Dow Raíz, das ruas de Curitiba para o Brasil | Plural
Fide 2019
16 set 2019 - 7h30

Dow Raíz, das ruas de Curitiba para o Brasil

No circuito underground, Dow Raíz é a voz das ruas curitibanas

Alguém na plateia grita “Douglas” quando as luzes do palco, no Teatro Paiol, se apagam. Douglas Raí Santos de Oliveira – o Dow Raíz – faz uma entrada performática, pouco tempo depois. Traja um macacão preto, óculos escuros redondos, e tênis amarelos – cujos cadarços insistem em desamarrar – enquanto o MC faz movimentos performáticos, acompanhando o ritmo das suas letras de protesto. 

Dow em apresentação no Paiol, em setembro de 2019. Foto: Giorgia Prates

Fazer um show, lotado, em um teatro é algo fora dos padrões para Dow: “Vim do Rap, que nunca foi aceito em lugares assim”, comenta ao celebrar a casa cheia, ocupada pela periferia curitibana. Há pouco mais de um ano, o MC trocou a capital paranaense pela cidade da garoa – em São Paulo, mora no estúdio em que grava suas músicas.

Dez anos atrás, ainda em início de carreira, as coisas eram bem diferentes. “Pra você entrar não tão fácil como hoje, você tinha que provar que era um homem, uma mulher, capaz de ser do rap”, relembra. A primeira vez que cantou, além de pagar pela entrada no lugar, Dow se apresentou por último, quando só restavam os seguranças. “Aqui vieram realmente pra entender e refletir sobre, apoiar o mano”, diz sobre se apresentar em casa. Nesse sentido, a mudança para São Paulo trouxe, para o cantor, a força da representatividade, de quem veio da rua: “Curitiba deu uma caída no Rap muito grande, não tinha mais ninguém representando fora”, conta. 

O começo na música veio de três elementos principais: da família, com um avô que era do soul funke do irmão mais velho, que era MC; da vida como skatista; e das ruas do CIC. Nos tempos de campeonato de skate, Dow lembra das apresentações do falecido DJ Primo: “Ele colocava umas músicas e eu falava ‘Caramba!’, chegava nele e perguntava ‘Que música é essa?’. Ele me passava em um papel e a gente tinha que correr atrás das fitas, na época. Ou vinil, que era mais difícil”, narra. O apoio do irmão mais velho, com quem trabalhava até pouco tempo, foi um incentivo à parte, essencial para a história do MC, que rimava desde os 12.

Letras são “dedo na ferida”, baseadas na realidade das ruas e na vida pessoal do MC. Foto: Giorgia Prates

Em meio a vida em família e ao universo do skate, foi nas ruas que Dow viu sua primeira oportunidade de mostrar valor – nas batalhas de MC. “Eu tinha que provar que era bom de alguma forma. Falei ‘vou na batalha, vou ser xingado, mas os caras vão aprender que eu também quero fazer a parada’”, conta. A ideia era completar o circuito curitibano, e angariar respeito. Só depois, quando as ruas da cidade já conheciam o persistente adolescente, é que vieram as músicas próprias. “Todo lugar que eu ia, colocava o pen drive, falava ‘deixa eu cantar’, e ficava infernizando. Enquanto o cara não deixava, eu cantava só por segurança, mas eu cantava”, relembra.

De batalha em batalha, e apresentações com pen drive, Dow construiu a carreira underground sem nunca deixar de lado a rua: “Sou do CIC, Santa Helena, Fazendinha. Isso também foi uma parada que me influenciou demais”, diz ao afirmar que essa influência, da vila, ajudou muito. Para Dow, a periferia é uma potência artística movida pela força da expressão. “A gente tá em um momento em que falar não é tão forte quanto cantar, a música consegue dar uma voz, pros oprimidos, muito maior do que a gente gritar na rua”, afirma. 

É da própria realidade que o artista tira suas composições: seja dos problemas pessoais, enfrentados pela família, ou daquilo que observa nas ruas, em São Paulo ou em Curitiba. “A minha mensagem é de paz, de união. A mensagem de resgate a uma vida de consciência”, declara. O EP mais recente, “As Profundezas de um Tempo Danger”, lançado em 2019, reúne justamente isso: de músicas como “Adora Funk”, que critica o preconceito, até a primeira canção de amor de Dow – “Me Oferece o Mundo”. Se os tempos parecem meio perigosos para o músico, não há dúvidas de que as ruas não devem deixar tão cedo as composições do MC, que rejeita o título de rapper: “Eu me identifico como MC mesmo, de estar nos bairros, falando sobre as coisas, ajudando as pessoas”, finaliza. 

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