu, então todo mundo era fascista. Mas ele realmente não era assim”, diz um entrevistado.

Alguns preferem manter a distância. Nena Inoue, atriz vencedora do Shell no ano passado, contratou Alvim para dirigir uma peça, chamada Haikai. Hoje, prefere não comentar sobre o caso, e só diz que não teve nenhum problema com Alvim durante a temporada em que trabalharam juntos.

Outros buscam as mais diferentes explicações para o que aconteceu para uma mudança tão brusca. A vida desregrada poderia ter deixado sequelas, diz um. Ele está surtado, diz outro. Mas em resumo, ninguém reconhece no atual Alvim o sujeito que passou por Curitiba e que era cantado como o mais novo gênio do teatro nacional.

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4 comentários sobre “O Roberto Alvim que Curitiba conheceu

  1. Há poucos anos, víamos pessoas de todo espectro político-ideológico trabalhando juntas, sem grandes problemas, nas mais diversas áreas do conhecimento. De repente, pela virada de mesa da Direita sobre a Esquerda no âmbito da esfera federal, aparece essa dicotomia, esse separatismo ou, mais claramente dizendo, esse ‘cancelamento do outro’, pela mera diversidade de pensamento. Ser do ‘outro lado da força’ tornou e ser humano vetor de doença contagiosa, de praga do Apocalipse, ou algo semelhante. Nos quesitos respeito e tolerância, estamos ‘evoluindo’ pra trás. Isso de ambos os lados. Triste fim para a sociedade brasileira.

  2. Sinto muita falta do diretor Roberto Alvim. Muita falta. Muita! A arte nunca foi levada tão a sério quanto quando esteve nas mãos dele. Desconheço artista que se embrenhou com tanta intensidade em cada peça, em cada cena, em cada gesto. Eu sinto falta.

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