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Gustavo Magalhães: a maturidade de quem entendeu cedo a importância da arte

Foi entre as latas de tintas do pai, seus discos e um violão incansável, que Gustavo teve o estímulo que precisava para ter uma alma livre

Gustavo Magalhães: a maturidade de quem entendeu cedo a importância da arte
Gustavo Magalhães. Foto: Annie Libert
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Já que inventaram esse dia, o dos pais, vamos falar como o Gustavo filho e menino, se tornou o Gustavo de hoje, aquele que surpreende pela maturidade da pesquisa e técnica na pintura.

Pelas coincidências da vida, hoje é dia dos pais. Para além da problemática capitalista/comercial da data, na hora do café da manhã, enquanto pensava na minha própria história e nas 11 milhões de mães solo que seguram esse rojão que é a criação de um filho, sentei para editar essa entrevista.

Ouvindo o áudio do Gustavo, da nossa conversa numa manhã fria desta cidade mais fria ainda, acreditei no poder da arte na primeira infância: e na importância da figura paterna se fazendo presente na vida de um menino que nasceu artista, mas que também foi estimulado pelo pai a ser o que se é, - sem fugas, sem pressões, sem maiores formalidades. Não sendo injusta, jamais seria: contando também com o discernimento e os pés no chão da mãe. 

Gustavo Magalhães é nascido e criado na pequena Goioerê, cidadezinha do interior do Paraná que tem menos de 30 mil habitantes. É filho de pai artista, que teve que encontrar na pintura de casas, o sustento. “Meu pai é artista de alma, de coração. De alguma forma isso preenche a minha subjetividade”, afirma.

E foi entre as latas de tintas do pai, seus discos e um violão incansável, que Gustavo teve o estímulo que precisava para ter uma alma livre. “Desde muito cedo meu pai sempre colocou a gente para consumir arte de alguma forma. Seja pela coleção de discos de vinil ou por nos levar para um ensaio do meu amigo que é fotógrafo. Então, uma hora ou outra eu ia acabar virando artista".

Foto: Annie Libert

Se definindo como uma cria da internet, Gustavo reconhece a importância de ter sido um menino educado esteticamente pelo computador. “Foi a internet que me mostrou as coisas que me interessaram. E eu comecei a desenhar e pintar de forma séria".

Anos depois, ele chama a atenção no mundo da arte pela sua maturidade técnica e sua pesquisa na pintura. Pasmem, ele só tem 27 anos e suas obras já circularam o Brasil através da Caixa Cultural, com a individual Fusão, que esteve no Rio, São Paulo, Curitiba e Recife. Também encerrou há pouco, A Pele de Pintura, com curadoria de Fabrícia Jordão, no Museu Municipal de Arte (Muma). Seus trabalhos já foram expostos em coletivas no Museu Paranaense e no Museu Oscar Niemeyer. Tem obra no acervo do Museu de Arte do Rio (MAR). Em 2024, foi um dos indicados ao Prêmio Pipa, a principal premiação da arte contemporânea do país.

Sem mais delongas, vamos falar da vida, mas também discutir luz, textura, cor, - técnica de pintura, e por que não, temática.

Eu fico curiosa pra saber como foi a infância de um menino criado em Goioerê, como era sua família e se você foi estimulado à arte.
E eu sou de uma família pequena. Só eu, meu pai, minha mãe e minha irmã. Minha mãe sempre foi funcionária pública de carreira. Então ela tem uma visão mais rígida perante o mundo. Mas meu pai é artista de alma, de coração. Ele sempre fez de tudo um pouco, mas a coisa que o move é a música. Ele é um grande compositor e, sei lá, lança um clipe por semana. É a coisa que ele mais ama fazer: tocar o violão dele. Durante grande parte da nossa vida, ele foi pintor. Pintor de casa. Então eu convivi com thinner e latas de tinta por todo lado. De alguma forma, isso preenche a minha subjetividade. Eu ter crescido num ambiente onde tinha um pintor e tratar pincéis e tintas como coisas muito comuns. E desde muito cedo meu pai colocou a gente para consumir arte de alguma forma. Seja pela coleção de discos de vinil ou por nos levar para um ensaio do meu amigo que é fotógrafo. Então, uma hora ou outra eu ia acabar virando artista. Eu comecei a tocar o violão que seria o sonho da vida dele, mas não brilhou os meus olhos. Eu toquei nas bandas dele. Não toco mais. Faz, sei lá, pelo menos uns dois anos que eu não arranho nada. Mas meu pai fez questão de trazer o meu violão pra Curitiba. Ele falou, “tem que ter um violão na sua casa”. Mas eu nunca tirei da capa, porque a pintura foi o bichinho que me mordeu. 

