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No dia da eleição, três igrejas de Curitiba fizeram campanha — outras três se contiveram

Pastores e padres comentaram as eleições do púlpito neste domingo. Em alguns casos, a manifestação dos religiosos ficou no limite ou ultrapassou a legislação que veda campanha

No dia da eleição, três igrejas de Curitiba fizeram campanha — outras três se contiveram
Foto: Yuri Figueiredo / Unsplash

Com a colaboração de Thais Dias Lemes, Ana Hemke, Gabriela Rubbo Preussler, Lee Pedroso, José Eduardo da Silva Gonzaga, Evelin Vitória de Freitas Silva e Giovanni Sella, estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná.

Repórteres da Plural cobriram cultos e missas da manhã de 4 de outubro de 2026, domingo de primeiro turno, em dez templos de Curitiba. Em três paróquias católicas, a eleição apareceu só em pedidos de "discernimento", "paz e justiça" e "reflexão" — e numa delas o celebrante disse textualmente que "nós não fazemos propaganda".

Em três templos evangélicos, no mesmo horário, a cena foi outra. Na sede da Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), na Rua Nilo Cairo, 350, o pregador do culto das 9h disse a fiéis a caminho das urnas que a "ideologia" deles era "o princípio de Deus", listou pautas que serviriam de filtro — "liberação de droga", "aborto", "promiscuidade" — e lembrou que os presentes "já sabem" em quem votar para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual, porque "temos amigos (…) que são da casa".

No Templo Central da Igreja Universal do Reino de Deus, no Rebouças, fiéis apareceram no entorno do culto portando adesivos de dois candidatos do Republicanos — Alexandre Amaro (10123), à reeleição para deputado estadual, e Meri Martins (1010), a deputada federal. Na Igreja Batista do Bacacheri, relatada em reportagem separada, o pastor interrompeu o culto para avisar que o candidato ao Senado Deltan Dallagnol (Novo) estava elegível.

O que se ouviu nas missas católicas

Na Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Luz dos Pinhais — Praça Tiradentes, Centro., a repórter Ana Hemke registrou que não houve "nada de explícito quanto a posicionamento político (…), apenas pedindo a Deus que dê discernimento e consciência na hora de votar" na missa das 8h30. Na Paróquia de Santa Felicidade — bairro de Santa Felicidade o repórter José Eduardo da Silva Gonzaga registrou que "a única menção feita às eleições foi pedindo paz e justiça". Na Igreja da Ordem (São Francisco das Chagas) — Largo da Ordem, São Francisco, a repórter Lee Pedroso registrou a menção feita pelo celebrante, no dia da eleição: "Nesse dia de eleição, pedimos reflexão, nós não fazemos propaganda, é claro, mas pensemos nos pobres e necessitados, assim como São Francisco".

O culto na sede da IMPD, na Rua Nilo Cairo

O vídeo, de 1 minuto e 43 segundos, foi feito pela repórter Gabriela Rubbo Preussler no culto das 9h da sede da Igreja Mundial do Poder de Deus em Curitiba, na Rua Nilo Cairo, 350, Centro. Nele, o pregador se dirige à plateia logo depois de lembrar que "hoje é dia de nós exercermos a nossa função (…) de cidadão e escolhermos quem é que vai governar pelos próximos quatro anos".

A partir daí, a fala vai consolidando, passo a passo, uma orientação de voto:

> "A nossa briga não é partidária, (…) não é de fulano, de beltrano, não é do A, do B. É ideologia, é ideologia. Qual que é a nossa ideologia? É o princípio de Deus. Então vote naqueles que de fato, de verdade, respeitam e obedecem a esse Pai."

> "Se você for votar em alguém que é a favor de liberação de droga, a favor de aborto, (…) de promiscuidade, de coisas que vão destruir a vida, a nossa vida, a nossa casa, a nossa família, aí você vai estar colocando a raposa para cuidar (…) do galinheiro."

> "Então vigia, vigia, tá? E faça valer a palavra de Deus (…). Quem você vai votar para o presidente, para governador, para senador, deputado federal e deputado estadual, vocês já sabem, né? Nós temos amigos, temos pessoas que são da casa, que são usados por Deus e têm a nossa confiança."

O pregador não cita candidato pelo nome. A orientação opera por dois mecanismos: um filtro negativo — descartar quem é "a favor de liberação de droga", "a favor de aborto", "a favor de promiscuidade" — e um atalho positivo — "vocês já sabem (…) temos amigos (…) que são da casa". O candidato que a Plural havia mapeado como ligado à IMPD em 2026, antes da cobertura, é Ricardo Arruda (PL, 2202), que concorre à Câmara Federal pelo Paraná. O nome dele não é dito no vídeo.

