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Isa Lanave: a foto como meio de entrar na mente feminina

Ela passou por tanto, tão nova, e encontrou na arte a maneira para lidar com questões relacionadas à saúde mental e violências

Isa Lanave: a foto como meio de entrar na mente feminina
Isa Lanave: mergulho no mundo das mulheres. Foto: Annie Libert
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De alguma maneira, entender as infâncias tem sido um processo dessas entrevistas. Mais do que nunca, na conversa com a artista e fotógrafa Isa Lanave, eu optei por entender a infância, para entender a escolha da mãe e da saúde mental como pesquisa de um trabalho, de uma vida. Para entender, afinal, o porquê dela fazer o que faz, no impulso de capturar um instante específico.

Choramos já no início. Choramos algumas vezes: de mãe pra filha, de filha pra mãe. Chorei agora, enquanto escrevo e revivo o instante no estúdio da Annie, onde a Isa chegou na hora marcada, às 9h30, com um ramo de arruda atrás da orelha.

A gente falou de loucura, de amor, dos dois juntos e separados. Falamos do impacto da criação de uma criança que teve uma mãe, mas tantas outras mulheres pra cumprir lacunas. E o que importa: como essa criança cresceu e encontrou na fotografia e na arte, a maneira de lidar com as sombras.

Quando adolescente, se tornou uma estudante de jornalismo interessada. “Sempre fui muito curiosa e metida, no sentido de querer participar de tudo. Então, eu comecei a participar dos congressos, de eventos de fotografia, tudo que tinha imagem e fotografia eu queria estar. E isso fez com que eu exercitasse a construção da imagem", conta.

Foto: Annie Libert

Recém-formada em comunicação, em 2017, aos 22 anos, ela foi indicada pela revista americana Time, uma das mais conhecidas revistas de notícias semanais do mundo, como uma das 34 vozes femininas que a publicação recomendou seguir.

A maturidade, aos poucos, curou feridas. É clichê dizer, mas ainda tem uma cicatriz que está ali, à mostra. Como ressignificá-la? A saída foi pensar a saúde mental da mãe, e do mundo, não só como uma questão emocional, mas como um debate estrutural da sociedade, principalmente na temática ligada às mulheres e ao que o patriarcado faz conosco: somos mesmo loucas?

Onde você nasceu? Como foi a formação desta família? Para eu poder entender como chegou nessa pesquisa onde as questões mais íntimas estão ligadas ao seu fazer artístico.
Eu nasci em Curitiba. Cresci ali no Boqueirão, na casa da minha avó, numa família muito amorosa e muito protetora. Meu pai virou um pai ausente numa certa idade e eu muito era nova. Minha mãe nunca foi casada com ele, que chegaram a namorar um tempo e num encontro, ela engravidou. Ela conta que no dia que ela teve esse encontro, na hora que ele foi embora, ela falou "tô grávida". E estava mesmo. Ele pediu o exame de DNA quando eu nasci. Minha mãe estava com 30 anos. É engraçado também falar da família paterna, porque eu tenho sentido que nesse trabalho de agora, tem vindo isso muito forte, porque é uma sombra na minha vida.

A família da minha mãe foi a família que adotou minha mãe. Eu sinto que foi uma família que adotou a gente, eu e meu irmão também. A gente não tem muita informação sobre as origens da família biológica dela. Sabemos que eram 6 mulheres, que a mãe morreu quando eram muito jovens e o pai alcoólatra deu as filhas para adoção. Sinto que venho de um lugar da classe trabalhadora, de famílias que sempre trabalharam muito para ter as coisas. Nunca nada foi dado e passado de geração pra geração.

E no meio disso, você teve uma figura paterna?
A minha mãe se casou de novo com o meu ex-padrasto. Então, eu cresci com essa figura paterna, mas que eu nunca senti muito como uma figura paterna, na verdade.

