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Luci Collin: “Minha alegria maior é não ter falsificado a minha própria voz”

Conhecida por ser transgressora e estar sempre à frente de seu tempo, Luci acaba de lançar uma coletânea comemorativa aos seus 40 anos dedicados à palavra

Luci Collin: “Minha alegria maior é não ter falsificado a minha própria voz”
Luci Collin. Foto: Annie Libert
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A menina que aprendeu a ler antes de escrever, pelas frestas das portas e janelas do casarão no centro de Curitiba, espiou a mãe ensinando o alfabeto para outras crianças. Logo se relacionou com ele, juntou letra por letra e com poucos anos, já era íntima das palavras. Aos 4 anos, acordava cedo e ia escondido ler um livro do Jorge Amado que pegou na estante do pai. Foi sua primeira grande transgressão.

Nas manhãs acompanhadas de letras, - e da euforia de quem faz uma travessura e descobre um universo, Luci Collin também vivenciou a arte nas mais diversas formas, e, sem sair de casa: nas reuniões de família, avós no piano, acordeon ou declamando poesias, fizeram com que ela entendesse muito cedo que a arte tem sua funcionalidade emocional.

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“Essa ideia de visualidade, de musicalidade, essa ideia da palavra, da sonoridade da palavra, mas sobretudo do convívio, foi muito precoce", afirma. Aos 7 anos, levava a sério o piano. Isso durou até a juventude: fez graduação em piano e depois, em percussão clássica.

Demorou algum tempo para entender, talvez por ser muito óbvio, que estava na escrita, a sua maior expressão. Aos 13, mostrou um de seus textos para uma amiga do colégio. Curioso pensar, mas a colega fez uma profecia: “Isso é muito importante. Você tem um tipo de poder". E pasmem, sua primeira editora, ou crítica, foi Helena Kolody, que a orientou na escrita e no segmento desta vida: a vida de quem domina as palavras e faz com elas o que quer, como quer. Escreveu seu livro aos 17 anos. Publicou com a ajuda de uma gráfica clandestina, aos 20.

40 anos depois, numa manhã de agosto, Luci chegou atrasada, mora longe. Cabelos brancos contrastando com a blusa vermelha. Nas mãos, uma sacola cheia de livros que rapidamente colocou sobre a mesa, antes mesmo de ter café em sua xícara. E admito, foi difícil não me apaixonar pelos seus gestos: a maneira como pega os exemplares, os abre, os folheia, como quem quer se sentir viva nas folhas, como quem se reconhece no cheiro da tinta. Como quem guardou a própria alma em páginas.

Foto: Annie Libert

O dia estava feio. Era um típico dia curitibano com chuva e frio para entrevistar uma típica curitibana. Especialmente nesta manhã, muitos raios e trovões (e uma britadeira incansável no apartamento vizinho). Mas nada, exatamente nada, fez com que a voz de Luci deixasse de ecoar. Principalmente quando lhe questionei sobre o feminismo.

Já são décadas de ecos, quebra de barreiras e escrita de palavras que sempre estiveram à frente do seu tempo. Ela transgrediu, - não só com rebeldia, mas sobretudo, com gentileza. Em tempos de distanciamento, a gentileza dessa mulher é realmente rebelde.

Eu sei que você acordava cedo para ler Jorge Amado escondida. Então já começo pedindo pra você contar como foi essa infância e como a palavra “rameira” faz parte desta história…