Foto: Annie Libert

Agora, sobre alguém que é do interior e que veio pra Curitiba com 18 anos. Queria entender se você carrega alguma referência estética que você pensa que seja desta fase de infância e adolescência?
Eu acho que sim. Mas eu acho que está ligado mais a uma forma de ver a vida, porque falando de referência estética, eu sou do final dos anos 90. Quase dos anos 2000. Então eu fui criado também pela internet. Apesar de ser um menino interior. Eu era um menino do mundo inteiro. Numa aba estava um anime em japonês e na outra o site do Museu de Arte Moderna. Só que você olha pela janela e tem um cachorro vira-lata embaixo de um pé de manga gigantesco. Então eu acho que sim. O interior de alguma forma está em mim. Eu sou uma pessoa um pouco reclusa, não gosto muito da vida noturna da cidade grande. Eu gosto de ficar em casa e de passear no bosque. Mas eu não diria que no meu trabalho, no que eu faço hoje em dia, trago alguma coisa que se relaciona diretamente a essa vivência que eu tive no interior. Mas eu colocaria a culpa toda na internet. Foi a internet que me mostrou as coisas que me interessaram. E eu comecei a desenhar e pintar de forma séria. Quando eu comecei a desenhar já era uma coisa mais ocidental.

O que você procurava na internet?  Eu fico curiosa, porque essa educação da internet é uma educação que não passou por mim. Sou 10 anos mais velha.
Cara, uma coisa que era muito ativa da minha geração era o Tumblr e o DeviantArt, que são duas plataformas de compartilhamento de imagem, que pra mim foram referência. O Tumblr era quase como um site, onde você entrava no artista X, Y, Z e podia ver toda a obra da forma que o artista organizou, na qualidade que o artista pensou. Tinha muita coisa em audiovisual também, o mundo YouTube. Os próprios animes. Não só os animes sérios, mas filmes japoneses. Eu acho que tem um certo tipo de cibercultura também, coisas que tem um senso estético próprio, mas que também estão ligadas ao estilo musical, por exemplo. Ou, outro exemplo, amigos do interior de São Paulo que conhecem uma coisa, viam um filme soviético e mandam pra mim. Esse tipo de coisa também que eu acho que é muito próprio desta geração. Tem amigos que gostam mais ou menos das mesmas coisas, mas são tantas coisas que existem no mundo, que você sempre vai estar trombando com algo novo e diferente o tempo todo.

Quando você decidiu fazer arte como formação? Você já se reconhecia artista?
Foi no final do ensino médio. Não me reconhecia,  até porque, isso é muito engraçado, eu fui entender o que era um artista na verdade, muito recentemente. Eu fiz licenciatura em Artes Visuais na FAP, mas eu me formei sem saber como funcionava, por exemplo, uma relação artista-galeria.

Foto: Annie Libert

E até hoje você está tentando entender? (risos)
Exato. Eu acho que pra mim as coisas foram chegando muito devagar, mas também, pra ser sincero, porque eu sou uma pessoa do aqui e agora, sabe? E as coisas vão acontecendo e eu vou seguindo o caminho delas. Eu fiz o Enem com 17 anos e eu vi que tinha pintura aqui em Curitiba e eu falei, “nossa, pintura, legal, vou colocar esse”. E passei e falei, “olha mãe, que legal, passei em pintura pra fazer lá em Curitiba". Aí minha mãe falou tipo assim, “velho, você nunca vai fazer esse curso, tá ligado? Não vou pagar pra você, até que você consiga ficar autônomo na cidade". E acabou o prazo, não tinha mais o que eu vou fazer. Então eu fiquei mais um ano em Goioerê estudando para tentar de novo. Fiquei esse ano trabalhando com meu pai, sendo pintor de casas. Nesse meio tempo, sempre conectado, tinha um amigo, o Lucas, que começou a fazer artes visuais na FAP. E ele falou, “cara, tô fazendo esse curso, acho que você ia gostar”. Era licenciatura e talvez eu conseguisse convencer minha mãe que se tudo desse errado, eu me tornaria um professor. Convenci e vim pra cá em 2017, com 18 anos. Sem saber o que tinha na grade, sem saber o que que era uma licenciatura. Só, tipo assim, vim aqui porque tinha “artes” no nome. Aí foi isso, assim…. 