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Eu fui uma criança muito quieta. Sinto que hoje ainda sou. Minha mãe sempre foi essa pessoa ativa, presente, pronta pra falar e pra defender o que fosse. Ela trabalhou no hospital, como técnica de enfermagem. Depois como vendedora de roupa ou gerente de loja. Ela ama vender roupas! E ela se aposentou como técnica de enfermagem, pela necessidade. Eu sinto que eu tive um escudo, uma época com muitos escudos de muitas coisas. Nas possibilidades, a minha mãe foi essa pessoa que queria buscar o melhor pra gente. Sem condições de pagar uma escola particular, ia nas melhores escolas para pedir bolsa. Quando a gente se mudou pra Itajaí, eu estudei numa boa escola por muitos anos. Tenho uma formação muito massa, mas tenho memórias de violências relacionadas à classe, relacionadas a bullying. Coisas que aconteceram naquele lugar que não são muito legais, de sempre me sentir um pouco diferente daquele espaço. Porque, de alguma forma, não pertencia àquela realidade das minhas amigas que iam pra Disney todo ano. Então, eu sinto que eu cresci também em realidades muito distintas. Tipo, a minha mãe sempre foi essa pessoa sem dinheiro, devendo cartão de crédito. E aí, os irmãos dela, pessoas que estudaram, construíram uma parada, compraram uma casa, um carro. E a gente tinha essa vida mais instável, nessa bagunça, mas sempre buscando melhorar. Tinha também um apoio familiar, principalmente da minha avó. A gente teve uma relação muito próxima.

Foto: Annie Libert

E essa infância em silêncio. Você se lembra de já existir uma Isa artista nesse silêncio?
Olha, essa pergunta. Deixa eu pensar. Uma vez, uma professora  falou para minha mãe que eu era muito quieta e que isso preocupava, porque eu não interagia com as pessoas. Eu sinto que tinha um medo muito grande. E no lugar da criação, eu comecei a escrever muito, muito, muito. Era uma forma de me comunicar, colocar pra fora o que estava na minha mente. Por isso, eu tinha muitos diários. Quando fui crescendo, isso se desenvolveu de outras formas; isso da fala, da construção de intimidade, de narrativa, de vulnerabilidade.

Sobre as questões mais vulneráveis da sua mãe, tão presente no seu fazer artístico, quando elas começam?
A minha mãe sempre foi essa pessoa que todo mundo dizia, “Ah, a Sueli é louca” ou “Não leve tudo a sério o que ela diz”. E, quando o meu irmão nasceu, ela teve uma experiência ruim no parto, na cesárea. Ela tinha feito uma cirurgia na coluna e a anestesia não pegou. Quando meu irmão, o João, veio, ela ficou super dopada. Não quis dar de mamar. Aliás, pra mim ela também não deu de mamar. Ela disse “não gosto. Não quero". Ela foi diagnosticada com uma depressão pós-parto e teve várias questões de não identificação com ele. Tipo, "quem é essa criança que está aqui?".  Eu não sei, eu não lembro, mas eu acho que ela não tinha ido num psiquiatra antes.

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Tenho umas memórias dela dizer “Eu não quero ser mãe”. E o João bebezinho, e o meu padrasto trabalhando. Isso foi o começo de tudo. Eu tinha 10 anos.

Você tinha que realizar algumas funções maternas?
Eu não lembro muito. Mas eu acredito que sim. Só que eu acho que eu tinha medo de mexer nele, porque ele era muito pequenininho. E eu era muito nova também. Na minha cabeça, me vem que eu fazia só o necessário se eu visse que ele ia cair ou  se ele estivesse com muita fome. Mas eu não peguei pra mim. Sabe? Só agia no instinto. Eu lembro que ela começou a ter crises e tinha muito choro. Às vezes quebrava coisas. Foi quando ela teve a primeira internação. Ela ficou, acho que uns 50 dias, no Nossa Senhora da Luz, que não existe mais e que era um lugar horrível. Que eram aqueles manicômios antigos. Ela tem lembranças horríveis daquele lugar. Nisso que ela foi para o hospital, eu fui para uma casa de uma prima. Depois que ela saiu da internação, a gente foi lidando. Ela começou a tomar remédio e logo depois, veio o diagnóstico. Diziam “Ah, tem transtorno bipolar. Teve uma depressão pós-parto". Os anos foram passando. O João foi crescendo. Ela teve uns 7 internamentos até agora.