Então, vamos começar lá no remoto ano de 1964, que é quando eu nasci numa Curitiba ainda muito provinciana, mas que já tinha grandes nomes nas artes. Eu nasci na rua Duque de Caxias, 252, no centro. A minha família, a família Collin, está em Curitiba há sete gerações e faz muito tempo que estamos arraigados aqui. E eu, seguindo uma máxima do Paulo Leminski, que disse “um pinheiro não se transplanta”, permanecia aqui. Foi o meu lugar de escolha e foi uma coisa muito natural. Eu sou de uma família de classe média, que morava numa casa muito grande ali no centro e com uma noção de família que também era bastante diferente da constituição que nós temos hoje, onde quase tudo foi diminuindo, não é? Hoje, a gente tem uma vida muito menos gregária, até em relação às amizades. E como eu entendi o mundo nessa primeiríssima infância? Eu entendia que família é um agrupamento de muitas pessoas e que elas estabelecem esses laços onde todo mundo vai se ajudar. Eu entendia isso, porque a minha avó criou 11 crianças e ela era meio uma mãezona de todo mundo. Cresci com essa noção de que as casas eram quase uma comunidade, era tudo comunitário. E eu entendia que a arte não era uma expressão humana exclusiva, ela era uma coisa do próprio convívio, porque as minhas avós e tias tocavam piano. E mesmo sendo uma casa de classe média baixa, nós tínhamos um piano. A música era uma coisa perpétua. Minha avó materna, cujo nome é Lucine, inclusive, meu nome foi uma homenagem a ela, era professora de acordeon. A presença da música era muito intensa e também da poesia, porque meu avô materno era poeta. Em todas as reuniões familiares, era dia das mães, aniversário de alguém, nós tínhamos esse momento especial em que ele declamava uma poesia para o aniversariante ou para as mães. E aquilo era um momento sagrado em que eu, muito pequena, aprendi a ver a palavra como esse elemento de união, porque todos paravam para ouvir o poema e era aquela choradeira. Se a gente pensa no princípio de toda a arte, não só da poesia, que é justamente comover, mover com, estar com, isso desde sempre foi muito presente: a arte com sua funcionalidade emocional. Porque não era uma coisa assim, pra ser artista, você precisa ter uma formação. Não, as pessoas tocavam instrumentos e escreviam poemas. Também teve a presença do meu tio, o Rogério Dias, que convivia ali intimamente conosco. Ele é quase como um pai intelectual para mim, um pai artístico. Inclusive, teve uma exposição recente sobre os 80 anos dele e lá estava o primeiríssimo quadro que ele pintou, que é um retrato meu. Eu tinha 3 anos, num retrato de 1967. Essa ideia de visualidade, de musicalidade, essa ideia da palavra, da sonoridade da palavra, mas sobretudo do convívio, é muito precoce. As artes chegaram na minha vida sem essa aura de nossa, é uma coisa mais intelectual. Não! Era do nosso cotidiano. Natural. Começo pela música. Com 7 anos estudava piano com grande intenção de me tornar pianista. Persegui essa ideia durante muito tempo. Até na minha juventude, eu tenho duas graduações em música. Depois eu sofri uma lesão no braço, não pude mais me dedicar ao piano, mas pude me dedicar à música e fiz mais uma graduação em percussão clássica. A música é a minha trajetória. E a minha primeiríssima relação com a palavra, vamos chegar na rameira, foi justamente, se deu a seguinte história. A minha mãe era professora de ensino primário e ela desenvolveu um método para dar aulas para crianças que tinham dificuldade de aprendizado. E eu estava ali, claro, no auge dos meus 4 anos, assistindo escondido, porque as aulas eram para crianças mais velhas, que estavam já na fase natural de alfabetização. Como eu espionava aquelas aulas, em algum momento, entendi que as palavras eram formadas por sons e que precisavam, cada uma dessas letras, estarem afetivamente ligadas a um princípio, que é o da nomeação. Então, se eu juntar sons, essa combinação formará palavras que servem para você identificar coisas. Eu achei tão incrível, eu falei, “nossa, a escrita é uma coisa sensacional, porque ela guarda coisas e guarda experiências de mundo”. Claro que era um flash de entendimento, muito precário, muito incipiente. De todo modo, eu fiquei muito fascinada com aquilo, foi um momento muito marcante, eu me lembro dessa pulsão, dessa curiosidade pelas palavras. Entendi que a gente guardava essa sonoridade através das letras e que as letras juntas, se transformavam numa expressão. Comecei a ler sozinha, escondido, porque era uma coisa meio proibida e eu estava assim, burlando. Surrupiei um livro da biblioteca do meu pai, que é advogado e tinha um escritório em casa mesmo. Aleatoriamente puxei um livro da estante, mas eu não podia ler, porque era uma atividade secreta. Então eu acordava cedíssimo e praticava aquele ato rebelde, eu queria liberar aquelas palavras. E um dia eu chego para minha mãe e pergunto, “mãe, o que é rameira?". Ela ficou muito horrorizada, muito, porque eu sou de uma época em que tinha uma série de vetos, palavras, palavrões. A primeira questão que ela colocou, foi: “quem ensinou isso para a menina?", e eu contei que li e me entreguei, né? Ela me pediu pra mostrar e  eu peguei um livro e mostrei. E aí ela ficou super emocionada, feliz e chocada também. Mas depois ela queria mostrar para todo mundo o que eu estava lendo.

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E era um o Jorge Amado. Você lembra qual?

