A última vez que Daniel falou com Juliana foi por telefone. Ele estava no interior, esperando técnicos da Embrapa que iam dar treinamento para o plantio de orgânicos que o casal fazia. Ela estava em Curitiba, com o pai, esperando para ser internada. A internação em uma clínica psiquiátrica, àquela altura, era uma esperança para combater a velha inimiga que acompanhava Juliana desde a adolescência, a depressão.
Juntos havia cinco anos, eles sabiam que a briga contra a depressão nunca estava cem por cento ganha. Eram altos e baixo, e naquele momento a doença estava ganhando terreno de forma avassaladora. Os dois combinaram como seria a internação (o pai ia acompanhar tudo), se despediram e desligaram. Horas depois, quando já tinha atendido os técnicos e voltou a ver o celular, Daniel viu dezenas de ligações de várias pessoas, mensagens de voz, textos, tudo. Pensou que alguma coisa tinha dado muito errado. E tinha razão.
Aos 42 anos, Juliana Wisniewski finalmente tinha chegado ao limite. Foi encontrada pelo próprio pai morta no banheiro. Era agosto de 2023. Mas não - este texto não é um obituário. Pelo menos não no sentido de contar uma história de vida de alguém que partiu. Este texto, como Juliana iria querer, é um alerta.
Setembro amarelo
Conheci Juliana por mensagem de texto em 2021. Dois anos antes do fim, portanto. Durante a pandemia. Até recentemente, não sabia de sua morte - e para falar a verdade, embora eu sempre tenha simpatizado com ela, apaguei completamente da memória a única vez em que nos vimos pessoalmente, no ano seguinte.
Ex-aluna de Comunicação, ela me escreveu dizendo que estudou com meu amigo André Tezza, na Positivo. Na época, o Plural estava com dois anos e ela disse que queria fazer algo para o setembro amarelo. Ou melhor: já estava fazendo, por conta própria. Será que a gente se interessaria em entrar na campanha dela?

Claro que a gente sempre estaria a fim de entrar em qualquer campanha contra doenças psiquiátricas, imagina. Nunca tinha me ocorrido fazer algo específico sobre isso, mas o clima era mais do que propício, especialmente com uma pandemia correndo solta, matando centenas de milhares de pessoas e deixando milhões de outras presas em suas casas. Acho que ninguém estava livre de depressão, ansiedade ou outros problemas naquele tempo.
E foi aí que ela me contou a história dela: a depressão que vinha de décadas, e que já tinha causado tantos problemas (mais tarde eu viria saber de duas tentativas de suicídio prévias). E ela começou a me mostrar o que estava fazendo no Instagram: uma série de posts, com uns cardzinhos lindos, sempre em amarelo, em que ela contava sua história pessoal e, de uma maneira elegante, bem escrita, ajudava seus possíveis leitores e leitoras a achar caminhos para uma vida mais saudável.
Um remanso
Naquele momento, Juliana vivia um remanso. Uma planície entre os vales que a depressão é capaz de causar. Nem tudo eram flores: tinha de ajudar o pai, com problemas de saúde, por exemplo. Mas a vida em casal era boa e os dois acharam um caminho para se esconder da civilização e do vírus - um pedaço de terra perto de Palmas, em Coronel Domingos Soares, a caminho do Sudoeste paranaenses, que Daniel herdara.
Juliana já tinha estado lá e foi da fazenda que tirou a inspiração para sua vida pós-marketing. Depois de sair de um ambiente tóxico num banco, onde sofreu todo tipo de assédio, ela adorou a ideia de produzir orgânicos. E especialmente se viu inspirada pela saboaria. Começou a produzir sabões artesanais, e isso aparentemente lhe trazia uma paz que jamais havia encontrado na publicidade. Infelizmente, com a pandemia, era difícil vender. E, quando havia a venda, era difícil entregar. O negócio não foi para a frente.
Os posts
A ideia de falar da depressão nas redes sociais também foi fruto desse momento de estabilidade. No perfil de Instagram, falou por exemplo de como a ioga e a meditação foram úteis para ela.
“Essas pequenas coisas (cuidar dos cachorros, cantar, cozinhar) já me fizeram ter dias muito melhores. Em diversas ocasiões em que não estava me sentindo bem e passar o dia na cama parecia ser a melhor opção, essa lista me tirou do rumo da prostração.”

