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Missionários americanos apresentam ex-presidente escravagista como exemplo em escola estadual cívico-militar

Anunciadas como intercâmbio cultural, as atividades terminaram com a oração “Sejam curados em nome de Jesus. Amém”

Missionários americanos apresentam ex-presidente escravagista como exemplo em escola estadual cívico-militar
A apresentação não menciona que Andrew Jackson foi proprietário de pessoas escravizadas | Foto: colaboração
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Apresentado como intercâmbio cultural, um grupo de missionários dos Estados Unidos utilizou a trajetória de Andrew Jackson, sétimo presidente dos Estados Unidos e proprietário de pessoas escravizadas, como exemplo de superação durante uma atividade na Escola Estadual Cívico-Militar Santa Rita, em Foz do Iguaçu.

A apresentação terminou com uma oração diante dos estudantes. Em vídeo obtido pelo Plural, um integrante encerra a atividade dizendo: “Sejam curados em nome de Jesus. Amém.” Após a repercussão do caso, o Governo do Paraná suspendeu as apresentações na rede estadual.

As duas gravações foram feitas na segunda-feira (22). Em uma delas, um integrante fantasiado de palhaço retira do bolso uma reprodução ampliada de uma nota de US$ 20. Em seguida, o responsável pela atividade, conduzida em inglês e traduzida aos estudantes, pergunta se os alunos conhecem o homem retratado na cédula. Diante da resposta negativa, apresenta Andrew Jackson.

“Esse homem se chama Andrew Jackson. Quando ele era só um menininho, algo muito ruim aconteceu com ele. O pai e a mãe dele morreram”, diz a tradução. Na sequência, afirma que Jackson permaneceu “determinado a ter sucesso na vida”, trabalhou muito, “fez ótimas decisões”, serviu ao país e chegou ao posto de general, “responsável por liderar muitos homens”.

A apresentação não menciona que Andrew Jackson foi proprietário de pessoas escravizadas.

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A segunda gravação registra o encerramento da atividade. Em meio ao barulho da chuva, um integrante conduz uma oração “em nome de Jesus”, traduzida frase a frase. Nos segundos finais, encerra: “Sejam curados em nome de Jesus. Amém.”

Professores ouvidos pela reportagem, sob condição de anonimato, relataram que as atividades começavam com músicas, teatro, brincadeiras, interação com os estudantes e um palhaço. Segundo os relatos, somente no encerramento eram introduzidas orações e pregações religiosas. Uma professora afirmou que a equipe chegou a cogitar retirar os alunos do pátio, mas desistiu porque todas as turmas já estavam reunidas, o que teria tornado a situação constrangedora.

O Plural teve acesso à carta de apresentação utilizada pelo grupo para solicitar autorização às escolas. Intitulado “Intercâmbio de Cultura – Compartilhando valores positivos entre nosso povo”, o documento informa que a Organização GV levaria um grupo de norte-americanos para apresentações de 45 minutos com teatro, um palhaço, frases básicas em inglês e “valores morais”.

A carta é assinada por Priscila e informa apenas seu número celular, sem indicar razão social ou CNPJ da organização. A reportagem entrou em contato com a responsável.

Após ser informada de que se tratava de uma reportagem, Priscila não retornou às mensagens até a publicação desta matéria.

APP-Sindicato aponta doutrinação religiosa

A divulgação dos vídeos motivou reação da APP-Sindicato. A entidade informou ter recebido as imagens “com muita preocupação” e cobrou da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) esclarecimentos sobre a finalidade pedagógica da atividade.

Em nota, criticou a presença de pessoas externas ao ambiente escolar em ações que classificou como doutrinação religiosa e questionou a apresentação aos estudantes de Andrew Jackson, figura histórica associada ao escravismo e ao uso da violência.

A repercussão levou a Secretaria de Estado da Educação do Paraná a interromper as atividades do grupo na rede estadual. Em resposta à reportagem, a Seed informou ontem (25) que determinou a suspensão imediata após identificar ações “incompatíveis com as finalidades inicialmente apresentadas” por uma empresa de intercâmbio cultural.

A pasta acrescentou que organizações externas só podem atuar nas escolas quando suas atividades estiverem alinhadas às finalidades pedagógicas da rede. O Plural questionou ainda em quais escolas estaduais ocorreram as apresentações, qual é a instituição responsável pelo programa e quem autorizou as atividades. A secretaria informou que se manifestaria apenas por meio da nota oficial.

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