Se eu não me engano, era A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água. E aí começou a minha paixão pelas palavras, um pouco depois eu comecei a escrever, eu já tinha perto dos 5 anos. Vale dizer que eu fui uma criança, que eu tenho uma deficiência visual bem severa e isso me fez uma criança isolada, que não tinha muitas atividades físicas. Isso, claro, contribuiu para ter um perfil mais introspectivo, por isso o meu primeiro contato e a minha primeira paixão já pelas palavras. E um dia, meus pais estavam jogando baralho na sala, já era umas oito e meia da noite, as crianças já iam dormir, eu estava na minha cama, sentada com um papel nas mãos. Peguei um lápis e ali escrevi meu primeiro mini conto, que já era meio de autoficção, um conto de uma linha. O meu pai se chama Harold, e minha mãe se chama Meire. pensei: como é que eu vou condensar esse momento? Eu coloquei assim, “Harold ama Meire”. Então esse verbo contava a minha vida, que era ser filha daquele casal que estava ali.

E você começa mesmo a escrever com 17 anos. E quem já foi ser sua primeira editora, ou crítica, foi a Helena Kolody. Que responsabilidade! Como que isso aconteceu?

Então, acontece que eu meio que sabotava a minha tendência à escrita, porque eu queria ser pianista. Eu pensava “sou da música, eu não sou da literatura”. Mas um dia, eu tinha uns 13 anos e surgiu um poema na minha cabeça. E esse poema é um poema horrível, ele ainda aparece de vez em quando. Era um poema longo, chatíssimo, mas que tinha um tema, obviamente a vida. E o que eu podia saber da vida com 13 anos? Não me pergunte. Mas era um poema muito longo e muito ruim. Tem alguns versos que, às vezes, aparecem na minha cabeça, nunca mais consegui me livrar disso. E todas as rimas eram com um “ão”. Dá para ver a precariedade da coisa, né? (risos) Mas eu mostrei esse poema para uma amiga do colégio e ela profetizou uma coisa. Ela falou, “isso aqui é muito importante, você tem um tipo de poder”. Ela fez um tipo de predição de que a palavra, ela te dá um certo poder, não de uma maneira pretensiosa, de Torre de Marfim, como durante muito tempo se pensou sobretudo em relação à poesia. Mas esse poder da comunicação, esse poder da proximidade com um veículo, com uma expressão da poeticidade que te coloca em rede. Então é, de fato, um poder como uma habilidade, uma capacidade, ou melhor dizendo, um potencial de comunicação, através das palavras e aí tratadas poeticamente. Então foi assim a minha primeiríssima experiência. Depois ficou abafada durante um tempo e com 17 anos, comecei o curso superior de piano na Escola de Belas Artes. E ali a minha alegria era tamanha por estar o dia inteiro, 24 horas por dia, pensando em arte e convivendo com aqueles jovenzinhos da minha geração, aquilo gerou um grande impacto emocional. E apesar de estar muito conectada à música, começou essa necessidade de também me expressar pela palavra e comecei a escrever loucamente, loucamente! Meu primeiro livro, não sei nem em quantos dias eu escrevi, porque era um fluxo enorme. Eu tenho a impressão que fui reprimindo essa coisa da palavra e quando veio, a coisa foi liberada. E eu comecei a dividir esse espaço entre palavra e música. Escrevi meus primeiros poemas e a minha madrinha, que era de Santo Antônio da Platina, uma intelectual, uma pessoa com uma formação bem sólida e muito sensível para as artes, tinha sido aluna da Dona Helena Kolody e os mostrou. Montei um livrinho, a Dona Helena leu e no começo era um tipo de mentoria, que só uma pessoa com a generosidade de Helena Kolody, poderia dar. A Dona Helena era uma figura tão preciosa, tão rara, de uma sofisticação emocional que permitia uma bondade natural. Ela me acolheu e passou a me receber, ler os poemas, comentava, eu tenho até hoje os comentários. Também, me colocou em contato com outros intelectuais, vou destacar aqui o professor Erasmo Pilotto. Ela pegou o telefone, ligou para o professor Erasmo e disse, “você precisa dar um exemplar de algum livro do Jorge de Lima para a Luci. Ela está indo à sua casa”. As coisas eram assim, num mundo sem internet, as pessoas usavam telefone e esse, entre aspas, favorecimento da sorte me colocando em contato com o professor Erasmo e vários outros. A partir da generosidade da Dona Helena, a quem eu sou muito grata, porque ela, com uma docilidade incrível, dizia “veja bem esse verso, Luci. Tem uma palavra sobrando” e ela tinha uma capacidade de chegar ao outro com uma contribuição tão séria e tão sólida, de uma maneira gratuita. Felizmente, sempre me cerquei de muitas pessoas generosas e artistas nesse sentido íntegro da palavra artista, essas pessoas que me possibilitaram entender qual é o próprio papel da palavra. Quando a gente pensa em comunhão no próprio papel da arte de maneira geral, em tempos de banalização de praticamente tudo, a gente está carecendo de uma relações que sejam mais profundas. Dona Helena morava num apartamento pequeno e logo na entrada, já tinham três haicais e uma forma que se chama tanka, que é um poema mais longo, na parede. Ela me disse “todos os dias, pela manhã, eu acordo e me dedico a estudar esses poemas. Todos os dias eu passo por esses quadros, é como uma imersão numa forma e uma reverência”. E isso é que mais importante para um artista, uma reverência à expressão.

