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Amorim: "A minha vingança será artística"

Depois de uma infância repleta de bullying, Amorim hoje tem reconhecimento no mundo Queer, comunidade com que ele adora dialogar. Também é colagista nacionalmente conhecido

Amorim: "A minha vingança será artística"
Foto: Annie Libert
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Desde que ele se entende por gente, a masculinidade o afasta. Só descia pra brincar no condomínio, se fosse com as bonecas das meninas. Criado num lar instável, Amorim encontrou nas cores, cortes, colas, a sua identidade. Talvez, a sua fuga: um mundo inventado, cheio de máscaras.

Ainda criança, foram as revistas que distraíram aquele menino quieto, que vivia fechado em casa, preso à barra da saia da mãe. O medo, os gritos, as sobras, fizeram com que ele encontrasse na criatividade, uma maneira de transformar esse lugar caótico. “Eu gostava muito de brincar com papel, porque a gente não tinha dinheiro pra comprar brinquedos, eu desenhava os personagens, recortava, cobria com durex e ficava brincando com os papeizinhos", conta.

Se descobriu, estudou, se assumiu, aprendeu. Encontrou na internet, amigos onde formou sua primeira comunidade, onde se sentiu quase “normal", com afinidades. Quem é da nossa geração, a nascida nos anos 80, sabe como a rede mundial dos computadores mudou a nossa narrativa de maneira íntima: por motivos óbvios, uma geração de adolescentes curiosos, pode entrar em contato com o mundo pela primeira vez pelas telas do computador, em tempo real, em bate-papo, no ICQ, MSN, Orkut, Tumblr, línguas se misturaram, para o bem e para o mal. 

Foto: Annie Libert

Depois de cursar Design e ter contato direto com a arte pela primeira vez, Amorim frequentou espaços alternativos que marcaram nossa geração de artistas, como o Das Nuvens e o Tijucão Cultural, que ficava no Edíficio Tijucas, o Wake Up Collab, numa casa antiga, na Rua Portugal, ali no São Francisco. E como não lembrar também, do Edifício Anitta, que por algum tempo abrigou artistas independentes. Surgiu também nesta época, o Clube da Colagem de Curitiba, um marco na cidade e que existe até hoje, sendo composto pelo próprio Amorim, pelo Mário de Alencar e a Bomju Coelho.

Hoje, a produção de Amorim tem reconhecimento no mundo Queer, comunidade que ele adora dialogar. Também é colagista nacionalmente conhecido. Quem aí não leu “A Comunidade do Lixo", de sua autoria, corra, porque são os últimos exemplares do livro de que narra a história de uma comunidade alternativa LGBTQIA+ que foi construída no interior do Paraná, na ditadura militar. Mais um mundo que ele criou pra se adaptar a esse nosso.

O livro, parece que não, mas é ficção. Dessas que a gente começa a ler a não para. Para mim, é também assim o trabalho artístico do Amorim: a gente começa a olhar cada detalhezinho, cada cor, cada carimbo, cada letra, e não consegue parar por horas, dias, - isso já dura anos.

Depois da nossa conversa no estúdio da Annie, que assina as fotos desta coluna, Amorim criou o trabalho tipográfico “A minha vingança será artística". Eu entendi o porquê. Agora, entendam vocês também.

Foto: Annie Libert

Como é que foi essa infância aqui em Curitiba? Você já tinha alguma inclinação à arte? 
Eu cresci no CIC, na periferia, num condomínio desses que tem muitos blocos, bem esses condomínios de Cohab que eram bem populares nos anos 90. Eu tive uma infância bem introspectiva, mas bem artística. A arte era minha válvula de escape, com certeza. Acho que desde muito pequeno eu desenhava. Não tenho uma lembrança de onde começou. Sei que sempre gostei muito de papel, de revistas. E era engraçado que as coisas que eu mais gostava nas revistas, era de recortá-las só pra tirar algo dali, não era pra fazer uma colagem. Mas era o início de um pensamento de colagem, com 7 ou 8 anos de idade.

