Cerca de 500 mil mulheres, de acordo com a organização, lotaram a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, durante a terça-feira (25) na 2a Marcha das Mulheres Negras. Dentre elas, ativistas de Londrina, Apucarana e outras cidades do Estado. Na bagagem elas levaram pautas por reparação e bem viver – como propunha o chamado nacional - bradaram pela vida da juventude periférica e contra o racismo religioso.
Quem participou da 1a edição da marcha, em 2015, nota como o cenário político impactou na recepção do evento no passado e agora. “Em 2015 sofremos agressões, descasos, falta de empatia. Esse ano viemos com a marcha organizada regionalmente, tivemos um incidente (um incêndio no Ministério de Igualdade Racial), precisamos desviar o percurso, mas não paramos. Muitas mulheres potentes, fortalecidas, com falas. Nós existimos, resistimos. O Brasil é preto”, destaca a Iyalorixá Cláudia Ikandayo, que mantém um terreiro na área central de Londrina.
Ela participou da marcha como coordenadora estadual da Rede MAB (Mulheres de Axé do Brasil) e pela Rede Candaces (Rede Nacional de Mulheres Negras Lésbicas e Bissexuais). A Iyalorixá destaca a presença de ministras e deputadas federais como um sinal da representatividade dessa 2a edição da marcha. “Nós precisamos das nossas pautas sendo estabelecidas por nós, mas respeitadas pelos ministérios, pela esfera federal”, pontua.

Pautas perenes
Carla Gimenez, representante do Centro de Direitos Humanos (CDH) de Londrina, encabeçou a organização da caravana local com apoio da Rede de Mulheres Negras do Paraná. “Há 10 anos as mulheres vieram para serem ouvidas e durante a preparação dessa marcha observamos que as pautas passadas continuam presentes. Dessa vez esperamos ter uma maior visibilidade das demandas”, avalia.
Carla explica que o Paraná criou uma carta com demandas da educação - denunciando o desmonte da rede pública e as mortes de professores - as mortes de jovens pelas forças de segurança e a intolerância religiosa. “Com relação à reparação histórica é buscar aquilo que nos foi tirado por séculos. É a luta por direitos básicos, por atendimento de qualidade na saúde, na educação”.

A assistente social Évinen Amorim da Silva participou pela primeira vez da marcha, como representante do coletivo Mulheres Negras de Apucarana, que inclui mulheres pretas, pardas e indígenas. Apesar de o coletivo somar quase 100 integrantes em duas cidades, somente duas delas puderam estar na capital federal.
“O acesso a direitos, a lazer, à vida em sociedade é sempre diferenciado para as mulheres negras. Se estamos em duas aqui, já é algo magnífico. Isso fala sobre as violências que a gente vivencia. E mesmo as duas que estão aqui não foi fácil. Estar, existir, permanecer é sempre difícil para nós”, constata.
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Direito à vida
A jornalista Isabely Ramos foi contemplada pelo edital “Fortalecimento da Liderança e Participação Social das Jovens Negras” para estar na marcha como representante do coletivo Ciranda da Paz, atuante no bairro Nossa Senhora da Paz, a Favela da Bratac, na zona Oeste de Londrina. Sua principal pauta: o direito da juventude à vida.
“O Ciranda trabalha visando garantir o acesso à arte, cultura e ecomunicação para a Favela da Bratac, com foco principalmente nas crianças e adolescentes do território. Sempre reivindicamos a vida, o bem viver. Porém, intensificamos essa pauta com a perda de dois jovens da nossa comunidade, executados pela PM do Paraná, que tem aumentado a letalidade no território paranaense”, relata.
Isabely se refere às mortes de Kelvin dos Santos, de 16 anos, e Wender da Costa, de 20, em fevereiro deste ano. Moradores do bairro realizaram vários protestos, com fechamento de rodovias e queima de pneus, para denunciar o que classificam como execução dos jovens.
“Os úteros de mulheres negras não geram crianças para morrer; geram crianças para viver, sonhar e realizar suas trajetórias livres de opressões.”
Para que a luta siga nas novas gerações, a ativista Natália Lisboa, da Frente Antirracista de Londrina, participou da marcha com o filho de 6 anos. “É maravilhoso que pude trazer meu filho nesse momento histórico para os negros e negras do Brasil e do mundo. Para a construção antirracista dele é maravilhoso”, constata.
Estiveram presentes na marcha com discursos de validação do movimento as ministras Anielle Franco, da Igualdade Racial, Márcia Lopes, das Mulheres, e Margareth Menezes, da Cultura, além das deputadas federais Talíria Perrone (Psol-RJ) e Benedita da Silva (PT-SP).