As demissões não param. Com o fim do prazo judicial para o desligamento de todos os funcionários da Fundação da Universidade Federal do Paraná (Funpar) que atuam no Hospital de Clínicas (HC) de Curitiba, os pacientes vêm sentindo o impacto da ausência dos servidores. As filas estão cada vez maiores. Nesta semana, os atendimentos nos ambulatórios precisaram ser realizados sem os prontuários médicos, pois não havia quem os retirasse, já que são todos em papel.
A informação a que o Plural teve acesso foi repassada internamente às unidades assistenciais. O comunicado diz que “não será possível retirar os prontuários para consultas de todos os ambulatórios, devido à redução de 76% do quadro de pessoal da Funpar no Servido de Arquivo Médico e Estatística (SAME)”. Este, por sua vez, fará a “priorização para ambulatórios especializados”.
O texto cita, então, 171 especialidadesmédicas atendidas nos 29 ambulatórios do HC, para as quais os médicos precisarãoatender sem um de seus principais instrumentos de trabalho: o prontuário. Nele,estão todas as informações sobre o paciente, seu histórico, exames, doenças,alergias, consultas e tratamentos já realizados.
“Está tudo anotado lá. Nosistema do hospital não tem nada sobre o paciente; só serve pra pedir exame. Ohistórico, que são os prontuários, são todos em papel e ficam em outro prédio.Quando tem consulta, separam e encaminham; mas isso não tem acontecido nosúltimos dias”, conta um dos médicos do SAM, que preferiu não se identificar. “Hojecomeçamos do zero e assim é difícil atender pois os pacientes têm diagnósticoscomplexos aqui e muitos nem sabem dizer as doenças que têm”, ressalta o médico.
Funcionários de outros setores também já sentem a precarização do trabalho. “O atendimento está muito demorando, as filas estão longas, os pacientes sofrem e acabam descontando nos funcionários. Mas não estamos dando conta. Não houve um preparo para as demissões, sentimos muito a falta desses trabalhadores, que são um patrimônio humano do CHC e agora o serviço está ficando precarizado”, destaca Carlos Alexandre Torres Garcia, técnico administrativo no HC.

Falta Gestão
De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Educação das Instituições Federais de Ensino Superior no Paraná (Sinditest-PR), uma reunião na tarde de hoje (5) tentou amenizar os problemas no atendimento, mas sem muitos avanços. “O HC precisa emitir, ao menos, um comunicado para a população esclarecendo porque a situação está dessa forma. A culpa disso não é dos trabalhadores que estão na ponta, fazendo a atendimento, mas sim da falta de planejamento e gestão da Ebserh (que administra o HC), que já sabia que isso iria acontecer”, diz o coordenador-geral do sindicato, Daniel Mittelbach.
De concreto, ele aponta que aSuperintendência do HC reafirmou a esperança na celeridade do processolicitatório, para terceirizar as funções administrativas exercidas pelostrabalhadores demitidos da Funpar. “Acreditam que poderão contar com essesterceirizados já a partir de janeiro e que, até lá, vão diminuir as consultas eremanejar pessoas de outros setores para ajudar no que for possível.”
Atendimentos mantidos
Ninguém da Empresa Brasileirade Serviços Hospitalares (Ebserh) nem do HC quis dar entrevista. Em nota, o Complexo Hospitalde Clínicas afirmou que “manteve seu atendimento à sociedade, apesar dediversas situações que afetam o bom atendimento dos Hospitais”.
“O Complexo está trabalhando para gerenciar os altos índicesde absenteísmo; redistribuindo atividades de recentes pedidos de exoneração eaposentadoria; readequando as jornadas de trabalho; finalizando um processopara terceirização de cargos extintos; aguardando nomeação de concurso que estáem andamento; e alterando o fluxo de processos. Nenhum ambulatóriodeixou de prestar atendimento no HC. Também não tivemos nenhuma notificação depacientes que não foram atendidos”, garante o texto.