E como era o contexto familiar onde essa criança artista existia? 
Eu tinha um contexto familiar bem complicado e um lar bem instável, por causa do meu padrasto. Ele bebia muito e ele e a minha mãe tinham uma relação estranha. Acho que a agressão era, com certeza, mais da parte dele. Tanto verbal, quanto psicológica e física. O meu irmão era sempre desconectado dessa situação, porque era aquele moleque da rua, que jogava bola na quadra com os amigos. E eu era a criança em casa, que não gostava de sair. Se eu descesse pro condomínio para brincar, era com as meninas, com as barbies delas, porque eu sempre gostei da companhia de mulheres e sempre fiquei muito incomodado perto de homens. Desde que eu me entendo por gente, a masculinidade era uma coisa que me afastava. E esse padrasto, ele também fazia bullying comigo, enquanto era o melhor amigo do meu irmão. Tanto que o meu irmão, chama ele de pai. Eles estão em contato, eu não falo com ninguém na minha família. Só com a minha mãe.

Você acha que você já era a “criança gay” da família e o bullying vem disso? 
Com certeza. Eu era constantemente alvo de brincadeirinhas que parecem inofensivas, mas que ficam ali martelando por anos e anos. Era tipo, “fala mais grosso", “engrossa essa voz". Eu tinha um tio que toda vez que ia me cumprimentar, ele virava a minha mão, como se eu fosse uma ladyzinha, sabe? Então se estendia também para o resto da família. Eu cresci numa família evangélica, adventista do sétimo dia. Em casa, a minha mãe não era tão evangélica. Ela é mais do tipo, acredita em Deus, mas não levava a coisa adventista para dentro de casa tão a sério.

Mas você era obrigado a frequentar? 
Então, não, porque eu acho que minha mãe também nunca gostou tanto de igreja. Mas sempre que eu ia, era um martírio pra mim. Ficava sofrendo. E tem coisas como ajoelhar e fechar os olhos pra orar. E eu nunca fechava o olho, eu sempre ficava ali, estagnado. Ou nos almoços de família, tinha a roda de oração pré-almoço, eu sempre era criança de olho aberto, enquanto todo mundo tava ali orando, eu me sentia muito deslocado. A coisa de ser uma criança viada, eu não me enxergava como uma criança viada. Não tinha essas referências, porque era uma criança. Comecei a aprender os termos “viadinho", quando eles eram jogados contra mim. E hoje eu olho as fotos da minha infância, eu tô sempre requebrando. e depois isso sumiu ao longo do fim da infância, início da adolescência. Eu acho que eu fui tentando me moldar. Não acho que tem ninguém na minha família que me entende de verdade, em nenhum aspecto. O aspecto da arte sempre foi muito incompreendido. Quando eu era criança, eu falava que eu queria ser desenhista, quando eu crescesse. Teve uma época que eu queria ser fotógrafo, quando eu crescesse. Teve uma época que eu queria fazer cinema, quando eu crescesse. Sempre ligado um pouco à arte, eu não fazia essas conexões. Mas eu era sempre muito desencorajado. E daí eu tive essa infância inteira com esse cara aí, que era super agressivo. Eu nunca apanhei dele, mas eu já acompanhei minha mãe até a delegacia da mulher, com o olho roxo. Eu lembro de uma piada uma vez que eu fiz no ônibus, indo com ela na delegacia, que o olho dela tinha passado por todas as cores possíveis. Eu tinha visto ele amarelo, eu tinha visto ele verde, eu tinha visto ele azul.

Foto: Annie Libert

E disso pra uma adolescência, como foi? 
Eu acho que comecei a ser um pouquinho menos feminino. Eu sabia que a minha voz era muito estridente. Eu sabia que eu tinha a mão mole, porque era a piada da família. E você vai crescendo e entendendo melhor o que são aqueles xingamentos que você ouve na escola. E também começa a ter desejos e foi ali com 15 anos que eu entendi, mas isso aí eu entendi bem rápido também. Acho que a adolescência foram os piores anos da minha vida. Tinha medo do que os outros iam pensar e eu não me aceitava também. Então era uma rejeição daquilo que eu estava percebendo que estava acontecendo com o meu corpo. Não queria aquilo pra mim. Eu já tinha entendido a essa altura o que era ser viado pra sociedade. Eu não queria me associar com aquilo. Eu tentava ter uma voz um pouquinho mais controlada, mais dentro do tom. Engraçado que ao mesmo tempo, eu era grudado com a minha mãe o tempo inteiro. Tipo, rabo de saia da mãe.

Você tem essa lembrança de ser grudado com ela? 
Muito, muito. Eu tinha um desespero de perder a minha mãe. Isso eu relaciono diretamente ao meu padrasto. Eu sempre achava que ela ia morrer. Sempre, sempre, sempre.

