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Reserva para emergências de Curitiba foi quase inteira para o transporte coletivo

A Prefeitura já usou R$ 55,5 milhões dos R$ 62,7 milhões da reserva de contingência no subsídio do ônibus. Agora pede à Câmara outros R$ 6,25 milhões para uma UBS. A instrução técnica da Casa cobrou prova de que os riscos fiscais seguem cobertos

Ônibus vermelho do transporte coletivo de Curitiba, com o logotipo da URBS e a inscrição 'cidade de curitiba', com passageiros atrás das janelas no fim de tarde.
Passageiros em ônibus do transporte coletivo no Centro de Curitiba, em 27 de agosto de 2026. Em julho, a Prefeitura bancava 33,8% do custo de cada passagem. Foto: Tami Taketani/Plural

A reserva de contingência da Prefeitura de Curitiba para 2026, de R$ 62,7 milhões, pode terminar o ano com R$ 975 mil. A Prefeitura já tirou R$ 55,5 milhões dela para o subsídio do ônibus e pediu à Câmara Municipal para usar outros R$ 6,25 milhões na construção de uma unidade de saúde.

A conta é do Plural, com base na resposta da Secretaria Municipal de Planejamento, Finanças e Orçamento (SMF) a um pedido de informação do vereador Matteus Henrique (PT) e no projeto de lei 013.00006.2026, enviado pelo prefeito Eduardo Pimentel (PSD). Se o projeto for aprovado como foi enviado, 98,4% da reserva do ano terão sido gastos.

O ofício com a resposta da SMF chegou à Câmara em 29 de setembro. Nele, a secretaria confirma os números e defende o uso da reserva para cobrir a diferença entre o custo do ônibus e a passagem paga pelo usuário.

Para que serve a reserva de contingência?

A reserva de contingência é uma parte do orçamento que a Lei de Responsabilidade Fiscal manda o município separar para passivos contingentes e riscos fiscais imprevistos. Em Curitiba, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 exige que ela tenha, no mínimo, 0,5% da Receita Corrente Líquida.

A Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 fixou a reserva em R$ 62.728.000,00. A mesma lei autoriza o Executivo a usar esse dinheiro como fonte para créditos suplementares, sem passar pela Câmara.

Foi o que a Prefeitura fez duas vezes, por decreto, entre agosto e setembro. Para a construção da UBS, o Executivo mandou um projeto de lei.

Como a reserva foi usada em 2026?

DataAtoValor tirado da reservaDestino
07/08/2026Decreto 1.263/2026R$ 31.500.000,00Aporte para o Equilíbrio Tarifário (FUC)
03/09/2026Decreto 1.451/2026R$ 24.000.000,00Aporte para o Equilíbrio Tarifário (FUC)
Em análiseProjeto de lei 013.00006.2026R$ 6.252.828,35Construção da UBS Parque Iguaçu
Saldo se o projeto for aprovadoR$ 975.171,65

O "Aporte para o Equilíbrio Tarifário" é a ação do Fundo de Urbanização de Curitiba (FUC) que paga às empresas de ônibus a diferença entre a tarifa técnica, o custo do serviço por passageiro, e a tarifa social, os R$ 6 cobrados na catraca.

Os dois saques fizeram parte de reforços maiores ao subsídio. Em agosto, o Decreto 1.263 abriu R$ 40 milhões, com R$ 8,5 milhões tirados dos Encargos Gerais do Município. Em setembro, outros R$ 16 milhões vieram da verba de precatórios. Como o Plural mostrou em outubro, a Prefeitura já reforçou o subsídio do ônibus quatro vezes em 2026, num total de R$ 121,7 milhões. Os R$ 150 milhões previstos na LOA para o aporte acabaram em junho.

Segundo a SMF, as duas reduções da reserva foram "ambas destinadas à diferença da tarifa técnica e tarifa Social". Até 29 de setembro, nenhum outro crédito tinha usado a reserva.

O que a Prefeitura diz sobre o uso da reserva?

A SMF afirma que a operação está prevista em lei. Cita o artigo 19 da LDO, que permite usar a reserva para abrir créditos adicionais. O parágrafo 2º do mesmo artigo autoriza usar os valores separados para riscos fiscais caso esses riscos não ocorram.

A secretaria diz ainda que "o risco está mapeado desde a elaboração da LDO de 2026" e consta do Demonstrativo de Riscos e Providências "no valor de R$ 360 milhões". Uma das providências previstas é a anulação de outras dotações do orçamento.

Na resposta, a reserva é descrita como instrumento para a "cobertura de riscos fiscais e de eventos imprevistos". E está, nas palavras da SMF, "sendo utilizada para o atendimento dessa demanda", a do subsídio tarifário.