E dessa ausência? Você se lembra?
Eu lembro. Eu tenho que chorar agora. Acho que eu nunca tinha lembrado dela, na verdade. Eu lembro, mas acho que eu não entendi. Acho que eu não entendi o que estava acontecendo. Porque, o que me diziam era “a tua mãe está numa crise. Tá num surto. Precisa ir pra um lugar. Ficar longe de vocês". E aí eu só ia. E esse silêncio, eu também não me expressava. A minha família sempre lidou com isso de uma forma muito burocrática e médica. Eu não tinha muito pra onde olhar, muito o que ver. Eu lembro de tentar esquecer, na escola, com as minhas amigas. Eu entrava no mundo delas, que era completamente diferente do meu. “Ai, eu quero um nike shox, quando eu vou pra Disney?". Uns negócios de adolescente. Por exemplo,  eu tinha muitas paixões no colégio. Era uma paixão atrás da outra, que eu sinto que era um lugar de suprir um pouco dessa carência e de tentar me relacionar intimamente com alguém. Eu fui crescendo e eu não fui mais pra casa da minha prima, ficava em casa. Alguém vinha e ficava com o meu irmão e comigo. Ou meu padrasto. Sempre teve muita gente junto, principalmente amigas e as irmãs da minha mãe.

E a partir da adolescência, como é que você decidiu fazer jornalismo? Você já fotografava?
Assim, não fotografava oficialmente. Mas, se eu for pensar, uma das coisas que eu pedi de aniversário aos 16 anos, foi uma cybershot da Sony. Eu fotografava muito com ela, andava com ela pra tudo que é lado. Mas não pensava sobre o que era isso, sobre fotografia. Me lembro de gostar muito de ver fotos que a minha avó tinha e mostrava, porque de algum jeito, sempre tive uma relação com a imagem. Com a imagem e com a palavra, porque era o que se materializava como expressão. Quando eu vi uma imagem, quando eu li uma coisa, quando eu vi um filme, era algo que sempre me despertava coisas. E a minha mãe sempre me incentivou muito a ler, a ver filmes, a pensar, a falar sobre arte. Quando eu fui decidir o que eu ia fazer, na minha geração era fazer Direito ou Medicina, porque eram profissões que dão dinheiro. Aí eu vim pra Curitiba e foi uma virada de chave morar com a minha avó. Quando eu chego aqui, me encontro com um mundo de possibilidades e me distancio daquilo que eu vivia. Pensei em fazer algo que tivesse escrita, cinema ou fotografia. Então veio o jornalismo por causa disso. Quando eu comecei a faculdade, fui direto pra fotografia. E viver com a minha avó, com uma mulher presente, foi muito gostoso, ela era uma avó muito maravilhosa e amorosa. Acho que foi um conforto.

Foto: Annie Libert

E esse encontro com a fotografia? Como começou?
Eu lembro que entrei na faculdade e conheci o Melvin Quaresma. Eu sinto que ele foi uma grande inspiração, porque ele já era fotógrafo desde os 15 anos de idade. E eu tinha algumas fotos que tinha feito com a minha cybershot e comecei a postar na internet e a fotografia foi acontecendo naturalmente. E eu e o Melvin ficamos muito amigos. A primeira vez que eu fotografei na rua, com uma câmera, foi num rolê com a câmera dele. Ele falou, “Isa, você quer fotografar? Toma”. Eu gosto dessas fotos até hoje. São fotos de pés de algum evento que estava acontecendo no centro. Ele foi me inspirando, me trazendo referências, me nutrindo de coisas.

E na matéria de fotojornalismo, tínhamos que escolher um tema e eu escolhi fotografar as mulheres da minha família. E também, eu queria fotografar mulheres que se sentiam à vontade com seus corpos. E daí, a minha mãe falou “Eu posso ser sua modelo. Vamos fazer essas fotos nuas?". E daí eu comecei com ela e com mulheres próximas a ela. Minha prima, uma amiga dela, uma tia. Eu fotografei essas mulheres nas casas delas. A minha mãe foi no mato também. E foi a primeira vez que eu olhei pra ela com uma câmera. Foi até um chamado dela, ela trouxe isso.

Sinto que a fotografia tem essa coisa do silêncio. Poder me comunicar com uma imagem. Agora pensando sobre infância, sobre silêncio, acho que a fotografia vem num lugar de eu conseguir me expressar. De colocar pra fora, muita coisas que eu nunca consegui falar em palavras.