Foto: Annie Libert

Você tem esse tipo de metodologia ou algum tipo de ritual da escrita?

Eu nunca tive e posso dizer que eu tenho uma pontinha de inveja para quem é tão organizado. Eu nunca tive um método. Acho incrível a Lygia Fagundes Telles por exemplo, ela disse, “eu sempre entendi que escrever é uma profissão. Então, eu acordo, tomo um café da manhã e me visto, mesmo que eu não consiga escrever de pijama, me maquio e aí eu vou para a máquina para escrever”. Então, é uma postura de reservar tantas horas por dia. Eu, nesse sentido, não chamaria isso de uma produção caótica, mas chamaria de um método não convencional, porque eu fico à mercê da palavra. Então, se eu estiver dentro de um ônibus, ou se eu estiver, às vezes, até num convívio social e surge uma ideia ou um impulso, uma coisa para ser registrada, eu vou acalentando aquilo. Aquilo chegou e em algum momento eu vou anotar num guardanapo ou no meu celular. Não tem um método assim que vou escrever das nove às onze. Não funciona para mim. Eu tenho o meu primeiro romance, eu escrevi em treze dias. Não foi um projeto que eu pude desenvolver, eu escrevo a hora que a palavra me procurar. Na minha vida pessoal, sou alguém bastante disciplinada, isso aprendi com a música, porque você tem um exercício diário de estudar várias horas por dia. Tenho uma relação com o trabalho que é muito significativa para mim, mas em relação à escrita, não. É mais desordenado. Mas eu acho que tem dado certo.

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A sua estreia foi em 84, com "Estarrecer", e você tinha apenas 19 anos. Você se sentia pronta ou foi quase um impulso da juventude? Você olha para ele hoje e vê maturidade?

