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Tradener teria pago dividendos a sócios em três anos antes de pedir recuperação judicial

Balanços e registros contábeis anexados ao processo mostram dividendos de R$ 70 milhões em 2024, R$ 48,5 milhões em 2025 e R$ 18 milhões em janeiro de 2026; empresa também emprestou R$ 12 milhões a companhia de ônibus da família

Tradener teria pago dividendos a sócios em três anos antes de pedir recuperação judicial
Foto: Will / Unsplash

A Tradener, comercializadora de energia controlada por holdings ligadas à família Gulin, pagou R$ 246,7 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio aos sócios entre 2023 e 2025, segundo as demonstrações financeiras auditadas que a própria empresa anexou ao pedido de recuperação judicial. Registros contábeis mostram que os pagamentos continuaram em 2026 — R$ 18,2 milhões só em janeiro — e seguiram até março, dias antes de a empresa recorrer à Justiça contra os credores, cuja lista soma R$ 1,85 bilhão.

A Tradener está em recuperação judicial desde maio na 2ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba. No pedido, atribui a crise a mudanças no mercado de energia que teriam gerado perdas a partir de 2024. As demonstrações financeiras auditadas pela PwC e anexadas ao processo mostram, porém, que a empresa fechou os três últimos anos com lucro e repassou parte relevante dele aos sócios.

Quanto foi pago

PeríodoDividendos e juros sobre capital próprio pagos
2023R$ 127,8 milhões
2024R$ 70,4 milhões
2025R$ 48,5 milhões
Janeiro de 2026cerca de R$ 18,2 milhões

Os valores de 2023 a 2025 aparecem como saída de caixa nas demonstrações financeiras auditadas e nas notas explicativas. O de janeiro de 2026, sem auditoria, aparece no fluxo de caixa entregue à Justiça e nos registros contábeis das duas sócias da Tradener, as holdings D.G.W. Participações e Fraternita Participações, que lançaram créditos com a descrição "recebido distribuição de lucros Tradener" em 7, 13 e 23 de janeiro. Os mesmos registros mostram novos recebimentos, em valores menores, em fevereiro e em 25 de março — seis dias antes de a empresa pedir proteção à Justiça.

As duas holdings têm 50% cada da Tradener. Os contratos sociais anexados ao processo mostram que a KITH Participações Societárias, presidida por Carlos Frederico Gulin, detém 63% da D.G.W. e 67% da Fraternita; o restante pertence à Atena Holding, do empresário Walfrido Avila. Pela divisão, cerca de 65% dos lucros distribuídos às holdings correspondem, indiretamente, à participação da KITH.

Lucro no papel, caixa negativo

O lucro de R$ 206 milhões registrado em 2025 depende de um ganho contábil ainda não realizado: a valorização da carteira de contratos de energia, que acrescentou R$ 277 milhões ao resultado antes dos impostos, segundo a nota explicativa. Sem esse ganho, o lucro antes dos impostos cairia de R$ 310 milhões para cerca de R$ 33 milhões. No mesmo ano, as atividades operacionais da Tradener Ltda. consumiram R$ 39,7 milhões de caixa. Foi nesse contexto que a empresa pagou R$ 48,5 milhões aos sócios.

Em 2026, a situação piorou. Os balancetes de janeiro e fevereiro, sem auditoria, registram prejuízo de R$ 32,9 milhões — R$ 30 milhões só em fevereiro. No fim de março, a empresa recorreu à Justiça para se proteger dos credores, com um pedido de medida cautelar; em maio, pediu recuperação judicial.

Empréstimo à empresa de ônibus da família

A Tradener também emprestou dinheiro a outra empresa da família. Segundo a nota explicativa do balanço de 2023, "a Empresa firmou contrato de mútuo com a empresa Auto Viação Marechal Ltda. no montante de R$ 12.000" mil. O balanço de 2024 informa que o valor foi "totalmente recebido em 2024 com os devidos juros contratuais". Os documentos não informam a taxa, o prazo nem a finalidade do empréstimo.

Donato Gulin está dos dois lados da operação. Ele é um dos administradores da D.G.W., dona de metade da Tradener. E, segundo a Receita Federal, é o único sócio da Diodorus Participações, que participa de duas holdings sócias da Marechal — uma delas, a Only Compra e Venda de Ativos e Participações, já integrava o quadro da empresa de ônibus em 2023. As demais sócias da Marechal são holdings administradas por outros membros da família, como Delfio, Darci, Dante, Marco Antonio e Luiz Norberto Gulin.

Na nota do balanço de 2023 dedicada a transações com partes relacionadas, a Tradener lista apenas operações com a TRD Comercializadora, empresa do próprio grupo, e a remuneração de seus administradores. O empréstimo à Marechal aparece em outra nota, entre "outros valores a receber". Não há registro no processo de que a operação tenha causado prejuízo à Tradener.

O que dizem os credores

A suspeita foi levantada no início do processo pelo Grupo CEI, que rescindiu contratos com a Tradener em abril e maio. O grupo apontou "indícios de possível utilização fraudulenta da recuperação judicial" pela distribuição de R$ 48,5 milhões em 2025. A mesma acusação foi repetida por outras comercializadoras em recursos ao Tribunal de Justiça do Paraná.

A Comerc, que com a Bom Nome Solar soma o maior crédito da lista, R$ 201,6 milhões, foi mais dura em petição de setembro: "Ao invés de utilizar esses recursos nas atividades das Recuperandas e no pagamento de dívidas, optou-se por sumir com o dinheiro". A Fiação Águas Negras chamou os pagamentos de "drenagem patrimonial" e pediu que o caso seja comunicado ao Ministério Público. A Eneva pediu a nomeação de um observador independente para fiscalizar o caixa e as operações entre as empresas do grupo.

O que dizem a Justiça e a administradora

Ao aceitar o pedido de recuperação, em maio, a juíza Luciane Pereira Ramos classificou a alegação de fraude como "grave" e mandou a administradora judicial apurá-la, "com contraditório e eventual intervenção do Ministério Público". A decisão proibiu novas distribuições de lucros até a aprovação do plano, mas não alcança os pagamentos já feitos.

Em relatório de julho, a administradora judicial, o escritório Guedes e Manocchio, concluiu que a distribuição de 2025 "é compatível com o resultado positivo" do ano, equivalente a cerca de 23% do lucro, e que não há, "prima facie", indício de fraude, "uma vez que os lucros foram distribuídos no fim do exercício social encerrado em 31/12/2025". O relatório não informa datas de pagamento nem beneficiários, e a conclusão não considera os pagamentos registrados em 2026. Credores contestaram a análise; em setembro, a administradora repetiu a conclusão.

O Ministério Público do Paraná recebeu o processo em junho e em agosto e o devolveu, nas duas vezes, sem se manifestar sobre o tema.

No processo, a Tradener sustenta que os resultados de 2025 são anteriores ao agravamento da crise. Em recurso no Tribunal de Justiça do Paraná, afirmou que "são insubsistentes as alegações de fraudes decorrentes da distribuição de dividendos".

Procurada pela Plural, a assessoria de imprensa da Tradener informou que a empresa não comenta questões ligadas ao processo de recuperação judicial, que é público.

Fontes: processo 0008972-30.2026.8.16.0194 (TJPR) — demonstrações financeiras de 2023 a 2025 auditadas pela PwC, balancetes e fluxo de caixa de 2026, razões contábeis e contratos sociais anexados à petição inicial; Receita Federal (base CNPJ); petições de credores; relatório da administradora judicial; decisões publicadas no Diário de Justiça Eletrônico Nacional. Última atualização: 28 de setembro de 2026.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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