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E desse primeiro ensaio estudando fotojornalismo na faculdade, como é que virou um trabalho sobre a sua mãe?
Bruna, você falou que a criança que fica em silêncio, observa muito. Acho que não tinha feito essas associações pensando na fotografia e na imagem, mas acho que é isso: quando começo a fotografar, começo a querer olhar para o mundo, então eu começo a fotografar todos os lugares que eu frequentava, na rua, manifestações, festas, amigos, tudo! Tinha rolado esse ensaio com a minha mãe, mas paralelo a isso,  aprendi na prática, porque sempre fui muito curiosa e metida, no sentido de querer participar de tudo, querer fazer um monte de coisa, então eu comecei a participar dos congressos, de eventos de fotografia, tudo que tinha imagem e fotografia eu queria estar. E isso fez com que eu exercitasse a construção da imagem. Comecei a participar de coletivos de fotografia de rua, ganhei uma bolsa para estudar fotografia em Guadalajara, no México. Fiquei sete meses, foi incrível. Onde eu passava, as coisas que eu via, eram as coisas que eu fotografava.

Nesse processo da faculdade, a minha mãe estava meio presente. Por exemplo, numa matéria de cinema, eu tinha que fazer um curta-metragem e não sabia o que fazer, e daí eu sempre ia falar com ela nessas horas. Ela vinha com umas ideias e falava “deixa eu atuar?”. Ela atuou nos dois filmes que fiz na faculdade, ela sempre estava presente. Ela estudou, mas não conseguiu se formar, em artes cênicas. Eu sempre achei que ela tinha o desejo de ser atriz, mas esses dias ela me falou que, na verdade, ela tinha o desejo de ser diretora. A câmera nunca foi um problema pra ela.

Você já tinha notado isso antes de fotografá-la?
Acho que não. Acho que eu noto isso quando eu tô com a câmera na mão. Eu já tinha notado que ela tinha poses muito, assim, não convencionais, em fotos antigas de arquivo que eu via. Mas acho que essa relação veio muito quando eu peguei a câmera e comecei a olhar pra ela. Ela encarava mesmo a câmera, tirava a roupa se fosse preciso, fazia o que fosse preciso, não era uma questão a câmera ali. E isso foi muito interessante. E aí, o que aconteceu foi que no final da faculdade, comecei a fazer parte de movimentos como o Mulheres da Imagem, o Rua Foto Coletivo, que era um coletivo de fotografia de rua que, na época, documentava aquelas mil manifestações que aconteciam.

Isso era 2013, né? Acho que essas manifestações de 2013 moldaram a nossa geração para o olhar fotográfico.
Super! Várias pessoas saíram disso. Muitas, muitas pessoas. Eram vários coletivos que existiam na época. O Rua era um coletivo que era lá de São Paulo, nem lembro como eu conheci a galera, acho que pela internet. Foi uma época que comecei a conhecer uma galera da fotografia. As Mulheres da Imagem, tinha uma pessoa que era Marizilda Cruppe, e ela teve um olhar muito pro meu trabalho, que eram fotos da minha mãe. Nessa de fotografar tudo que eu vivo, eu fotografava minha avó, fotografava dentro de casa e fotografava minha mãe quando eu ia pra Itajaí. Comecei a conhecer referências de fotógrafos que trabalham com fotografia de família, trabalhos documentais, descobri que isso era um trabalho. A Marizilda teve um papel de curadoria, porque eu lembro que ela olhou as fotos e falou, “nossa, que história é essa que você tá contando?". Nesse momento, ela me indicou pra aquela lista da Time e ela foi muito importante nesse processo de reconhecer um pouco o que eu estava fazendo, para eu pensar sobre o que eu estava fazendo. Descobri que aquilo era um pequeno corpo de trabalho se formando. Que no princípio eram fotos da minha avó, fotos da minha mãe. Eu lembro que eu falei, “minha mãe tem depressão e é bipolar”. E me questionei se aquelas imagens eram sobre isso.