Então, vou te contar isso, e ele está materializado aqui, porque o primeiríssimo Estarrecer, lá de 1984, foi um livro que eu terminei de 16 para 17 anos, mas eu levei dois anos para publicar, era muito difícil. As facilidades que a gente tem hoje, acho que para todas as artes, são inúmeras, e não dá para você comparar como era na década de 1980. Eu tinha o livro pronto, aí pedi para os meus pais me emanciparem e pude abrir uma microempresa de assessoria política. Trabalhei na Câmara Municipal, eu era apartidária, eu escrevia discursos e organizava eventos para conseguir um dinheiro para poder publicar o livro, que foi publicado numa gráfica clandestinamente, porque era muito caro pagar. Nós conhecemos um senhor que imprimiu os livros num contraturno, de madrugada, ele imprimia um pouquinho num dia, depois mais um pouquinho em outro.  Naquele momento, usei de uma estratégia e vou te dizer sem nenhuma pretensão, não que eu me achasse pronta, era uma grande novidade, mas surgiu aquela vontade enorme de mostrar aquele trabalho, claro que não tinha como dimensionar, não pensava numa carreira, mas esse desejo de mostrar o meu trabalho, Então publiquei o livro, fizemos um lançamento que foi um grande estardalhaço para Curitiba daquele momento. Tem uma história engraçadíssima. Eu pedi a opinião de 50 pessoas e publiquei um jornalzinho chamado Estarrecer, com todas essas opiniões. No lançamento, chamamos artistas plásticos, músicos, foi uma grande festa!  Encontrei o Paulo (Leminski) na rua, uns dois ou três dias depois e ele falou “como foi teu lançamento? Quantos livros você vendeu?". Daí eu falei, “vendi 101 livros". E eu nunca vou esquecer que ele disse “como assim? Eu lancei um livro na semana passada e vendi 98". Para Curitiba, você vender 101 livros num lançamento, foi, nossa, uma glória. Mas para finalizar essa questão do que você me pergunta, o que eu vejo nesse livro hoje a resposta é que, no ano passado, esse livro foi republicado e eu não mexi em absolutamente nada. Nele, tem uma pequena introdução onde eu explico que essa Luci de hoje, com 60 anos, olha para essa outra Lucy de 17 e entende que qualquer intervenção seria meio que ilícita. Eu vou corrigir essa poeta? Eu vou reescrever? Eu deixei o livro tal qual é e não mexi em nada! A única coisa que eu fiz foi na diagramação, porque eu descobri isso algo, 40 anos depois:  o rapaz que tinha digitado, ganhava por lauda e botou uns espaços, porque quanto mais longo ficasse, mais ele ganhava. Mas fora isso, não mudei uma única vírgula, em respeito a uma Lucizinha lá, toda chegando para uma expressão que ela não conhecia. O meu Estarrecer está aí e eu espero que os leitores cheguem nele, sabendo que é uma coisa incipiente, uma primeiríssima postura de alguém a partir da poesia. Eu não fiz nenhuma intervenção tambémno meu primeiro livro de contos,  que é o Lição Invisível. Deixei exatamente como ele é e eu me reconheço muito. Claro que eu percebo uma escritora em formação, mas eu me vejo já muitas escolhas em cima da sonoridade por exemplo, de uma rítmica, tudo isso aparecia já nesses livros. Eu já tinha uma necessidade de quebrar regras, de ser transgressora porque de alguma maneira, ser reconhecida por ser transgressora é uma alegria única, porque quando comecei a escrever, tive muitas sugestões, vamos dizer assim “você tem que mudar o teu estilo, você tem que se adequar as coisas mais convencionais". Aquela ideia do sucesso literário… Sempre conto a história de um editor lá de Minas Gerais que me procurou e falou, “eu vou cuidar da tua obra. O seu primeiro livro é bonitinho, só que você não sabe como editar. Tem que ter uns poemas para passarinho, uns para namorados, uns de flores". Naquele momento eu entendi o que eu queria. Eu fiz essa escolha: serei uma transgressora. Claro que eu não sabia exatamente o que isso iria dizer, mas a alegria que eu tenho é é uma das coisas mais importantes da minha carreira é de não ter falsificado a minha maneira de escrever. Não foi mais fácil. Durante um tempo, parecia que eu estava fazendo uma coisa para ninguém. Porque nossa, é sofisticada demais essa questão de hermético, sempre faço uma piadinha que me senti um verdadeiro tupperware, porque hermético era a coisa mais impenetrável e isso era a minha maneira de escrever e a alegria maior, além dessa de não ter falsificado a minha própria voz, eu permaneci no erro, permaneci numa certa fidelidade a quem eu sou e hoje, tenho muitos leitores que curtem exatamente a literatura como ela é. Eu não abri uma concessão em nome de ser mais popular ou mais lida e eu vejo que as minhas propostas eram ousadas naquele momento. Hoje, esses novíssimos leitores, essa novíssima geração tem um trânsito com técnicas ou elementos que eu já colocava na minha literatura. Por exemplo, a ideia da fragmentação, a ideia da montagem, a ideia dessas colagens hoje, o nosso olhar tem uma velocidade, uma dinâmica que lhe confere uma profundidade muito diferente do que nós víamos. Claro, os modernistas já apontaram isso no início do século, na metade do século XX, como é que a gente vai comparar isso? Nós estamos nesse primeiro quarto do século XXI e é uma realidade muito, muito diferente, como essa agilidade do olhar que qualquer criança ou adolescente tem em familiaridade com a linguagem, por exemplo, das séries. Então, você tem uma série de montagens ou mesmo uma novela, você tem uma série de recortes e isso o Eisenstein já falou em 1925, o cérebro humano ele faz essas combinações. Então, esse desprendimento da linearidade se torna ao longo dos anos, quase que forçosamente presente. Nós não pensamos mais em linearidade, aquela dependência eu tenho que assistir a um filme e eu tenho que entender. Esses elementos ficam lá no século XIX, com grandes autores como Flaubert, Machado de Assis, mas esse olhar vai sendo vencido quando chegam as propostas das chamadas vanguardas artísticas. Agora, fazendo uma aproximação, se a gente já fatiou a realidade com uma série de técnicas em todas as artes, vamos pensar no cubismo, vamos pensar no cubismo literário, como é que você vai chegar 100 anos depois, ainda querendo apresentar uma resposta artística usando esses elementos pra um momento em que o olhar é diferente? Para concluir, essas maluquices que eu fazia lá atrás, meu Deus, impenetrável, uma coisa que ninguém estava compreendendo e que hoje, são muito naturais.  Há quase 10 anos, os meus livros são dessas famosas listas de vestibular e os adolescentes curtem. Eles, entre aspas, entendem e eu tenho contos radicais. Eu não tenho a ilusão de que todos adoram o que eu escrevo, principalmente porque vão ter que responder perguntas e isso é complexo, mas eu vejo que muitos jovens acabam se aproximando ou acabaram se aproximando da minha literatura e ainda curtem, porque identificam esse jogo todo. A minha proposta que parecia uma coisa meio esdrúxula, uma coisa fora das perspectivas daquele momento, hoje, eu me sinto muito compreendida. Tenho exatamente os leitores que topam essa brincadeira comigo, esse jogo e essa é uma pra mim, uma alegria. Acho que é extremo uma confirmação de que eu investi em alguma coisa pensando, eu só sabia fazer desse jeito. Até foi uma resposta que eu dei uma vez pro Dalton Trevisan. Ele um dia falou a um amigo nosso em comum, “faz uma pergunta pra Luci: por que ela escreve tão complicado?". E eu respondi “diz pra ele que eu só sei escrever assim". Acho que nenhum escritor ou artista chega e pensa “eu quero, eu tenho esse rol de coisas que eu vou seguir". Isso nos constitui! A tua expressão vai ser seguindo o que você tem a oferecer, como é que você entende o teu ofício, como é que eu me relacionava com a poesia e depois com os contos, que é quando você topa botar a palavra em movimento. Como vocês, artistas visuais, quando pensam essa expressão através de um traço, através de uma cor. Há uma mobilidade expressiva. A gente precisa se entender, precisa se constituir e é muito difícil, porque a gente está à mercê da criatividade e a criatividade é uma coisa não dá pra comprar no supermercado. Eu me reconheço nesses primeiros livros com todas as limitações que eles possam ter, mas é o que eu sei fazer.

