O nazismo de Roberto Alvim é um sintoma, não uma exceção | Jornal Plural
17 jan 2020 - 11h59

O nazismo de Roberto Alvim é um sintoma, não uma exceção

De nada adiantará tirar a fruta de uma árvore que continuará produzindo

É evidente que Roberto Alvim tem de ser demitido, de preferência hoje. É óbvio que seria excelente se o governo, além de demiti-lo, pedisse desculpas. Mas seria preciso muita ingenuidade política para achar que isso será sincero – e seria ainda necessário ser ainda mais ingênuo para imaginar que isso resolverá o problema.

Jair Bolsonaro jamais escondeu seu caráter autoritário. Seria tolice ficar repetindo aqui seus elogios à ditadura, sua fala de que é preciso matar 30 mil pessoas, ainda que entre elas estejam inocentes, suas homenagens à Ustra, seu ódio a quem pensa diferente. Seu ódio a quem pensa. Ele deixa claro a todo momento que não é um democrata.

O presidente se elegeu prometendo mandar seus adversários para a Ponta da Praia e, sempre que é confrontado pela imprensa, bota a mãe do repórter no meio. Odeia gays. Odeia o diferente. Odeia tudo que não for radicalmente bolsonarista.

Roberto Alvim não é um ponto fora da curva. É um sintoma. De nada adiantará tirar a fruta de uma árvore que continuará produzindo.

A política sugerida por Alvim não é só semelhante à de Goebbels. É semelhante a outras políticas sugeridas pelo governo federal desde o ano passado.

Bolsonaro combate a democracia por diversos modos. Um deles é tirar a neutralidade do Estado. É dizer que o governo tem um papel em escolher como os cidadãos devem se comportar.

Um pouquinho de filosofia. Até o século 18, sempre foi assim: o rei, o príncipe, pôde durante muito tempo inclusive ditar a religião dos seus súditos. Veio a democracia moderna, e com ela a ideia necessária de que o Estado não deve se meter no plano de vida das pessoas.

John Stuart Mill foi o sujeito que cristalizou isso numa fórmula: as pessoas podem fazer o que quiserem numa democracia, desde que não causem danos a terceiros. Tenha a religião que quiser, a orientação sexual que quiser, goste do que gostar, pratique a arte como achar melhor: desde que isso não cause danos a terceiros, não se pode proibir.

As duas grandes ideologias antidemocráticas do século 20 se opuseram a isso frontalmente. O combate dos nazistas à Arte Degenerada e az invenção do realismo socialista de Stálin são dois lados da mesma moeda. São dois modos de combater o liberalismo.

Quando Damares pede a abstinência sexual, está indo no mesmo caminho. A um governo liberal, neste sentido, só cabe dizer: DSTs existem, e existem formas de combatê-las. Não cabe ao governo tomar partido por uma opção moral.

O Escola sem Partido vai no mesmo caminho. A denúncia de professores. O combate à universidade. Tudo fecha.

Isso tudo poderiam soar discussões bizantinas sobre política até recentemente. Hoje, falar disso é o que pode nos salvar da mais temível situação: um governo que nunca escondeu que deseja aniquilar seus oponentes ganhando, aos poucos, poderes para fazê-lo.

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