Foto: Annie Libert

Eram imagens cheias de sombras. Nessa época também fiz uma leitura de portfólio com a Maureen Bisilliat, e ela olhou pras imagens e falou, “você tem que tratar essas sombras". E eu respondi que não sabia mexer direito no Photoshop. E ela disse, “não tô falando dessas sombras. Tô falando das sombras da sua relação com a sua mãe".  E isso foi muito forte, me marcou. Outro momento marcante, foi quando a Mônica Maia me convidou pra fazer uma fala em São Paulo, num evento que eram 10 fotógrafos, 10 minutos. Eu mostrei algumas fotos e li um texto. Minha mãe estava internada e foi a primeira vez que eu falei publicamente desse trabalho, da nossa história. Foi quase um diário, assim, chorando, disso que tava acontecendo.

E essa indicação da Time, como você recebeu isso?
Eu lembro que a Marizilda falou que ia me indicar pra uma coisa muito importante. Quando eu vi o que era, eu fiquei “o quê? Como assim? O que eu tô fazendo ali?". Sinto que na época, não entendi muito, porque eu tava começando esse projeto, eu tinha pouquíssimas imagens. Hoje, sinto que uma coisa que a Marizilda sempre falava, era sobre a coragem de trazer essa história, a coragem de fotografar isso, de olhar pra isso. E eu sinto que essa indicação tem um pouco de tudo isso: do trabalho, sobre o que ele é e sobre a coragem de falar sobre aquilo, naquele momento. Lembro que eu fiquei sem saber porque um monte de gente começou a me seguir nas redes sociais, a falar comigo. E eu nem tinha muitos trabalhos. Eu tinha um monte de foto em rua e um monte de foto na minha família. Tudo solto, nada organizado. Aí, fui começando a pensar sobre como fazer um projeto, uma exposição, a entender um pouco desse mundo, desse mercado. Foi uma coisa que eu descobri fazendo e isso ainda estou descobrindo.

E o trabalho”Leve a sério o que ela diz” surge nesse processo de você começar a organizar esse olhar fotográfico?
Surge um pouquinho depois, quando saio da faculdade e começo a participar de grupos de estudo, de fotografia, que foram muito importantes, porque se trabalham em temas mais íntimos, mais pessoais, de longo prazo. Eu entendi que tinha uma categoria que se chamava “projetos de longo prazo”. Entendi que isso existia e que estava tudo bem eu demorar o tempo que eu precisasse pra fazer esse trabalho.

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Estar fotografando a minha mãe, era então um projeto, para o qual dei o nome de  “Fátima”, onde fotografo minha mãe, para entender a nossa relação. Fiz isso por um tempo e cansei, pensei em fazer outras coisas, fotografar outras coisas.  Só fui pra outras pessoas, mas o tema continuou o mesmo, o da saúde mental, porque eu me fazia a pergunta: como é que é a vida de outras pessoas que vivem com coisas parecidas que a minha mãe? Como outras pessoas lidam com isso? Como é a relação com a família, com os filhos?

Queria que você falasse um pouquinho mais sobre esse trabalho: como foi a escolha das personagens, como é que você conheceu essas pessoas? Se você encontrou acolhimento ali?
Total, total. O “Leve a sério que ela diz” foi um grande processo de transformação. No total, ele levou quatro anos desde que eu comecei a pensar nele, até ele virar um livro. Comecei a pensar nele num grupo de estudos, pensando em fotografar dez pessoas que passaram por alguma situação e que vão estar dispostas a falar. Eu tinha uma abordagem bem metódica. Era “Vou fazer um retrato dessas pessoas, onde elas escolherem e pedir para elas escreverem uma carta". As escolhas foram muito orgânicas, comecei a perguntar por aí, se alguém conhecia alguém que passou por algo semelhante a mim e que estaria disposto a falar. E foram chegando as pessoas e indicações. E fui ter esses encontros e tinha uma preocupação ética sobre pensar imagens, sobre fotografar outras pessoas, contar histórias, pensar a história da fotografia e o poder que a gente tem com uma câmera na mão. E naquele momento, uma forma de tentar ser mais horizontal, ser mais cuidadosa com essas o estigma que existe em relação a pessoas que são neuro diversas ou que passaram por internamentos psiquiátricos, era de que elas escolhessem onde elas iam ser fotografadas e que elas participassem da escolha das fotos pro livro. Virou um processo muito orgânico. Só que elas escreveram as cartas, cada uma de um jeito, porque as pessoas fogem um pouco de um padrão de comportamento e não fazia sentido eu padronizar a forma como elas iam escrever, como elas iam entregar isso. E é uma mudança de perspectiva, de pensar sobre esse tema, de pensar sobre neurodiversidade, sobre loucura. Como eu vou querer organizar coisas, que não estão organizadas dentro dessas cabeças?