Foto: Annie Libert

Luci, você sempre esteve muito à frente do seu tempo e eu não estou falando apenas do texto. Me pergunto como uma mulher como você, não se declara feminista? Porque na minha geração é uma condição estabelecida. Em algumas entrevistas que li, você comenta isso, eu queria entender melhor.

Ah, então vamos prestar um esclarecimento à população. Na verdade, eu sou uma grande feminista e eu me entendo como feminista desde sempre. Eu não sei, em algum momento, há uns 5 anos, aconteceu uma entrevista coletiva e ali uma menina dos seus, não sei, 19 anos, colocou isso. “Ah, você não é uma feminista porque eu nunca te vi numa passeata”. E eu perguntei “quantos anos você tem?". E ela “19”. E eu, “você não sabe quem eu era com 19 anos”. Então, deixa eu contextualizar. Eu quero te dar uma resposta que é a partir da minha vivência. Como é ser uma mulher na década de 1980, uma mulher jovem que vai, primeiro, estudar música em detrimento das profissões para as mocinhas da época. Estudar música não te dava nenhuma segurança social como outras carreiras. Mas, mais do que isso, eu sou aluna da primeira turma em percussão clássica, que, sem dúvida, e naquele momento, sobretudo, não era uma profissão para mulheres. Então, desde todas as minhas escolhas, eu sou uma percussionista. E me graduei numa turma que tinha dois alunos. Essas duas alunas eram mulheres. Eu acho que é uma sinalização do meu pouco me importar com essas convenções. Agora, eu quero contar que eu sou mãe de dois homens, isso corresponde a um exercício de tudo aquilo que você acredita. E eu vou criar esses dois homens, numa outra geração que tem muito pouco a ver com a geração na qual eu cresci. Mas são dois homens que têm um entendimento da figura e do papel de uma mulher na sociedade e da sua importância. São homens que respeitam isso, que entendem isso. Vou lhes dizer também. Com 19 anos, eu fui presidente da primeira cooperativa de artes do Brasil. Era a Cooperativa de Artes do Paraná. É a primeira cooperativa de artistas que chegou a ter 70 cooperados. E a proposta da cooperativa era muito revolucionária. E é uma mulher que está à frente dessas ideias. Eu também começo escrevendo para teatro e produzi várias peças. Eu produzi cinco peças de teatro num único ano. Então, é uma mulher que está fazendo tudo isso numa Curitiba muito fechada, uma Curitiba provinciana, uma Curitiba que não era um demérito, mas uma Curitiba num momento cultural de um país que quem estivesse não estivesse no eixo, estava condenado ao esquecimento. Então, foi essa menina muito consciente. Eu sempre tive consciência profunda de que o caminho que eu iria trilhar era um caminho bem mais difícil para uma mulher, como é até hoje. Não vamos dizer que nós já superamos todas as dificuldades, pelo contrário. E eu tenho muita firmeza em colocar que eu não só entendi o que é o feminismo enquanto teoria, mas a minha vida inteira foi estabelecendo esse compromisso na prática. Eu tenho uma obra na contística que não é tão vasta, mas tem uma certa expressão. Anos atrás, uma pesquisadora vai fazer uma tese de doutorado sobre a minha contística e ela pega 70 contos que eu já tinha publicado. E ela faz um levantamento que mostra em gráficos exatamente, em números, quantos personagens eu havia criado que falavam da condição da mulher, que tematizavam a condição da mulher. Em proporção, eu teria, digamos, 80% desses contos falando da condição da mulher. Eles fazem da palavra um libelo para o entendimento das discrepâncias sociais, das injustiças sociais, e sobretudo a partir da figura da mulher. Uns 10% seriam personagens masculinos e 10% personagens que não têm gênero. Também me sinto bastante pioneira nessa condição de não estabelecer uma polarização, de pensar esse trânsito todo a partir desses personagens que não têm gênero e que estão ali presentes na sociedade, num trânsito digno de reflexão. Essa questão de não se declarar feminista, eu acho que não existe uma declaração mais franca, mais imediata do que você dizer em 60 anos de vida, eu estive desde sempre como uma mulher buscando dar voz à expressão artística, muito, muito conectada e fidelíssima à ideia de que será através do meu trabalho que eu também vou contribuir para essas, é uma palavra difícil da gente usar hoje, mas para essas conquistas, conquistas nesse sentido vamos também abrir espaço.