Aí o mundo se abriu. E como é que foi esse mundo se abrindo?
A primeira vez que eu entrei num museu de arte, foi com 18 anos. Eu vim pra cá e eu não sabia que tinha um museu, que é o Paranaense, por exemplo. Aí um dia, no final da aula, a galera falou, “ó, hoje é quarta, a gente vai lá no MON, vamos?". Eu não tinha nada pra fazer o resto da tarde e fui.

Você lembra qual era a exposição?
Lembro, lembro. Foi uma exposição de acervo, que tinha umas pinturas monocromáticas. E tinha uma que eu acho que é do Rafael Silveira, que é uma planta que tem olhos. Mas o MON é muito impressionante, pel arquitetura: você de fora um jeito, você tá lá dentro, é de outro jeito. E eu pensei, “sério, fizeram um prédio desses pra enfiar quadro dentro? Deve ser importante mesmo”. Pra mim foi muito importante, porque as referências que eu tinha do que eu entendia de arte, era aquelas poucas coisas que a gente tem nos livros de história e uma coisa ou outra que o professor de arte pincela  nas aulas, como sei Van Gogh e Mona Lisa.

Eu fico pensando que, oito anos depois de se mudar pra cá, você já está em exposição em grandes museus.  A sua carreira me impressiona, porque é pouco tempo e você é novo. Eu sei que você vive muito momento, mas você já pensou onde é que você quer chegar? Onde é que você acha que você vai chegar?
São duas perguntas. Onde eu acho e onde eu quero.

Foto: Annie Libert

Qual das duas você quer responder?
Eu quero entrar na história da arte. Sei lá, eu quero ser um pintor, como tantos outros, De que a gente conversou aqui. Onde eu acho que eu vou chegar? Essa é mais difícil, né? Porque essa não tem a ver com a minha projeção. Eu acho que eu vou continuar indo, um pouquinho de cada vez. Porque apesar de parecer meteórico, e realmente é, eu sou muito insatisfeito com a minha carreira. Eu acho que eu poderia estar em lugares muito mais longe, porque eu convivo muito com o meu trabalho e eu acredito muito nas coisas que eu faço. Por isso que o meu desejo final é entrar na história da arte. Nem que seja como um rodapé. Mas eu sinto que eu estou fazendo alguma coisa e eu espero que as outras pessoas entendam. 

Quando você diz entrar pra história da arte, você quer estar nos livros de arte? Você quer ser estudado?
É, produção intelectual, pra mim, é uma coisa muito importante. Não vou mentir pra você e falar sem minha resposta no fundo é que quero ser milionário, sabe? Eu acho que eu quero que a pintura me deixe milionário. Porque eu sei que é um caminho muito possível. A gente tem alguns brasileiros que já ficaram milionários antes dos 30, assim. O Maxwell Alexandre é um deles. O Lucas Arruda. A Adriana Varejão, a Beatriz Milhazes, a Leda Catunda, a Rosana Paulino…

A última vez que a gente conversou, lá no seu ateliê, você me disse que pegou algumas fotos da internet para pintar. Depois de algum tempo, vi que você estava pedindo fotos das pessoas através do Instagram. Por que você mudou essa característica: se foi pra alguma exposição específica, ou se você cansou de pegar fotos da internet?
Tem algumas coisas, alguns pontos. Tem um artista belga que eu gosto muito, que é o Luc Tuymans, que ele é um pintor que nunca criou nenhuma imagem. Todas as pinturas dele são fotografias. Algumas fotografias mais famosas, outras menos famosas e ele também fez parte de um escândalo desses de ser processado por usar uma foto de uma de uma fotógrafa. E eu acho essa discussão toda muito engraçada, porque uma foto é uma foto e uma pintura é uma pintura. São duas coisas completamente diferentes. Elas podem ter similaridades na imagem, mas uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa. Então, eu acho ridículo as pessoas tentarem equalizar. Mas, depois de ler sobre essas coisas e de pensar um pouco, hoje em dia, por exemplo, não pinto nenhuma foto que seja de um fotógrafo, porque eu entendo que o fotógrafo está pensando aquilo como um trabalho de arte e não tem porque eu fazer um segundo trabalho de arte porque ele já está feito ali como uma fotografia.

