Com o apoio de Evelin Vitória de Freitas Silva
Neste domingo de eleição, o pastor Roberto Silvado, da Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba, interrompeu o culto para avisar aos fiéis que um frequentador da igreja, o candidato ao Senado Deltan Dallagnol (Novo), estava elegível — e emendou o recado a quem "ainda [estava] indo votar". A cena foi presenciada e gravada por uma repórter da Plural. A lei eleitoral proíbe propaganda e arregimentação de eleitores no dia da eleição, inclusive dentro de templos.
No vídeo, de cerca de 24 segundos, o pastor diz: "Antes de irmos, eu tenho uma notícia. [O irmão] Deltan é membro da nossa igreja, está no meio de uma grande confusão nessa eleição. A informação que eu dou é que ele é elegível. Só dou essa informação, caso você ainda esteja indo votar. Deus abençoe."
Antes, em outro momento do culto, o mesmo pastor discursou sobre a data com a bandeira do Brasil ao fundo. Confira a transcrição no fim da matéria.
O problema que o vídeo levanta não é o conteúdo — é onde, quando e para quem a mensagem foi dada. A Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) trata o dia da votação como um período de silêncio: o artigo 39, § 5º, tipifica como crime, puníveis com detenção, "a arregimentação de eleitor ou a propaganda de boca de urna" (inciso II) e "a divulgação de qualquer espécie de propaganda de partidos políticos ou de seus candidatos" (inciso III). A boca de urna, na jurisprudência eleitoral, é crime de mera conduta: consuma-se com o próprio ato de fazer campanha no dia da eleição, independentemente do resultado.
A lei preserva o direito do eleitor à manifestação individual e silenciosa de sua preferência (art. 39-A). O que ela não autoriza é o uso de um espaço coletivo — um culto, com plateia de fiéis a caminho das urnas — para dirigir aos presentes uma orientação sobre um candidato. Dizer a quem "ainda [está] indo votar" que determinado nome "é elegível", citando-o como membro da própria igreja, é o tipo de conduta que o Ministério Público Eleitoral costuma examinar à luz desses dispositivos.
Há ainda uma segunda camada, que a Justiça Eleitoral vem chamando de abuso de poder religioso: o uso da autoridade e da estrutura de uma igreja para influenciar o voto dos fiéis. A caracterização depende de contexto e de prova, e é o Ministério Público Eleitoral ou os adversários quem podem levá-la ao Tribunal — mas o episódio de Curitiba se encaixa no debate que o TSE tem enfrentado sobre os limites entre fé e campanha.
Quem é Deltan, e por que a candidatura virou novela
Deltan Dallagnol (Novo) disputa uma das duas vagas do Paraná no Senado. Ex-procurador da República e coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, ele foi eleito deputado federal em 2022, mas teve o registro daquela eleição indeferido pelo TSE em 2023 — que reconheceu, por unanimidade, fraude à lei no pedido de exoneração do Ministério Público feito em novembro de 2021, às vésperas de processos disciplinares no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Com isso, perdeu o mandato de deputado.
Em 2026, o TRE-PR deferiu seu registro ao Senado, reinterpretando o mesmo fato — o que o TSE, ao reformar a decisão, classificou como overruling impróprio. Desde 19 de setembro, Deltan estava com a campanha suspensa por decisão cautelar do TSE (referendada pelo plenário), sem fundo eleitoral nem propaganda. A disputa jurídica desembocou no vaivém do fim de semana da eleição: barrado no sábado, reconduzido à urna no domingo, à espera da palavra final do plenário.
Confira o discurso do pastor
Transcrição — 30:57 a ~35:32
[30:57] Glória a Deus. Podem assentar-se, irmãos. Digno é o Senhor, Cordeiro de Deus. Que privilégio. Estamos aqui reunidos para adorar ao Senhor.
[31:12] Esse é o momento de culto em que nós dedicamos nossas vidas, dízimos e ofertas ao Senhor. E não é verdade que nós dedicamos nossos dízimos e ofertas? Que nós entendemos que tudo que somos e tudo que temos vem do Senhor. Amém? É por isso que nós temos esse tempo de dedicação.
