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Rede pública atende quase 80% da educação especial em Curitiba, diz Censo

Escolas municipais e estaduais tem maior índice de inclusão que rede privada e diferença continua aumentando

Rede pública atende quase 80% da educação especial em Curitiba, diz Censo
Foto: ‪Salah Darwish / Unsplash

Curitiba tinha, em 2025, 25.776 estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades matriculados nas escolas da cidade. Desses, 19.792 estavam em classes comuns — turmas regulares, lado a lado com colegas sem deficiência. É o modelo que a legislação brasileira chama de inclusão.

A rede municipal de Curitiba é quem mais sustenta esse modelo: 7.573 dos alunos incluídos em classes comuns da cidade são da rede pública municipal, o que equivale a 38% do total. A rede estadual vem logo atrás, com 7.192 alunos incluídos (36%). As escolas privadas respondem por 4.875 (25%) e as federais, por 152 (menos de 1%).

Esse protagonismo tem peso adicional quando se considera o tamanho das redes: as escolas particulares de Curitiba têm 26 mil matrículas a mais do que as municipais, mas atendem menos alunos com deficiência em classes comuns. A rede municipal, com 439 escolas e 116.709 alunos, faz a inclusão de 7.573 — enquanto a rede privada, com 522 escolas e 142.723 alunos, inclui 4.875.

Mais inclusa, mais densa

A proporção de alunos com deficiência sobre o total de matrículas revela outro dado de destaque: a rede municipal tem 8,6% dos seus alunos classificados como educação especial — o maior índice entre as redes de Curitiba. Na rede estadual, são 7,1%; na privada, 5,6%; na federal, 6,2%.

Dentro da própria educação especial, também há diferenças relevantes entre as redes no que diz respeito ao modelo de atendimento:

Rede Escolas Ed. Especial Classe Comum Classe Especial % CC % ESP/total
Municipal 439 10.046 7.573 2.473 75% 8,6%
Estadual 153 7.553 7.192 361 95% 7,1%
Privada 522 8.025 4.875 3.150 61% 5,6%
Federal 3 152 152 100% 6,2%
Total Curitiba 1.117 25.776 19.792 5.984 77% 7,0%

Fonte: Censo Escolar INEP 2025. Ativas em Curitiba

A rede estadual tem o maior percentual de inclusão em classes comuns: 95% dos seus alunos com deficiência estão em turmas regulares. Isso reflete, em parte, o perfil das escolas estaduais paranaenses — colégios de Ensino Fundamental (6°–9°) e Médio que historicamente não mantêm salas exclusivas de educação especial. A rede municipal, com maior presença na Educação Infantil e nos Anos Iniciais, mantém mais classes especiais: 2.473 alunos em atendimento exclusivo, a maioria em escolas de educação especial da prefeitura.

Apesar de ter 26 mil matrículas a menos que a rede privada, a rede municipal de Curitiba inclui em classes comuns 55% mais alunos com deficiência do que as escolas particulares da cidade.

Uma trajetória de dezoito anos

O crescimento da educação especial na rede municipal não é recente. Em 2007, a rede registrava 2.653 alunos com deficiência. Em 2025, chegou a 10.046 — quase quatro vezes o patamar de dezoito anos atrás, um crescimento de 279%.

A trajetória, no entanto, não foi linear. A rede cresceu em ritmo moderado até 2017, quando um salto expressivo — de 4.652 para 5.917 em um único ano — marcou uma virada. A pandemia de 2020-2021 interrompeu esse avanço: as matrículas caíram durante o ensino remoto, reflexo das dificuldades específicas que estudantes com deficiência enfrentam fora da sala de aula presencial. Em 2021, a rede registrou 5.033 alunos — o menor número desde 2018.

A retomada pós-pandemia foi intensa. De 2021 a 2025, a rede quase dobrou suas matrículas de educação especial: de 5.033 para 10.046, crescimento de 99,6%. Só nos últimos dois anos, a rede municipal adicionou 5.013 alunos com deficiência — mais do que o total registrado em qualquer ano antes de 2018.

Alunos com deficiência em classes comuns por rede — Curitiba (2025)
Classe Comum = matrícula em turma regular junto com colegas sem deficiência
Fonte: Censo Escolar INEP 2025 · CO_MUNICIPIO = 4106902 · escolas ativas
Alunos com deficiência em classes comuns por rede — Curitiba (2019–2025)
Evolução da inclusão escolar por dependência administrativa
Fonte: Censo Escolar INEP 2019–2025 · rede municipal recuperou liderança em 2025 após estadual liderar 2022–2024
Matrículas de educação especial na rede municipal de Curitiba (2007–2025)
Total de alunos com deficiência, TGD ou altas habilidades — todas as modalidades
Fonte: Censo Escolar INEP 2007–2025 · Rede municipal (TP_DEPENDENCIA = 3) · escolas ativas
Inclusão (CC) × classes especiais (CE) na rede municipal — Curitiba (2019–2025)
Crescimento das classes comuns frente à estabilidade das classes especiais
Fonte: Censo Escolar INEP 2019–2025 · Rede municipal de Curitiba
Inclusão (CC) × classes especiais (CE) nas escolas privadas — Curitiba (2019–2025)
Todo o crescimento do setor privado veio de classes comuns; as especializadas ficaram estáveis
Fonte: Censo Escolar INEP 2019–2025 · Rede privada de Curitiba (TP_DEPENDENCIA = 4)