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Eu acho que a maneira como a gente entende o que é uma produção artística, ela está ao mesmo tempo não definida em gênero. O que é um artista, qual é o gênero de um artista, e por outro lado, intimamente e imediatamente ligado a uma condição social. Então são duas realidades que devem conviver. Penso, quanto escritora, eu tenho uma produção que independe do meu gênero, eu não posso colocar, não é, ver um olhar estético submisso ou subalternizado a uma definição social, convencional, isso é isso, não é? Pensando na estética, o que é a própria condição da estética e por outro lado como você se compreender e compreender o que você faz, o teu fazer, o meu fazer literário, como compreender isso se eu não tenho o momento da minha produção como uma grande baliza, afinal eu falo para esse tempo, sobre esse tempo, não é? Se eu puxo reflexões que vêm desde sempre, é para ir para os leitores, para as leitoras de hoje. É um pouco injusta essa questão de que eu não teria oficialmente me declarado uma feminista, porque eu sou uma feminista e minha obra está aí para prová-lo.

Queria também lembrar que eu fui a primeira madrinha da Marcha das Vadias em Curitiba. Se alguém me escolheu naquele momento para representar uma voz que eu acho que tem muitos desdobramentos, eu me sinto honrada de já ter sinalizado a partir da minha obra quais eram as minhas propostas. E eu penso que essa questão de rótulo, ela é secundária, não secundária de importância, mas ela tem uma secundidade em relação ao que você faz efetivamente na sua vida. E eu penso, eu mãe de dois homens, entendendo essa realidade de preparar os meus filhos e de compreender como eles são agentes numa sociedade nesse momento, eu acho que é um exercício importantíssimo também de uma consciência maior do que é a presença desse feminismo na sociedade, de uma maneira prática, de uma maneira não apenas ideológica, de uma maneira até onde um artista consegue se expressar.

Eu tenho muitos, não só poemas, como contos. Eu tenho um poema que é inédito que está nessa coletânea, que é uma resposta a isso, que é uma resposta como se eu estivesse num slam. Esse poema se chama Batalha e depois eu quero ler esse poema para você.

Sobre essa questão feminina, você tem muitas  Marias nos seus textos.  Essas Marias são reais, quem são elas?

