Foi o Garcia-Roza que fez eu me apaixonar por romances policiais | Jornal Plural
24 abr 2020 - 16h37

Foi o Garcia-Roza que fez eu me apaixonar por romances policiais

Criador do detetive Espinosa morreu há pouco mais de uma semana; não tive a chance de conhecê-lo pessoalmente, mas conheci seus livros

A história de como virei fã de romances policiais começa numa livraria de Curitiba. Após passar pelo corredor pouco iluminado, com revistas dos dois lados, entramos no salão acarpetado, mobiliado com mesas grandes cobertas de livros. Tudo na livraria tornava o ambiente aconchegante.

Eu dava uma olhada nas estantes, sem encontrar nada que me chamasse atenção, quando meu pai mostrou um livro com a lombada azul piscina e uma foto em preto e branco na capa, dizendo a frase: “Este livro tem a cena de suicídio mais impressionante  que já li”.

Eu estava acostumado com os exageros do meu pai, que fazia a propaganda ser às vezes muito melhor do que a coisa de fato. Quando ele disse “a cena de suicídio mais impressionante que já li”, não pensei que fosse tudo isso.

Peguei o livro e sentei numa poltrona confortável, e abri “O silêncio da chuva”, que começa com a tal cena de suicídio. Eu não era um leitor há tempo suficiente para ter muita credibilidade (tinha 13 anos), mas: meu Deus! Era com certeza a melhor cena de suicídio que eu tinha lido.

Um trecho que ilustra a genialidade da cena: “Abriu o porta-luvas e retirou o maço de cigarros, guardado desde que decidira deixar de fumar, pouco mais de dois meses antes. Saboreou o cigarro lentamente; as tragadas fortes, após longo tempo de abstinência, deixaram-no ligeiramente tonto, mas não o suficiente para alterar-lhe a lucidez. Assim que terminou, fechou novamente os vidros, abriu a pasta, retirou o revólver, encostou o cano na têmpora direita e puxou o gatilho”.

Isso me chocou, me surpreendeu e me conquistou.

Olhei para o meu pai com os olhos arregalados e quase implorei para levar o livro. Depois descobri que esse foi o primeiro romance policial escrito pelo psicanalista carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Hoje, pouco mais de um ano depois do meu primeiro contato com sua escrita fluida, estou na metade do quinto livro protagonizado pelo detetive Espinosa, com o título “Perseguido”.

Eu diria qual é o meu livro preferido entre os que li, mas são todos tão bons que não consigo escolher. Adquiri o hábito de sempre ler umas poucas páginas de algum livro antes de dormir e, quando o livro é um Espinosa, fico ansioso para poder deitar e ler.

Muitas vezes fico tão animado lendo que passo mais tempo acordado do que ficaria se simplesmente deitasse e apagasse a luz. Foi o Garcia-Roza que fez eu me apaixonar por romances policiais e me inspirou de tal forma que comecei a escrever um romance policial (mas ainda não passei da primeira página).

Garcia-Roza parecia ser um sujeito muito carismático e simpático. Ele morreu há pouco mais de uma semana. Não tive a chance de conhecê-lo pessoalmente, mas conheci seus livros.

E isso é o bastante para mim.

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