[31:31] E hoje, nesse momento especial em que nós estamos num dia de votação na nossa nação, nada melhor do que nós pensarmos sobre a primeira parte desse dedicar vidas, dízimos e ofertas. Nós precisamos dedicar as nossas vidas para que a nossa nação seja impactada. Você acredita nisso?
[31:55] Se nós não nos dedicarmos ao Senhor, como que nós vamos poder dizer "Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor". Vamos repetir juntos? "Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor." Mais uma vez, "feliz é a nação cujo Deus é o Senhor".
[32:18] Nós estamos exercendo esse privilégio de votar e escolher pessoas que estarão nos liderando. Mas elas não vão salvar a nossa nação. Elas não vão resolver nossos problemas. Nós precisamos que o Senhor venha agir nas nossas vidas e o Senhor venha agir na vida dos brasileiros para que nós possamos ter uma nação melhor. Amém?
[32:43] Então, quando nós dedicamos nossas vidas, dízimos e ofertas ao Senhor, nós estamos dizendo: "Deus, eu creio que o Senhor é aquele que vai intervir na história da minha vida e vai intervir na história da minha nação".
[33:00] Você pode abaixar a sua cabeça? Olha ao Senhor e diga: "Deus, eu me dedico para fazer diferença na minha família, no ambiente onde eu convivo, na minha cidade, no meu estado". Consagre ao Senhor esse voto que você vai entregar hoje. E diga: "Deus, eu vou fazer o meu melhor pensando na minha nação".
[33:33] Ore por aqueles que serão eleitos. Peça misericórdia de Deus sobre a vida deles.
[33:40] Senhor, nós nos colocamos no Teu altar nessa manhã. Como ofertas vivas. Como uma expressão da nossa gratidão e da nossa entrega ao Senhor. Nós oramos pelo nosso Brasil. Nós oramos por aqueles que dirigem o nosso Brasil e aqueles que serão eleitos. Ó Deus, nós clamamos pela vida de cada um deles. Pedimos que as Tuas misericórdias sejam manifestadas, ó Deus amado.
[34:25] Nos dê sabedoria e discernimento no exercício do voto. Para que possamos escolher pessoas que promovam a justiça e promovam o bem da nossa nação. Abençoa, Senhor. Abençoa o Teu povo nesse dia tão especial.
[34:49] E ó Deus, quando consagramos ao Senhor as nossas vidas, nós reconhecemos que precisamos do Senhor. Consagramos nossas vidas, os nossos dízimos e as nossas ofertas. E fazemos isso porque cremos no Senhor. E confiamos no Senhor. Em nome de Jesus. Amém.
[35:17] Você pode ir lá atrás, nas máquinas. Pode vir aqui à frente, trazendo o envelope. Ou pode usar o QR Code. Nós podemos participar com alegria desse momento, fazendo isso como expressão de gratidão. [segue a coleta de dízimos/ofertas]
Perguntas rápidas
É crime fazer campanha no dia da eleição? Sim. O art. 39, § 5º, da Lei 9.504/1997 tipifica como crime, no dia da votação, a arregimentação de eleitores, a boca de urna e a divulgação de qualquer propaganda de partidos ou candidatos.
Pode pedir voto ou orientar eleitores dentro de uma igreja? A lei garante ao eleitor a manifestação individual e silenciosa de sua preferência (art. 39-A), mas não autoriza usar um espaço coletivo, como um culto, para orientar os presentes sobre um candidato no dia da eleição.
Deltan Dallagnol está elegível? Na manhã de 4 de outubro de 2026, sim: o presidente do TSE, Nunes Marques, suspendeu a decisão que havia indeferido seu registro, mantendo-o na urna com os votos computados em caráter provisório (sub judice), até o plenário do TSE julgar o caso.
O que é abuso de poder religioso? É o uso da autoridade e da estrutura de uma igreja para influenciar o voto dos fiéis — conduta que a Justiça Eleitoral pode analisar à luz do art. 22 da Lei Complementar 64/90.