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Curitibanos voltam a ter cinema fora do shopping

Escrito por Rogerio Galindo
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Um amigo me contou que um dia foi ao antigo Cine Luz, na Praça Santos Andrade. Passava Terra em Transe, o clássico de Glauber Rocha. Pouca gente no cinema, como costumava acontecer. Mas havia um senhor mais velho perto dele. Quando a sessão terminou, os dois subindo a escada, ele percebeu que se tratava de… Paulo Autran. O próprio, que acabava de rever suas mais famosas cenas no cinema nacional.

Claro que nem sempre quando você ia ao Luz, ao Ritz, ao Groff acabava esbarrando no astro do filme. Mas o clima que as salas de rua da prefeitura proporcionaram por décadas foi esse: a impressão de que, indo lá, você encontrava não alguém que estava apenas em busca de um filminho para o fim de semana. Eram apaixonados por cinema. Poucos, mas fiéis. Um clubinho que era feliz e sabia.

Beto Richa, em sua passagem pela prefeitura, foi responsável por acabar com essa alegria. Fechou o Luz e o Ritz (lembro que o último que vi no Ritz foi Os Palhaços, de Fellini. Já sabia que ia fechar. Foi triste.) Antes, o Groff já tinha ido embora.

A recuperação de duas salas de rua com programação de “arte”, no Cine passeio, era promessa desde a gestão de Luciano Ducci. Um prefeito depois do outro foi levando o projeto um pouco adiante, mas a coisa, como sempre, não é prioridade. Agora, dez anos depois do fechamento do Ritz, Greca inaugura os cinemas com pompa e circunstância. Será, até aqui, seu maior legado para a parte cultural da cidade.

Antigo Cine Luz, fechado em 2005.

Até a nova inauguração, a cidade conta apenas com a Cinemateca e com o Guarani funcionando fora de shoppings. O Guarani faz a bela função de dar acesso a cinema em um bairro, o Portão. E a Cinemateca tem um papel diferente, quase de museu do cinema. Faziam falta as salas que foram fechadas

Os cinemas de rua têm uma função formadora. Foi lá que eu e minha geração conhecemos Woody Allen, Bergman, Kurosawa. Hoje, há os cinemas de shopping, caríssimos, e que em geral só exibem filmes comerciais. As salas que passam de vez em quando algo mais ousado ainda podem ser mais caras, como aquela com poltronas que parecem destinadas a um conde no Espaço Itaú.

A meninada que quer conhecer os clássicos, a nouvelle vague, assistir filmes premiados na Europa, algo mais experimental, recorre hoje, acredito, ao computador. Mas em tela grande, nada feito. E claro que cinemas permitem a convivência, não só entre a plateia, como conversas com diretores, roteiristas etc.

O endereço, escolhido já na gestão Ducci, é acertado. Ajuda a recuperar a Riachuelo, que já foi um antro e hoje, convenhamos, ainda não é lugar pra se andar sem olhar três vezes por cima do ombro a cada dez passos. Movimentar o Centro velho ajuda a reduzir o crime e a dar vida a uma cidade cada vez mais fechada em casa.

Greca levou em frente o projeto que recebeu. Não teve o mérito da concepção, mas tirou do papel. Deixe que se divirta fazendo propaganda de si mesmo. Dessa vez, pelo menos, fez por merecer.

Sobre o autor

Rogerio Galindo

Rogerio W. Galindo é jornalista e tradutor. Responsável pelo blog Caixa Zero, é um dos profissionais que criaram o Plural.jor.br

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