O culto no Templo Central da Universal, com adesivos entre os fiéis

As fotos feitas pela repórter Thais Dias Lemes no entorno do Templo Central da Igreja Universal do Reino de Deus, no Rebouças, em Curitiba, mostram dois fiéis — vistos de costas, saindo do culto das 9h30 — com adesivos de candidatos colados nas jaquetas e na mochila. Os adesivos são dois:

Em uma das fotos, os dois adesivos aparecem simultaneamente na mesma pessoa. Na outra, aparecem em duas pessoas lado a lado — uma com Amaro na jaqueta preta e na mochila, outra com Meri Martins e Amaro no casaco.

A distinção jurídica em relação à cena da IMPD importa. Um adesivo preso à roupa de um eleitor, em deslocamento individual, está protegido pela Lei das Eleições, no artigo 39-A. A mesma peça exibida de forma coletiva no entorno de um templo religioso, por mais de uma pessoa, aproxima o episódio das vedações do artigo 24-A — e do debate sobre abuso de poder religioso que a Justiça Eleitoral vem enfrentando.

O que diz a lei sobre o dia da eleição

A Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) trata o domingo de votação como um dia de silêncio. O artigo 39, § 5º, tipifica como crime, puníveis com detenção, "a arregimentação de eleitor ou a propaganda de boca de urna" (inciso II) e "a divulgação de qualquer espécie de propaganda de partidos políticos ou de seus candidatos" (inciso III). Na jurisprudência eleitoral, a boca de urna é crime de mera conduta: consuma-se com o próprio ato, independentemente do resultado nas urnas.

O que a lei preserva, no artigo 39-A, é a manifestação individual e silenciosa da preferência do eleitor — camiseta, boné, adesivo no corpo da pessoa, ao caminhar sozinha para votar. O que a lei não autoriza é usar um espaço coletivo com público reunido — um culto, por exemplo — para dirigir aos presentes orientação sobre o voto, nem usar a estrutura de uma entidade religiosa como extensão de campanha.

Há uma segunda camada específica para templos. O artigo 24-A da Lei 9.504/1997 veda a entidades religiosas doar bens ou prestar serviços a campanhas, e a Justiça Eleitoral vem usando esse e outros dispositivos para discutir o chamado abuso de poder religioso: o uso da autoridade e da estrutura de uma igreja para influenciar o voto dos fiéis. A caracterização depende de contexto e de prova, e cabe ao Ministério Público Eleitoral ou aos adversários levá-la ao Tribunal.

A Batista do Bacacheri, no mesmo domingo

As cenas da IMPD e do Templo Central se somam a uma terceira registrada pela Plural na manhã do mesmo 4 de outubro: na Igreja Batista do Bacacheri, cobertura da repórter Evelin Vitória de Freitas Silva, o pastor Roberto Silvado interrompeu o culto para informar aos fiéis que um frequentador da igreja, o candidato ao Senado Deltan Dallagnol (Novo), estava elegível, e dirigiu o recado a quem "ainda [estava] indo votar". A diferença entre o episódio da Batista do Bacacheri e os dois casos relatados aqui é o grau de individualização do pedido: lá, o candidato foi nomeado no púlpito; na IMPD, a orientação opera por filtro de pauta e pelo atalho dos "amigos (…) da casa", sem citar nome; no Templo Central, o nome vem pelos adesivos exibidos pelos fiéis. (Leia a reportagem completa sobre a Igreja Batista do Bacacheri.)

As igrejas em que a reportagem esteve

A redação distribuiu equipes em dez templos de Curitiba na manhã de domingo. Em cada igreja, a reportagem já chegava sabendo que candidato vinha sendo associado publicamente àquela congregação em 2026. A pergunta de cobertura era uma só: o que seria dito, mostrado ou distribuído no dia da votação.

TemploBairroCandidato ligado à igreja
IMPD — SedeCentroRicardo Arruda (PL, 2202, dep. federal)
Universal — Templo CentralRebouçasAlexandre Amaro (Republicanos, 10123, dep. estadual)
Universal — BoqueirãoBoqueirão—
Batista do BacacheriBacacheriDeltan Dallagnol (Novo, 300, senador)
Alcance CuritibaNovo MundoAlexandre Curi (Republicanos, 100, senador)
Assembleia de DeusCuritibaNoêmia Rocha (MDB, 15007, dep. estadual)
Igreja Cristã MaranataÁgua Verde—
Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da LuzCentro—
Paróquia de Santa FelicidadeSanta Felicidade—
Igreja da Ordem (São Francisco das Chagas)São Francisco—

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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