Falou também de sua dificuldade com os rituais católicos e de como foi importante para ela achar a paz em outra religião.
“As palestras dos centros espíritas e os passes sempre me tocaram de uma maneira muito especial. Tudo quieto, calmo, tranquilo. Sem senta-levanta-ajoelha-canta. Sem gente gritando.”
Em outro post, disse como achava chato que outras pessoas não entendessem que deprimidos também possam rir.
“Também temos momentos de alegria e felicidade. Não nos tirem esse direito com suspeitas, alfinetadas ou censuras. Talvez aquele sorriso e aquela gargalhada, que você julgue como completamente inapropriadas, sejam os únicos momentos de alívio em muito tempo.”
Até de suicídio ela falou. Comparando a depressão a um exercício infindável, ela disse:
“Falar em ‘querer morrer’ não é, para mim, uma verdade. O que se quer é cessar a dor. Ter uma folga no meio dessa maratona.”
Sem notícias
A vida é uma maratona, e às vezes você corre tanto que nem olha para o lado. E depois daqueles textos, tive mais algumas interações com Juliana. Mas ela e eu acabamos falando pouco. Bolamos uma parceria pra ela fazer algo de redes sociais no jornal, mas não rolou (não lembro por que). Ela entrou numa empresa de meio ambiente, e chegamos a bolar uma coluna para a empresa, ou algo assim. Mas ela acabou saindo do meu campo de visão.
Soube da morte dela por e-mail. Um e-mail do Daniel, durante o setembro amarelo deste ano; ele me escreveu perguntando gentilmente onde estariam aqueles textos que ela publicou no Plural. O nome da coluna, fui lembrar, era “Depressão em primeira pessoa”. Mandei o link e perguntei o que tinha acontecido com ela, e foi aí que fiquei sabendo que a Juliana tinha morrido dois anos antes.

Fiquei dias com aquilo na cabeça e mantive a correspondência com o Daniel e um dia falei o que eu realmente tinha pensado desde o momento em que ele me contou do suicídio. Será que ela ia gostar que a gente contasse a história dela, como alerta para outras pessoas.
O e-mail seguinte do Daniel começava com ele dizendo que chegou a sentir lágrimas nos olhos. Porque, sim, ele conhecia Juliana bem demais, e sabia que era isso que ela ia querer. O perfil do Instagram, ele não sabe dizer como nem por que, foi apagado. Mas ela sempre falava em escrever mais, em fazer livros, em se comunicar. E o grande sonho era ajudar os outros a passar pela dor que ela conhecia tão de perto. Que conheceu dentro dela mesma, por tanto tempo.
A ajuda
“Ela era uma pessoa divertida, que adorava a vida, que ria”, diz Daniel. É como diziam os textos: ela nunca quis morrer. E tentou de tudo, remédios, terapias, ioga, meditação, a vida no campo, o amor do marido, a ajuda ao pai. Tudo. Tudo que pudesse dar sentido à dor, que pudesse livrá-la daquele inferno da depressão. Infelizmente, no final, não houve como.
“Mas ela certamente ia querer que outras pessoas lessem sobre essa história e sobre outras, que quem tem depressão pudesse falar sobre a depressão, o suicídio e tudo que está envolvido nisso sem tabus”, me disse Daniel, agora já por telefone, enquanto combinávamos o que dizer sobre ela.

E o principal, me disse Daniel, que fala dela com todo carinho, tanto por telefone quanto nas redes sociais, onde posta fotos dela e do casal, era a mensagem da vida. E da tentativa de se ver livre do peso da depressão. Esse era, tinha que ser, o legado dela. Um grande setembro amarelo o ano inteiro, todos os anos, um comentário para que todo mundo soubesse que a história dela foi uma afirmação da vida, e nunca o contrário.
Juliana, afinal, não está mais por aqui. Mas vive nessa mensagem. Cuidem-se. Riam. Cuidem dos cachorros e cantem. Quem gostar disso, cozinhe com prazer. E lembrem que é importante tentar ser feliz.