Quando você acha que foi essa virada, que você falou, “agora eu vou viver a minha vida"?
Ali na adolescência eu fiquei muito digital. Chegou o computador, estava bem no começo dos anos 2000 e era perfeito pra uma pessoa introspectiva. Só que nesse momento eu larguei os processos artísticos. Eu gostava muito de brincar com papel, porque a gente não tinha dinheiro pra comprar brinquedos, eu desenhava os personagens que eu queria, recortava, cobria com durex pra ficar meio impermeabilizado ali, não desgastar, e ficava brincando com os papeizinhos. E daí ali na adolescência eu meio que larguei isso, por desincentivo geral da família. Só pensava em computador, em internet, e comecei a mexer em softwares de edição e programação. Era muito fã de Harry Potter…

E agora a autora, todos sabemos que é transfóbica, né? 
Sim. Acho que é até um pouco irônico, porque eu acabei criando uma comunidade online, porque resolvi fazer um site de Harry Potter. Ele chegou a ser um site .com. Tinham várias plataformas que você conseguia roubar o código de outros sites, editar em cima, comecei a virar um ratinho de computador com 14 anos, e organizava pré-estréia dos filmes em Curitiba. Conheci outros webmasters de sites do Brasil todo. Tínhamos grupos no MSN e a gente se falava o dia inteiro. E toda essa galera, era tudo meio que da mesma idade, assim, um pouquinho mais velho. Todo mundo virou viado. Então eu acho irônico por isso. Foi a primeira vez que eu experimentei a coisa da comunidade e isso me impactou, foi um ponto de virada, porque conheci fãs de Harry Potter de Curitiba, que também eram gays e a partir deles, comecei a frequentar as baladinhas com 17 anos. Entrava com  identidade falsa. Descobri o mundo queer e fiquei fascinado! Conheci a noite, e até hoje eu amo a estética noturna. Mas eu amo muito esses espaços de socialização queer.

Foto: Annie Libert

E depois, como você foi escolher a sua profissão e começou a pensar em arte? 
No ensino médio, eu fui um dia numa feira de profissões da UFPR e descobri o design  e que existia algo que tinha um pouco a ver com arte, mas que era um emprego aceitável. Se bem que minha família nunca entendeu o design também. Mas tudo bem, porque depois de um tempo, eu desisti de fazer eles entenderem e seguir com a minha vida. Mas foi assim que eu retomei os processos artísticos que eu tinha deixado de lado, porque a faculdade de design é muito artística. Nessa altura eu já estava indiscutivelmente feliz sendo gay e me assumi em todas as pessoas. Mas a coisa da arte demorou. Eu me formei em 2010 no design e fui trabalhar numa agência de design e publicidade. Fiquei quatro anos lá. E daí eu acho que foi a segunda era das trevas da minha vida, porque comecei a ficar muito depressivo de volta. Acho que nada do que eu esperava do mundo real do design, era o que eu estava encontrando ali.

O que você esperava? 
Sai de uma faculdade cheia de processos artísticos, cheia de protótipos interessantes e de repente estava em um computador, 9 horas por dia, fazendo flyer. Não curtia os processos do dia a dia. Eu ficava entediado e eu levava broncas do meu chefe. “Não foi para isso que a gente contratou". “A gente amou seu portfólio", porque eu fiz um TCC cheio de colagens, que analisava o movimento de cartazes poloneses e como eles faziam os próprios cartazes de uma forma mais artística. Enfim, daí eu fui aceito nessa agência porque o cara amou aquele meu trabalho, mas era justamente eu no meu estado de conforto ali. Brincando com a minha mão, cortando papel, brincando com texturas que não tinham nada a ver com o que eu fazia na agência. Acabei entrando numa pó em quadrinhos que rolava no Opet. Foi quando eu conheci o Fulvio Pacheco (hoje, diretor da Gibiteca de Curitiba), conheci o Rodrigo Scama, pessoas dos quadrinhos aí da cidade. Fiquei dois anos nessa pós que era a minha válvula de escape. Eu senti necessidade de fazer coisas com as mãos, fazer mais artístico mesmo. E aí me demiti. Nessa época eu construí portfólio e tinha uns amigos e acabamos formando um coletivo artístico. Não foi nada muito impactante, mas foi nesse coletivo onde conheci a Karla Keiko, que na época tinha o Das Nuvens e comecei a ter acesso a esses locais independentes de arte e a ter vontade de expor. A gente acabou fazendo uma exposição no Tijucão Cultural.