Quem é incluído — e como

Dos 10.046 alunos com deficiência da rede municipal em 2025, 7.573 (75%) estão matriculados em classes comuns — turmas regulares com colegas sem deficiência. Os outros 2.473 (25%) frequentam classes especiais ou exclusivas, em geral nas escolas de educação especial mantidas pela prefeitura.

A concentração é nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental: 7.266 dos 10.046 alunos da educação especial municipal estudam do 1° ao 5° ano. A Educação Infantil acolhe 2.392 — todos em classes comuns, sem separação. Os Anos Finais (6°–9°), etapa em que a rede municipal tem apenas 11 escolas, concentram apenas 297 alunos com deficiência.

Etapa Total Ed. Especial Classe Comum Classe Especial % CC
Educação Infantil 2.392 2.392 100%
Fund. Anos Iniciais (1°–5°) 7.266 4.794 2.472 66%
Fund. Anos Finais (6°–9°) 297 296 1 99,7%
EJA 91 91 100%
Total 10.046 7.573 2.473 75%

A virada da inclusão: mais turmas integradas

Um dos dados mais significativos da série é o comportamento das duas modalidades de atendimento ao longo do tempo. As classes especiais na rede municipal cresceram pouco: de 1.747 alunos em 2019 para 2.473 em 2025 — aumento de 41,6% em seis anos.

Já as classes comuns mais que dobraram: de 3.857 em 2019 para 7.573 em 2025 — crescimento de 96,3%. Isso significa que a expansão da educação especial municipal dos últimos anos é, em essência, uma expansão da inclusão escolar. A rede está incorporando novos alunos com deficiência preferencialmente nas turmas regulares, não abrindo novas turmas segregadas.

O setor privado também avança — mas parte de um patamar menor

As 522 escolas privadas de Curitiba registraram 8.025 alunos com deficiência em 2025 — crescimento de 76% desde 2019 (4.554 alunos). No setor privado, porém, a virada para a inclusão foi ainda mais acentuada: em 2019, apenas 35% dos alunos com deficiência estavam em classes comuns; em 2025, chegaram a 61%.

O movimento é claro: as classes especiais privadas praticamente não cresceram (2.946 em 2019 para 3.150 em 2025, +7%), enquanto as classes comuns quase triplicaram (1.608 para 4.875, +203%). O mercado privado parece estar se adaptando — seja por demanda das famílias, seja pela legislação de inclusão que obriga as escolas privadas a matricular alunos com deficiência sem cobranças adicionais por isso.

O salto de 2025 e as novas unidades

O aumento de 1.934 alunos na rede municipal em um único ano (2024→2025) foi o maior da série histórica em termos absolutos. Apenas uma pequena parcela se deve às três novas unidades criadas pela prefeitura no bairro Cristo Rei: a EM Matriz II (modalidade de educação especial, 71 alunos), o Centro Municipal de Atendimento Especializado para Síndrome de Down e o Centro Municipal de Atendimento para Altas Habilidades/Superdotação (ambos sem matrículas registradas no Censo 2025). Os três respondem por apenas 71 dos 1.934 novos alunos — 3,7% do total.

Os outros 1.863 novos estudantes com deficiência foram incorporados pelas 434 escolas que já existiam em 2024. O número de unidades municipais que incluem ao menos um aluno da educação especial subiu de 416 para 418, e as que mantêm classes especiais passaram de 92 para 99.

95% das 439 escolas municipais de Curitiba têm ao menos um aluno com deficiência matriculado em 2025.

O que os dados não revelam

O volume crescente de matrículas responde à pergunta "quantos?" — mas não a "como?". O Censo Escolar registra o vínculo, não a qualidade do atendimento: se há professor de apoio em sala, se o currículo é adaptado, se há comunicação alternativa, se a escola é fisicamente acessível.

A concentração de 72% dos alunos com deficiência da rede municipal nos Anos Iniciais — e apenas 3% nos Anos Finais — levanta uma questão de continuidade: o que acontece com esses estudantes após o 5° ano? Uma parcela migra para a rede estadual; outra pode estar fora da escola. Mapear essa transição é o próximo passo para avaliar se a inclusão que começa na infância chega à adolescência.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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