Essas marias começam com uma relação muito visceral com uma condição, a condição da mulher, isso é bastante óbvio. Quem são essas marias? Bom, o grande lance é, se eu digo que é visceral, vamos para o meu nome. Meu registro é Luci Maria Dias Collin. Então, Luci Collin tem Maria Dias no meio desse ser. A nomeação dessa criaturinha, uma curitibana, traz Maria Dias. Dias é um sobrenome comuníssimo, não é? É um sobrenome muito popular aqui no Brasil. E essas Maria Dias, elas existem em mim, existem na minha família de mulheres. É uma tradição católica muito arraigada aqui no Brasil, pela nossa relação com a Europa, com Portugal, de que o nome da mãe de Jesus esteja presente. Então, todas as mulheres, todas as mulheres da minha família tinham, até as minhas bisavós e tal, todas tinham o nome Maria. Na família da minha mãe, todas as mulheres tinham Maria e os homens tinham o nome José. E isso é trazer uma tradição para você pensar na nomeação, e acho muito importante pensarmos o mecanismo de nomeação. Uma criança, ela adquire o seu conceito de mundo e a sua própria expressão. Como ela vai transitar por esse mundo a partir da nomeação, você construir personagens que tenham a condição de Marias é trazer para esse fórum alguma coisa muito brasileira, uma coisa da nossa identidade, da nossa brasilidade, mas, sobretudo, com essa Maria da religiosidade, essa coisa de ser uma mãe abnegada. Como é que se opera essa transposição para o nosso momento presente? Eu acho que esse é um nome que pode representar todas nós, não numa perspectiva já vetusta, vencida, mas nessa condição de um nome popular para uma mulher que se ressignifica. Quando escrevi Papéis de Maria Dias, todas elas estão colocadas num mapa de pequenas cidades que são muito próximas. Ao final do livro, precisa de uma certa matemática para você entender que elas estão, uma coordenada lunática, não lunar, as coordenadas de onde elas estão geograficamente. Elas são primas, elas têm uma relação de sangue, mas elas não sabem disso, por quê? Porque hoje, na nossa realidade, as pessoas não têm tempo para essas relações. O meu questionamento é justamente esse. Essas Marias, elas são desdobramentos de todas nós mulheres. Elas têm situações, inclusive, a questão de gênero, uma das Marias ali, no Papéis de Maria Dias, a gente trabalha justamente essa questão da transversalidade.

Hoje, nós temos uma sociedade muito mais equilibrada com essas escolhas e esses reposicionamentos a partir do que uma pessoa decide sobre o seu gênero. Então, essas Marias, elas dizem desse reposicionamento das mulheres na sociedade. Nós temos uma Maria que é artista, nós temos uma Maria que é cientista, nós temos uma Maria que nasce homem. Então, é um repensar, uma possibilidade de que essas Marias se refaçam e assim todas as mulheres, hoje, ocupando esses meandros todos. São meandros filosóficos? São, num primeiro momento, mas são meandros existenciais que só têm validade na prática. E é isso que a literatura consegue fazer, é trazer essas provocações, trazer esses questionamentos. É isso que serve a arte, para te tirar de um estado inicial e te colocar num outro momento de percepção. A palavra faz isso. Essas Marias todas, simbolizam esse movimento necessário, que demanda uma certa coragem. E esse movimento também de entendermos que as transformações partem de um certo cuidado com o outro. Eu posso não ser essa Maria integralmente, mas eu dou vistas para outras condições de Marias com suas expectativas, com suas experiências, com suas profundidades, com suas relações com o que é a própria vida.

Agora você está lançando a coletânea e comemorando 40 anos de carreira com Incombinados Poemas Escolhidos, o que te faz olhar para trás e achar que fez a escolha certa ou pegar um lápis, um papel e escrever o seu primeiro poema?

Eu sinto que há sempre uma confluência de fatores e a palavra, em alguma medida, me escolhe. A palavra impacta, a palavra artística, a palavra tomada possui uma potência de comunicação. Comunicação do quê? É muito importante contarmos boas histórias, é muito importante pensarmos nesse entretenimento que é a literatura, mas é mais importante ainda, nós pensarmos na veiculação de uma mensagem tomada esteticamente, nesse aparato que a palavra adquire de sensibilização do outro. Penso que apostei numa perspectiva que eu não tinha como dimensionar, eu fui por um grande impulso amoroso de dedicação à palavra e hoje, nesses 40 anos, existe uma confirmação dessa alegria, espero que isso perdure até quando eu existir, a gente não sabe, mas manter essa gratuidade nesse trânsito, mas, sobretudo, entender que a vida me trouxe essa possibilidade, durante 40 anos, de estar com as outras pessoas, de dizer com outras pessoas, de comunicar com outras pessoa. Isso é um presente mesmo, isso é uma oportunidade muito preciosa, que eu valorizo demais. Um presente da vida! Claro que existe o lado de entender a literatura como trabalho, dedicação, compromisso, compromisso no sentido leve, de você estabelecer quase um pacto para que as coisas possam fluir, compromisso de uma questão ética, uma questão de comprometimento. São 40 anos de uma oferta, a vida me ofereceu isso, essa possibilidade de absorver, de saborear para onde a palavra vai, para onde a palavra pode estar. Isso é um grande presente, essa é uma condição que eu só posso render uma enorme reverência à palavra, posso render uma enorme reverência a partir do meu próprio ofício, do entendimento de escolher a poesia, na medida em que ela também me escolhe.

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