Foi a primeira vez que você expôs? No Tijucão? 
Em 2015, a Ju (Bomju Coelho) já era minha amiga. Eramos do pessoalzinho do design. Ela fazia colagem e eu colocava ela num pedestal, porque ela era a designer artista que eu tinha como referência, que usava colagem nos projetos de design. E ela morava com uns amigos num apê gigante, ali perto da Universidade Federal. Então,ela resolveu fazer uma mostra no apartamento dela, abriu uma chamada, era um apartamento que tinha uma sala enorme e ocupou esse espaço com essa seleção de artistas. Também nessa época, fiz uma colagem de um autorretrato. E a partir disso eu fiquei querendo fazer uma série e comecei a tentar buscar espaços. Então eu fiz a primeira exposição, antes do Tijucão, na Wake Up Collab, no coworking. Durante a semana, tinha muita gente trabalhando na frente das minhas obras. Foi o único lugar que aceitou conversar com alguém que não era artista, sabe? Tinha só vontades. Elas me receberam super bem. Na mesma época, rolou a exposição no Tijucão Cultural. Ali eu conheci o pessoal da Soma, que nessa época era na Brigadeiro Franco, e entrei pro Ateliê Soma como residente. 

Então eu fui conhecendo esses espaços e amando, me enturmando. Aí, eu acho que eu conheci uma outra comunidade que mexeu muito comigo. Essa coisa da comunidade independente, fora do circuito oficial das instituições. Que era uma coisa que parecia muito inacessível. Tinha o Edifício Anitta também. Tudo muito ativo, com pessoal descolado.

Talvez hoje esses espaços ainda existam, de outras formas, em outros lugares. Deve haver essas efervescências em algum lugar, né? Talvez a efervescência não esteja mais na gente. Ou esteja de outra maneira. 
É, talvez. Passando por uma outra etapa da vida, a gente não enxerga da mesma forma, né? Mas aquilo mexeu muito comigo. A gente muda tudo. Nossa, e eu amei estar nesses espaços, porque a gente podia fazer exposição ali à vontade, era só reservar uma data, não precisava pagar nada, só a mensalidade de residente, no caso da Soma.

E aí foi que surgiu o Clube da Colagem? 
Sim, lembro que no final desse ano, 2015, conheci uma garota na Soma, que morava fora do país. Ela me contou de um coletivo chamado Sidney Collage Society, que fazia todo mês uma exposição a partir de colagens produzidas pelos membros. Aí eu fiquei matutando: “Pô, vamos fazer alguma coisa assim”. Mas eu só conhecia a Bomju de colagista. Mas aí, através da Soma, fui conhecendo mais gente e fiquei sabendo que tinha um cara chamado Mário de Alencar, que tinha andado numa oficina com a Cintia Ribas na Boiler Galeria. E as pessoas falavam deles, porque eles eram as pessoas da colagem. Aí eu marquei uma reunião com o Mario, com a Cintia e com o Catenzaro.

E daí você se uniu com esse pessoal, eles aceitaram a sua ideia?
Amaram, todo mundo amou! Muito fofos! Mas depois de um tempo, a Cíntia e o Catenzaro saíram da equipe, porque eles não acompanhavam o nosso ritmo. Eles tinham muitas prioridades. Agora, o Clube da Colagem vai fazer 10 anos.

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É um marco, porque o Clube da Colagem tem uma importância, que talvez vocês não percebam porque vocês estão lá dentro, mas ele tem uma importância, uma relevância. Ele é um movimento, né? 
É um movimento. Eu acredito que sim mesmo. Eu acho que eu senti muito isso nesses dois primeiros anos que a gente fez muitas exposições. A maioria delas envolvia curadoria de outros artistas, porque aos poucos a gente foi rumando por uma outra coisa com o coletivo. A gente foi querendo falar sobre as nossas pesquisas, não de uma forma egocêntrica, mas um trabalho autobiográfico. E cruzar o que a gente faz e falar sobre colagem. O Mário, nossa, ele abriu muito a minha cabeça em relação a colagem. Essa coisa de tudo é colagem, qualquer coisa é colagem. Eu amo que colagem é qualquer coisa! Porque tem muita gente que caga a regra para o que é colagem. E a gente queria ser o mais abrangente e democrático possível. Comparado com pintura e outras técnicas que realmente tem etapas a se cumprir e técnicas.

E a colagem tem essa coisa mais solta e mais democrática para todo mundo. Você acha que tem um preconceito com a colagem? 
Acho. Eu sentia muito isso na época. Eu não sei se hoje é a mesma coisa. Mas acho que sim.

