Desde 2018, o SUS oferece gratuitamente aos brasileiros uma ferramenta que, se utilizada corretamente, pode levar a próximo de zero o risco de infecção pelo vírus HIV, causador da aids. Trata-se da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que consiste na ingestão diária de um comprimido produzido com duas substâncias: emtricitabina e tenofovir.
No ano passado, os serviços de saúde no Paraná passaram a recomendar, para um público específico e que mantém relações sexuais eventualmente, a PrEP sob demanda. Em vez de ingerir a medicação todos os dias, a pessoa pode tomá-la apenas quando for fazer sexo.
Estudos mostram que o método sob demanda tem eficácia quase tão alta quanto a do uso diário.
Para explicar o funcionamento da PrEP e a diferença entre as duas formas de uso da medicação, o Plural entrevistou o médico Denis Campana Hilário, do Ambulatório PrEP e Trans de Londrina, que funciona no Centro Integrado de Doenças Infecciosas (Cidi), no centro da cidade, onde 496 pessoas recebem a medicação. Ele é pós-graduado em sexologia clínica e residente em Medicina de Família e Comunidade pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Segundo Hilário, a medicação não impede o contato com o vírus, mas bloqueia sua replicação no organismo, evitando que a infecção se estabeleça e evolua para a aids.
Na forma tradicional, o uso é contínuo. No primeiro dia, a pessoa toma dois comprimidos e, a partir do segundo dia, um comprimido por dia, sempre no mesmo horário.
Na PrEP sob demanda, o paciente toma dois comprimidos com antecedência de 2 a 24 horas antes da relação sexual. Depois, vai tomar um terceiro comprimido 24 horas depois dos dois primeiros e um quarto comprimido 48 horas após a dose inicial. Caso tenha apenas uma relação sexual no primeiro dia, só volta a tomar o medicamento quando for novamente se relacionar sexualmente.
Se houver outras relações nos dias posteriores, basta estender a ingestão de um comprimido diário até 48 horas após a última relação. Ou seja, se uma pessoa tiver atividades sexuais na sexta, no sábado e no domingo, deve tomar dois comprimidos até duas horas antes da primeira exposição, seguidos de um comprimido por dia até que se completem 48 horas após a última relação — nesse caso, na terça-feira.

Para quem é a PrEP sob demanda
Ao contrário do método tradicional, que deve ser utilizado por qualquer pessoa, a PrEP sob demanda é recomendado a um público específico: pessoas nascidas no sexo biológico masculino e sem uso de terapia hormonal estrogênica.
O protocolo não contraindica o uso para as demais pessoas, mas diz que para elas a opção preferencial deve ser o método tradicional devido à insuficiência de dados sobre eficácia neste grupo.
Eficácia e contraindicações
Estudos indicam que a PrEP tem eficácia acima de 90%, podendo chegar a mais de 99%. “A eficácia próxima de 100%, vista em estudos, requer um uso perfeito da medicação. Na vida real, a proteção é altíssima, mas pode ser menor se houver esquecimento de doses”, explica Hilário.
As contraindicações da PrEP, independentemente do método, são poucas: pessoas que já vivem com HIV; pacientes com comprometimento significativo da função renal; e quem apresenta alergia aos medicamentos. A PrEP não interfere em anticoncepcionais, anticonvulsivantes ou psicofármacos, pois seu metabolismo ocorre exclusivamente pelos rins.
Gestantes e mulheres que estão amamentando também podem utilizar a PrEP, com perfil de segurança considerado adequado.
“A medicação é indicada para qualquer pessoa que se perceba em situação de vulnerabilidade ao HIV, desde que tenha 15 anos ou mais e pese pelo menos 35 quilos”, explica Hilário. Mas, na prática, quem mais busca o serviço são homens homossexuais, em geral brancos e com maior escolaridade. “Isso tem muito a ver com acesso à informação. Ainda há pouca divulgação sobre a PrEP fora desses círculos”, avalia o médico.