Foto: Annie Libert

Mas pra mim, eu acho que qualquer pintor, qualquer pessoa no mundo pode fazer qualquer coisa com qualquer fotografia. Por exemplo, se a pessoa está discutindo uma coisa relacionada à arte contemporânea com essa fotografia, eu não vejo porque uma pintura vai, adicionar a essa discussão. Então, eu não pinto mais fotos de fotógrafos. Eu procuro as fotos que de alguma forma sejam mais banais possíveis: uma selfie, uma foto de uma coisa ou um retrato, que é o que eu mais faço. Eu não procuro essas fotos também. Isso, em grande parte. Hoje em dia eu tenho procurado, porque eu tenho segmentado mais o meu trabalho. O que eu tenho feito agora na “Pele da Pintura” é  quase como uma identidade visual. É um tipo de corpo, de olhar ou de rosto específico que eu estou trabalhando. Eu tenho que procurar imagens que se encaixam nesse corpo de trabalho que eu estou construindo. Mas antes, por exemplo, no trabalho da "Fusão", eu não pesquisava. Eu abria o Instagram e se o primeiro story fosse uma imagem que me interessasse, eu pintava ou ia pra uma pasta. E aí eu posso pintar ou eu posso não pintar. Tem fotos que eu tenho há 10 anos salvas e eu não sei se um dia eu vou pintar. Mas eu gosto de ter essas imagens perto de mim.

E o que te interessa nessas fotos?
Assim, eu sou pintor. Então eu gosto de pensar que estou vendo pintura em tudo. Gosto de pensar em coisas formais que eu acho que, de alguma forma, vão ser um desdobramento interessante no campo da pintura. Pode ser uma relação cromática entre uma sombra ou uma luz batendo numa forma específica. Pode ser cor por si só.

Sempre dentro da técnica?
Não só técnica. Podem ser coisas quase que semióticas. Por exemplo, como fica essa imagem, se eu cropar? O que que esse crop diz? O que que eu consigo elaborar a partir disso? Eu penso como, a partir da pintura, uma fotografia pode ser uma outra coisa. Porque eu não olho pra uma foto como olho pra uma pintura, da mesma forma que eu não olho pra uma escultura, da mesma forma que eu olho pra uma performance.           Procuro coisas diferentes e tem muitas imagens que eu quero pintar simplesmente porque eu quero ver aquilo como pintura. E eu acho que a pintura pode dar um respiro pra aquela coisa. Por exemplo, tem várias imagens que eu postei que é são selfies num story. São fotos que vão ser vistas durante segundos e que vão se autodestruir em 24 horas e talvez ninguém nunca mais vai ver essa imagem. Mas no momento que eu cristalizo isso numa pintura, alguém pode passar 10 horas olhando pra ela e procurando coisas diferentes: como a pincelada, a textura do suporte, a densidade da tinta. Então agora, eu já procuro uma imagem que eu sei que já vai ser a pintura, que tem muito mais a ver com o procedimento da “Pele da Pintura”, que é como, de alguma forma, macular a pintura.

Mas tinha uma outra pergunta que você tinha feito: eu não procuro, são essas fotos que vão me encontrando. Eu acho que não só eu, mas acho que a gente é apaixonado por imagem, muitos dos nossos vícios com redes sociais, é porque eles entenderam isso e eles sabem que a gente gosta de olhar. O nosso cérebro se acostuma a ver várias imagens em sequência e isso dá um tipo de conforto e de ansiedade na mesma medida. 