E sobre o acolhimento: eu tinha tido poucos contatos íntimos com pessoas que tinham tido surtos ou tinham sido internadas, a não ser com a minha mãe. Então, quando eu começo a ouvir essas pessoas, eu começo a descobrir um mundo onde isso é mais comum do que a gente imagina. Hoje em dia, a gente está falando muito mais sobre isso, né? Mas eu começo a descobrir um mundo muito próximo e  tudo passa a ser mais leve. E descobri que para além de um questão íntima, pessoal, familiar, é uma questão estrutural. Foi uma grande descoberta, também pensar que a saúde mental tem a ver com o mundo, com sociedade.

Acho que é uma velha enganação, nós, artistas, acharmos que vamos ter controle da narrativa, porque é um trabalho processual, não é?
Sim, e é muito legal se abrir para isso, porque foi o que aconteceu. O livro se transformou e virou o que ele é, que são esses retratos num percurso muito relacionado com a natureza. Também pensei, por exemplo, sobre as alterações de humor, sobre a pessoa estar de um jeito agora e algo acontece e muda tudo. Isso é comum na natureza, se você está com uma rosa na mão e alguém bota fogo, ela vai murchar. O que eu quero dizer é que as coisas se relacionam com o ambiente de alguma forma e se transformam conforme esse ambiente acontece. O ambiente é vivo, nós também somos vivos e  fazemos parte disso. O livro tenta fazer uma relação com isso, tanto que tem muitas imagens de plantas morrendo, desse ciclo da natureza, da transformação que a natureza faz. Mas talvez a gente não tenha um tipo de sociedade preparada para vivenciar a vida como ela é: viva.

Tenho uma amiga que fala que, às vezes, um surto só precisa ser vivenciado, só precisa explodir, ser posto pra fora. E como a gente explode? Como a gente vive isso nesse mundo que a gente vive? Então eu acho que o livro começou a trazer essas perguntas pra mim. Não são conclusões, são perguntas e provocações de como eu via o que acontecia, pelo fato de ter crescido nesse contexto onde tudo foi lidado de uma forma bem burocrática e médica.

E agora você tem olhado mais para espiritualidade, como tem sido isso no seu trabalho?
O trabalho Leve a Sério o que Ela diz me levou a pensar que não dava pra continuar daquele jeito onde a pessoa apresenta algum sintoma e a gente já leva ela pra um hospital. Isso não é melhora, não traz solução. Entendi que era preciso pensar outras formas de cuidado. E isso ficou dentro de mim, de maneira inconsciente. Foi colocado desde pequena na minha cabeça, que o problema era minha mãe, mas talvez o problema fosse o que despertava o gatilho dela: uma relação tóxica e o medo de ser traída por um um homem que eu nunca consegui chamar de pai. Tinha algum sentimento ali em relação a ter alguma coisa errada, mas sempre disseram que o problema era ela. No último ano, houve uma virada de chave, minha mãe se separou e a espiritualidade nos ajudou e nos apoiou. Ela nunca mais teve crises.

Sobre espiritualidade e os trabalhos em arte, as duas coisas andaram muito juntas. Estou conectada à religiões de matriz africana, o candomblé, mas também conectada a cerimônias indígenas, então eu não sei direito, porque quando eu falo em espiritualidade, estou tentando entender também, que lugar é esse pra mim.

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E agora você tem uma exposição nova em setembro. Conta um pouco do processo da Fabricação da Loucura?
Quando eu estava no processo para entrar no mestrado em Artes, eu já sabia que queria pensar sobre estruturas. Quando eu falo estrutura, falo em estruturas de mundo, de sistemas, de poder. Também queria sair do lugar da culpa, porque  eu culpei muito minha mãe por muitas coisas, por muito tempo. Então o importante era sair desse lugar e entender outras coisas. A Fabricação da Loucura vem a partir da experiência que meu ex padrasto e minha mãe viveram, porque olhando agora, depois dela sofrer 25 anos de violência, eu falo:  mas o que é loucura então? O que foi que aconteceu todos esses anos? Que loucura é essa?