O que a Câmara apontou sobre o crédito da UBS?

O projeto 013.00006.2026 abre R$ 6.252.828,35 no Fundo Municipal da Saúde para construir a UBS Parque Iguaçu, na Regional Bairro Novo. O artigo 2º tira todo o valor da reserva. Na mensagem, Pimentel justifica a obra com o crescimento do Ganchinho, que tinha 19.045 moradores no Censo de 2022, e com o programa Fala Curitiba, em que a unidade foi a demanda mais votada da região, com 391 votos.

A instrução técnica da Câmara sobre o projeto, de 11 de setembro, admite o uso da reserva "em tese". Mas diz que ele "depende da comprovação do saldo disponível, da preservação dos riscos fiscais e da justificativa das consequências do cancelamento". O documento também registra que a Prefeitura não apresentou o estudo de impacto que a Lei de Responsabilidade Fiscal exige para a expansão de serviços. Quando a instrução foi assinada, os dois decretos da tarifa já tinham reduzido a reserva a R$ 7,2 milhões.

A Comissão de Economia, Finanças e Fiscalização aprovou o parecer pela tramitação em 7 de outubro, com os votos dos oito membros. O relator, Zezinho Sabará (PSD), não viu óbices "de natureza econômica, financeira ou orçamentária". O parecer não menciona riscos fiscais nem o saldo da reserva.

O prazo de emendas terminou em 19 de outubro. O Diário da Câmara de 20 de outubro, que publica instruções, pareceres e emendas, não registra emenda ao projeto. Ele voltou às comissões no mesmo dia.

Quanto custa o subsídio do ônibus?

Os R$ 55,5 milhões tirados da reserva equivalem a 38% de todo o subsídio que a Prefeitura pagou ao transporte coletivo em 2025. Segundo a URBS, em resposta a um pedido da vereadora Vanda de Assis (PT), o Município aportou R$ 145.929.437,40 no sistema no ano passado. O governo do estado pôs outros R$ 40.261.908,20. O cálculo da proporção é do Plural.

Em outra resposta à mesma vereadora, de agosto, a URBS detalhou a conta de julho de 2026. A tarifa técnica era de R$ 9,0642 por passageiro pagante equivalente. O passageiro paga R$ 6. A Prefeitura cobre os R$ 3,0642 restantes, 33,81% do custo.

Para julho, a URBS projetou custo total de R$ 108,4 milhões e necessidade de cobertura pública de R$ 36.653.730,20. Ou seja, o dinheiro tirado da reserva paga cerca de um mês e meio de subsídio no ritmo de julho. O cálculo é do Plural.

O que acontece agora?

O projeto da UBS está nas comissões da Câmara. Se for aprovado e sancionado como foi enviado, a reserva fica com R$ 975.171,65 para o resto do ano, 1,6% do valor original.

A proposta de orçamento para 2027 (013.00008.2026) chegou à Câmara em 30 de setembro. A audiência pública sobre o projeto está marcada para 4 de novembro.

Perguntas rápidas

O que é a reserva de contingência de Curitiba?

É a parte do orçamento que a Lei de Responsabilidade Fiscal manda separar para passivos contingentes e riscos fiscais imprevistos. Em 2026, a Lei Orçamentária fixou R$ 62.728.000,00.

Quanto da reserva de 2026 já foi usado?

R$ 55,5 milhões, 88% do total, segundo a Secretaria de Finanças em 29 de setembro. Todo o valor foi para o subsídio do ônibus, pelos Decretos 1.263 e 1.451 de 2026. Restavam R$ 7.228.000,00.

Para que a Prefeitura quer usar o que sobrou?

Para construir a UBS Parque Iguaçu, na Regional Bairro Novo. O projeto de lei 013.00006.2026 tira R$ 6.252.828,35 da reserva e está em análise na Câmara.

Quanto sobra se a Câmara aprovar o crédito da UBS?

R$ 975.171,65, ou 1,6% do valor previsto no orçamento, segundo cálculo do Plural.

Quanto a Prefeitura paga por passageiro de ônibus?

Em julho de 2026, R$ 3,0642 por passageiro pagante equivalente. A tarifa técnica era de R$ 9,0642 e o passageiro paga R$ 6.

Fonte: resposta da Secretaria Municipal de Planejamento, Finanças e Orçamento ao pedido de informação 062.01645.2026; Decretos 1.263 e 1.451/2026; projeto de lei 013.00006.2026, com instrução técnica e parecer da Comissão de Economia; respostas da URBS aos pedidos 062.00754.2026 e 062.01263.2026, todos no sistema de proposições da Câmara Municipal de Curitiba. Última atualização: 26 de outubro de 2026.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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