Antônio preferiu a PrEP diária
O designer Antônio Martins, de 21 anos, morador de Londrina, faz uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) diária há um ano e meio e afirma que o medicamento foi decisivo para aumentar sua sensação de segurança em relação ao HIV. “Eu sempre fui bastante preocupado com a minha saúde. A PrEP me traz tranquilidade”, conta.
Apesar da chegada do método sob demanda, o jovem preferiu continuar tomando o comprimido todos os dias. “Como eu já tomo remédio de uso contínuo diariamente, achei mais fácil incluir mais um. Foi uma questão de praticidade”, explica.
Martins afirma que não teve nenhum efeito colateral, desde que passou a tomar os comprimidos. “Nada. Nunca senti nada, e olha que eu sou uma pessoa que tem enjoo com muitos remédios.”
Mesmo com o uso da PrEP, ele diz que mantém o cuidado com outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). “Eu uso preservativo mesmo com a PrEP. Em relações casuais, eu prefiro usar, porque a PrEP só protege contra o HIV, e existem outras doenças”, ressalta.
Ao deixar um recado para outros jovens, o designer reforça a importância de não subestimar o risco. “A minha geração acredita que o perigo do HIV já passou, e esse é o problema. As pessoas acham que é algo distante da nossa realidade, mas não é.”
Para ele, o acesso ao medicamento deve ser visto como um direito e uma oportunidade. “A gente tem que aproveitar o que tem. É algo para o nosso bem, uma armadura a mais para deixar a gente seguro.”
Como acessar a PrEP no Paraná
Segundo a Secretaria do Estado da Saúde, o Paraná tem 67 pontos de dispensação de PrEP divididos por todas as macrorregiões. A relação completa desses locais você pode acessar aqui:
Em Londrina, pessoas interessadas devem agendar atendimento previamente pelo site da Prefeitura. O agendamento on-line é aberto apenas no último dia útil de cada mês, ao meio-dia e meia, no link: https://www3.londrina.pr.gov.br/sistemas/agendamento/?idLocal=309
No primeiro atendimento no Ambulatório PrEP, que fica na Alameda Manoel Ribas, esquina om a Souza Naves, a pessoa passa por testes rápidos para HIV, hepatite B, hepatite C e sífilis, realizados pela equipe de enfermagem do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). Em seguida, é atendida por um médico.
Normalmente, no início, o ambulatório libera medicação para 30 dias. Com o tempo, esse prazo pode ser ampliado para até 120 dias. A cada retirada da PrEP, a pessoa refaz os testes rápidos e recebe nova quantidade do medicamento. O atendimento costuma ser rápido e não leva mais de meia hora.
Em Curitiba, segundo a Secretaria Municipal da Saúde, o agendamento pode ser feito pelo telefone 3350-9000. E os medicamentos podem ser retirados em quatro Centros de Especialidades: Centro de Orientação e Aconselhamento – COA (Rua do Rosário, 144, 6º andar – Centro), Centro de Especialidades Salgado Filho (Av. Senador Salgado Filho, 5265 Uberaba), Centro de Especialidades Santa Felicidade (Av. Toaldo Tulio, 2500 – São Braz) e Centro de Especialidades Vila Hauer, (Av. Waldemar Kost, 650 – Hauer).
Para os moradores da capital, também há a opção de receber os medicamentos via Correios.
Já em Foz do Iguaçu, o serviço é centralizado no ambulatório IST/AIDS, que fica na Av. Juscelino Kubitscheck, 2826. Os pacientes devem comparecer no local e realizar o agendamento.
Médico particular também pode prescrever a PrEP
Também é possível retirar a PrEP com prescrição de médico particular. Nesse caso, o profissional deve baixar e preencher o formulário específico disponível no site do Ministério da Saúde. Além do documento assinado pelo médico, a pessoa precisa levar aos locais de dispensação dos medicamentos um laudo de exame de HIV com no máximo sete dias, contados a partir da liberação do laboratório.
Em Londrina, não é necessário fazer agendamento nesses casos.
O ambulatório funciona das 7 às 17 horas (não fecha para almoço), de segunda a sexta-feira.