É um questionamento da estrutura social ligado ao machismo, né? Por que é uma história que se repete diariamente com mulheres ouvindo que são loucas dos seus companheiros.
Sim, começou a vir um monte de mulheres que são próximas da minha mãe, falando histórias parecidas: “o marido tá dizendo que ela é louca, porque ela está dizendo que o marido está atraindo ela".  Então, depois de descobrir traições reais, ela virou a chave. Aí veio essa Fabricação da Loucura e pra mim ainda é muito difícil de colocar em palavra, porque o trabalho é a virada de chave em vários sentidos: da vida pessoal, da estética e é quando eu começo a me fotografar num lugar de foto performance. Eu assumi esse lugar de pensar num figurino, tingir esse figurino, pensar num roteiro. Eu sinto que eu estou sendo guiada para fazer isso ne que estão sopprando no meu ouvido. Eu escuto coisas do nada e eu vou anotando e vou fazendo. E o trabalho tem sido feito assim.

Você já pensou que quando eu publicar isso, de você estar dizendo que está ouvindo coisas que estão soprando no seu ouvido, talvez também te julguem como louca?
Já, mas pode publicar, não tem problema, porque é isso e eu acho que é importante. Antes eu não falava isso, mas, cara, eu estou vivendo isso. Quando eu me conecto com o que eu acredito, - e por isso que pra mim é difícil definir esse lugar da espiritualidade, porque eu estou descobrindo, - também me conecto com a linhagem paterna das minhas avós que eram curandeiras, que tinham esse trabalho com a saúde e com as ervas. Tenho as avós muito presentes no meu coração e nos meus ouvidos eu sinto que algumas coisas são elas que me dizem, para que esse trabalho seja de liberação e de cura. 

A Fabricação da Loucura na prática, em exposição, como vai ser?
Será uma exposição num hospital psiquiátrico, o Adauto Botelho, em Pinhais. Eu estou fazendo uma ocupação numa ala desativada deste lugar, junto com o acervo do museu deles. Eu me vi nesse espaço, com vontade de um olhar cinematográfico pra isso, porque tem objetos, eu nunca trabalhei com objetos. Então chamei pessoas próximas a mim, que são do cinema, como a Laís Melo. Tenho trocado com essas pessoas sobre as minhas questões pessoais e é muita intimidade, porque com elas, eu consigo falar sobre coisas que talvez não vão estar ditas na exposição, mas que eu quero que estejam lá de alguma forma.

Faz anos que estou neste hospital, fazendo um trabalho voluntário de digitalizar as fotos do acervo. Não vai ser uma exposição só minha, mas meio que uma inauguração do espaço memorial do hospital. Eu estou com 6 salas de diversos tamanhos e configurações. Está virando uma instalação com as foto-performances e com os objetos do hospital que a gente está escolhendo. Objetos que eram usados antigamente, tem eletrochoque, tem cama, tem colchão tem uns negócios de luz de dentista, tem seringa, tem documentos, camisa de força. A gente está selecionando e todas as decisões estão sendo tomadas a partir dessa escuta que vem de algum lugar. Eu preciso ouvir, eu preciso de tempo. Nesse momento, por exemplo, eu tô no tempo das últimas decisões, entendendo como cada coisa vai se encaixar.

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E antes desta entrevista, qual foi a última coisa que você escutou, que te sopraram?
Nossa, foram tantas. Deixa eu pensar… a última eu sinto que foram imagens. Por exemplo, tem uma decisão que eu preciso tomar e aí me vem uma imagem de que as fotos da Pedra da Loucura, que é essa primeira foto-performance que eu fiz, elas não têm que estar lá fora, elas têm que estar dentro, elas têm que ser as primeiras coisas que as pessoas vão ver quando chegarem. Também vêm desenhos, o que é muito doido, porque eu não sei desenhar, mas hoje eu trouxe o meu caderno que eu tenho desenhado que eu tenho sentido que as palavras estão um pouco difíceis pra esse momento. Eu tô precisando me expressar um pouco com o desenho, colcar pra fora, e que isso tenha a ver com violências. Quando eu falo disso assim ainda fica um pouco confuso pra mim, porque na minha cabeça tá tudo meio assim ainda, porque eu tô vivendo isso, né?

 

 

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