Sobre as imagens que você pediu online, você recebeu muitas e teve que escolher o que pintar?
Tive que escolher e recebi bastante, mais do que eu conseguia pintar na época. Essa chamada, foi porque eu estava precisando trabalhar uma questão específica, que é a miscigenação no território brasileiro. Essa chamada  foi feita no contexto da "Pele da Pintura", que foi essa exposição que aconteceu no começo do ano. É também o tema da minha pesquisa de mestrado. E eu fui avançando nisso com uma pesquisa aleatória, mas eu tinha esquecido que eu tinha mandado um edital que tinha esse nome. Foi quando o produtor, o Rafael, me disse que tínhamos uma data específica e que as pinturas precisavam estar prontas em dois meses. Eu tinha feito uma única obra, um autorretrato, que foi quando eu comecei a pesquisar essas formas de destruir a superfície da pintura. Eu precisava de imagens e estava focado nessa ideia de pesquisar essa gradação cromática, decorrente da miscigenação brasileira e pensar a ideia de raça que não é preto e branco no Brasil. Me interessa muito, como uma pessoa mestiça, pensar esse lugar, porque é também uma forma de liberdade, pra eu não precisar corresponder às expectativas nem negras e nem brancas. Eu posso me inventar, porque eu sei que tem coisas que são capturadas da negritude em mim, e eu sei que tem coisas que são capturadas da branquitude. Como artista e como uma pessoa que está nesse lugar, eu acho interessante pensar nisso. E como pintor, eu acho que é mais interessante pensar nisso: como duas pessoas de cores diferentes dão um terceiro. E isso que eu faço na pintura, eu fico misturando cores o dia inteiro. Pra mim, é interessante pensar essa questão dessa pele da pintura, que eu estaria tirando seria literalmente a pele da pintura. Nesse sentido, é um movimento também de destituir essa ideia de raça desse corpo, porque eu não estou falando da raça, eu estou falando da pintura. Enfim, muitas camadas que estavam passando na minha cabeça naquela época e eu falei, “eu não quero ficar discutindo essa mestiçagem a partir do meu lugar”, porque é um lugar muito amplo, pode ser uma pessoa negra, com uma pessoa amarela. Pode ser uma pessoa indígena, com uma pessoa negra. Pode ser uma pessoa indígena, com uma pessoa branca. A questão racial fica realmente muito mais interessante quando a gente pensa na ideia de um povo todo e não de raças segmentadas. E falei, “ah, então eu quero pintar o Brasil. Eu vou fazer uma chamada de pessoas pra ver quais são esses fenótipos, quais são essas cores de pele, e como eu vou conseguir destituir isso trazendo uma discussão de pintura pra esses corpos e não vai ser uma discussão acerca de raça". A raça está ali, mas ela está em segundo plano. Aí eu fiz uma chamada para pessoas que se identificavam como pardas ou mestiças ou que eram decorrentes de um relacionamento interracial. 

E todas foram expostas?
Não, não todas. Eu fiz nove, eu consegui fazer nove, mas aí, né, em certo ponto desses dois meses eu percebi que não era só isso, eu não queria fazer uma exposição só de cara, e aí eu comecei a fazer os corpos, e aí, enfim, daí já virou outra coisa que se assemelhou mais ao meu processo antigo, que era de ir atrás dessas fotos da internet que são genéricas e trazer uma discussão para a pintura a partir delas. 

E o uso vermelho para além da pele, tem algum significado específico?
A cor vermelha, como eu te disse, eu me interesso muito para pintura por questões técnicas e processuais. O vermelho é uma cor muito sedutora, que chama o olho. É a cor da fome, é a cor do amor, é a cor do comunismo, é a cor das revoluções. É uma cor carregada de sentidos. E, além de todos esses, é a cor do nosso sangue, da nossa carne. Qualquer pessoa que você abrir, por dentro, vai ter o mesmo tom de vermelho. Então, eu estava pensando em todas essas cargas conceituais que o vermelho carrega, que é esse lugar em que não pode ser domesticado, a gente domestica a pele, mas a carne não se domestica, Para mim, também era uma espécie de espaço de liberdade, de pensar que nesse primeiro momento, a carne da pintura vai ser também vermelha. Pensando muito, porque eu sabia que as imagens iam ser todas em tons de ocre e nudes, e sabia que quando eu abrisse isso, o vermelho ia se impor, a saturação da cor é tão forte que parece que eu joguei tinta vermelha sobre a pintura. Para mim, tinham todas essas coisas interessantes, assim, tanto formalísticas, como conceituais. Mas durante a exposição, percebi em conversas com pessoas, que o vermelho carrega a violência. As pessoas chegaram a falar, “nossa, mas elas levaram muitos tiros".  E eu sabia que não é sobre isso, que precisava repensar como eu estou fazendo o meu trabalho. E agora eu estou fazendo carnes coloridas em azul, preto, marrom, mas não é vermelho, pra não confundir.