Eu acho que a desvalorização é em relação ao erudito da arte. A pintura está lá no alto da montanha e nós estamos aqui, cortando papel usado. 
O que vale completamente contra a própria arte contemporânea. Vivemos os últimos 100 anos de arte no mundo. O Duchamp estava há muito tempo transformando qualquer coisa em arte. Não só ele. A gente batia muito nessa tecla de colocar a colagem nesse contexto do cubo branco na parede, como uma obra de arte ao lado de outras obras de arte na moldura. Eu tinha muito isso de que vai desbotar, vai desgastar. Mas é a característica da obra. Ela é uma coisa viva que vai mudando mesmo. Mas esse incômodo também me fez aproveitar mais a colagem em outros formatos. Já que a gente está falando que a colagem pode ser um aglutinador de técnicas. Eu tinha problemas com a escala das colagens, que às vezes são pequenininhas. Então, eu vou trabalhar digitalmente, fazer uma serigrafia dela. Acaba perdendo algumas características de colagem aos olhos de algumas pessoas, mas eu sei que a colagem está no processo inteiro até chegar ali. Não tem nada que eu faça que não tenha colagem no processo. Até o livro. Eu pegava blocos de textos que eu gostava, modificava em cima. Eu não sou escritora. 

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E sobre o seu livro “A Comunidade do Lixo", quando eu li, eu fiquei, “o que está acontecendo aqui?". De onde surgiu a ideia de fazer esse livro e como é que foi faze-lo processualmente? 
Eu acho que combina muito com o paranaense. Eu me sinto como se eu estivesse num Conto de Aya Gay, fazendo metáforas com período de repressão. O livro é uma nova etapa de um projeto que já existe desde 2017. Estava iniciando as minhas colagens com temática queer, bem inspirado por drag queens e criando esses personagens. Acho que isso é uma coisa do meu trabalho desde sempre, essa criação de personagens, criaturas com rostos insanos, que chegam a ser bizarros e que misturam signos de feminino e masculino. E uma galeria em Curitiba, lançou uma chamada para uma mostra de videoarte que se chamava Mirada. Então, escaneei todas as minhas colagens, todos os meus personagens e criei pequenas animações. Uma narrativa bem fragmentada. Sem narração. Sem ninguém te explicando o que está acontecendo. Só esses personagens se movendo. Alguns letreiros. Mas foi aí que nasceu a Comunidade do Lixo. Que era a comunidade desses personagens. O lixo vem da ressignificação do lixo ao luxo. Que tem a ver com a palavra queer. Que vem da coisa de ser estranho. Ser estranho e diferente. E hoje todo mundo usa abraçando a expressão. Então, era meio que pra ser um paralelo a isso. Que era eu já com essa ideia da comunidade mais formulada na minha cabeça. Eu senti aquela estética antiga dos recortes, das revistas que eu usava, que eram revistas cruzeiro dos anos 60, 70. O meu estúdio tinha muito cheiro de sebo. Quando comecei a animar isso, eu tinha a sensação que eu estava assistindo uma animação de um documentário, por isso inventei que esses vídeos eram um mini documentário sobre essa comunidade perdida e eu tava ali nessa posição de investigador tentando juntar esses pedaços. E não sei quem elas são. Em 2017, teve a Bienal de Curitiba que o Clube da Colagem foi convidado a expor no Museu Municipal, onde trabalhamos a ideia de colagem e instalação. A minha era uma mesa de vidro nessa estética de mesa de documentos. E tinha ali algumas colagens originais, um documento forjado, um dossiê com uma capa forjada. Tipo, coisas que me ajudavam a construir essa ideia de que eram vestígios de um passado e  estava tentando entender a história. Eu nunca planejei que fosse um livro. Então, as minhas colagens me disseram o tom do vídeo documental que daí eu transformei numa mesa e quem sabe um dia seja uma exposição histórica, né?

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Esses tempos vi você pintando. Tá saindo algo novo? 
Então, eu estou pintando uma tela há meses lá em casa, enorme. Eu não dou conta direito do que eu faço. Eu canso. A pintura é mais demorada, né? A colagem a gente vai ali, tipo, às vezes você resolve em 10 minutos. Conversa com o meu jeito estriquinado, com a minha personalidade ansiosa. Mas estou trabalhando com tinta a óleo, eu chego lá, dou uma pinceladinha e vou embora. 

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