Falando de técnica, você pinta muito em material de reuso. Como é que você escolhe a superfície?
Eu comecei a trabalhar com isso, assim que eu me mudei aqui pra Curitiba. Era universitário, dividindo apartamento com mais quatro pessoas, não tinha espaço pra colocar tela, não tinha dinheiro pra comprar tela, mas tinha que pintar pra faculdade e, sobretudo, eu tinha que pintar porque eu preciso pintar, é algo que faz parte da minha rotina. Grande parte de todos os meus trabalhos até, sei lá, 2023, eram em papéis. Eu pintava em óleo sobre papel, porque comprava um pacote de 50 folhas, que eram 50 pinturas. Nesse meio tempo, enquanto pintava em papel, também vi que as pessoas jogam muitos móveis fora e esses móveis, geralmente, tem madeiras muito boas, que são em formatos de telas. Eu comecei a pegar muita coisa, porque estava nesse lugar da necessidade, para continuar pintando com o que tinha. Comecei a colecionar madeiras e conforme eu colecionava,s percebi que tinha outros formatos que não são os quadrados, e tem umas que são mais grossas ou arredondadas, e algumas são mais ásperas ou lisas. Eu comecei a me relacionar com essas matérias, a perceber que a imagem que eu projetava enquanto pintura nesses suportes, quando eles se tornavam uma só, falavam alguma coisa juntas. E quando eu pinto uma pele com essa textura, fica parecendo uma pele mesmo. Para mim, isso se tornou uma coisa mágica, quase um jogo onde penso "qual imagem é perfeita para essa madeira?”. E aí nasceu o meu corpo de trabalho, que foi o que eu mais produzi até hoje.

Agora, pra gente finalizar: eu tenho um amigo do Rio, que sempre me fala que gostaria de ser um artista negro que não fala da questão racial, que gostaria de estar pintando abstrato. Você enxerga assim também, se você acha que em 2025 ainda é difícil fazer arte sem que tenha racial e política envolvida.
Eu acho que em 2025 mais do que qualquer outro período histórico. Porque antes, os artistas negros faziam isso porque não existia nenhum outro índice de uma arte que não fosse o que a gente pode chamar de arte branca. Então, fazia sentido você ser um pintor negro que pinta pessoas negras, porque é uma coisa que não existe. Hoje em dia, eu vejo que as pessoas fazem porque há, de fato, uma demanda. É só você abrir o Instagram e ver que os artistas que foram para a Frieze feira de arte londrina) esse ano, das galerias brasileiras, todos eram negros e todos trabalhavam a questão racial.

Mas eu acho que eu dou um passo anterior a isso: eu não queria ser um artista negro, eu queria poder ser só um artista. Porque eu acho que tem coisas que estão no meu trabalho que sim, discutem raça. É uma das coisas, sabe? Por exemplo, um fotógrafo ou um pintor branco tem alguma coisa ali que fala da raça dele, mas a raça dele não é entendida como uma coisa exótica. E aí, por a pessoa ser negra, existe essa captura. Mas eu sou muito teimoso. Eu não quero fazer abstração porque eu não acredito muito na pintura abstrata. Pra mim, não me move como pintor. Eu amo ver, quando faz-se bem. Mas eu acredito na figuração, é a minha formação, é a coisa que me dá prazer, é o que eu sinto vontade de fazer. E dentro dessas coisas que eu gosto de figurar, estão as pessoas negras. E eu não acho que isso tenha a ver por eu ser mais ou menos negro.

Você acha que há um fetiche do mercado da arte em relação a isso?
Eu acho que é um fetiche do mundo. Acho que é um fetiche do capitalismo, talvez, atual. É um fetiche do capital, sobretudo. Antes havia o fetiche pela exploração desse corpo, pela violência, e agora você explora a estética da violência desse corpo. Então é a mesma questão. Só que agora o artista ganha dinheiro pra estar na galeria e não mais nos campos de algodão. Mas a violência é a mesma. E tem público…

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