Quando se pensa em corte de árvore em Curitiba, o imaginário aponta para as ruas arborizadas do Batel ou do Água Verde. Os dados da própria Prefeitura mostram o oposto: é na borda da cidade, onde ela ainda está sendo construída, que as árvores caem em maior número.
Um levantamento do Plural com as 13.839 solicitações de corte e poda julgadas pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) entre 2019 e julho de 2026 revela um padrão geográfico nítido — e uma diferença de escala entre o centro e a periferia.
Nos bairros consolidados, os pedidos são muitos, mas pequenos. No Água Verde, foram 262 solicitações desde 2023, que somam apenas 94 árvores — cerca de 0,4 árvore por pedido. No Centro, no Batel, no Alto da Glória e no Juvevê, a conta é a mesma: quase sempre um morador pedindo para remover uma única árvore do lote.
Na fronteira, a lógica se inverte. Atuba, no extremo norte, teve só 32 pedidos deferidos no período — mas eles liberaram 482 árvores, uma média de 15 por autorização. Campo de Santana, no extremo sul, lidera em números absolutos: 1.568 árvores liberadas para corte, cerca de 13 por pedido. São terrenos inteiros sendo limpos de uma vez.
Árvores liberadas por pedido de corte
Média de árvores autorizadas em cada solicitação deferida, 2023–2026. Na borda, um pedido derruba um lote; no centro, um galho.
Fonte: SIMA/Prefeitura de Curitiba. Análise: Plural.
Cinco bairros, um terço de tudo
A concentração salta aos olhos. Apenas cinco bairros — Campo de Santana, Cabral, Cidade Industrial, Lamenha Pequena e Santa Cândida — respondem por 31,8% de todas as árvores autorizadas para corte na cidade. A maior autorização isolada de toda a série liberou 435 árvores de uma só vez, em junho de 2025, em Lamenha Pequena. Logo atrás vêm Atuba (397 árvores num único pedido, em outubro de 2025) e Campo de Santana (345 e 322 árvores, em março de 2025).
Todos são bairros de expansão recente, e todas as licenças são do tipo “remoção de vegetação em imóvel particular” — a autorização exigida antes de construir. A própria Lei Municipal 15.376/2019, que obriga a publicação desses dados, cria uma regra específica para os cortes “motivados por construção civil”. Nos números, é a assinatura do avanço da cidade sobre o que restava de mata.
Onde as árvores caem
Cada bairro pela métrica escolhida. Passe o mouse (ou toque) para os números.
Fonte: SIMA/Prefeitura de Curitiba; limites e logradouros do GeoCuritiba/IPPUC. Análise: Plural.
O mapa das regionais
A leitura por regional confirma o desenho. A Regional Tatuquara, no sul, fez apenas 296 pedidos em sete anos — menos de um décimo dos 2.802 da Regional Matriz, o centro histórico. E, ainda assim, liberou mais árvores (1.603) que a Matriz inteira (1.923). São poucos pedidos, cada um de grande porte, contra um enxame de solicitações miúdas na área central.
A borda derruba floresta; o centro apara o jardim.
O que está sendo cortado
Nem toda decisão diz qual árvore está em jogo: das cerca de 4,4 mil que trazem um parecer detalhado, só 1,5 mil nomeiam a espécie — nas demais, consta apenas o número de exemplares ou a classificação genérica (“folhosa”, “exótica”, “desvitalizada”). Ainda assim, o retrato é revelador.
A árvore mais citada nas autorizações de corte é, de longe, a araucária — o Pinheiro-do-Paraná, símbolo do estado — que aparece em 561 pedidos deferidos. Na sequência vêm palmeiras e a aroeira (nativas) lado a lado com um pelotão de exóticas: pinus, cinamomo (invasora) e eucalipto. Entre as classificações genéricas, “folhosa” (214) e “exótica” (182) lideram, e 132 decisões justificam o corte por a árvore estar desvitalizada — morta ou em risco de queda.
As árvores mais autorizadas para corte
Solicitações deferidas que citam cada espécie, 2019–2026. Cor por origem — nativas em verde, exóticas em laranja.
Fonte: SIMA/Prefeitura de Curitiba. Análise: Plural. Só cerca de um terço das decisões nomeia a espécie.
As árvores que não podem cair
No extremo oposto do corte estão as 33 árvores imunes, protegidas pelo Decreto Municipal 1181/2009 por seu porte, raridade ou valor histórico — entre elas araucárias e um pau-brasil centenários. E elas contam outra história geográfica: 21 das 33 estão nos bairros centrais e históricos, com nove só no Centro. Enquanto a floresta que ainda cai fica na borda, as árvores oficialmente intocáveis são peças de museu no coração da cidade — os pontos em laranja no mapa acima mostram onde cada uma está.
Árvores imunes ao corte, por bairro
Exemplares protegidos pelo Decreto 1181/2009.
| Nº | Bairro |
|---|---|
| 9 | Centro |
| 3 | Merces |
| 3 | Sao Francisco |
| 2 | Cabral |
| 2 | Centro Civico |
| 2 | Portao |
| 2 | Santa Felicidade |
| 1 | Alto Da Rua Xv |
| 1 | Boa Vista |
| 1 | Butiatuvinha |
| 1 | Jardim Social |
| 1 | Juveve |
| 1 | Jardim Botanico |
| 1 | Pilarzinho |
| 1 | Umbara |
Fonte: Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Curitiba.
As 10 maiores autorizações de corte da série
Número de árvores liberadas em uma única solicitação.
| Árvores | Bairro | Data | Protocolo |
|---|---|---|---|
| 435 | Lamenha Pequena | 04/06/2025 | ARP25001202 |
| 397 | Atuba | 24/10/2025 | ARP25002296 |
| 345 | Campo De Santana | 21/03/2025 | ARP25000536 |
| 322 | Campo De Santana | 20/03/2025 | ARP25000539 |
| 265 | Cachoeira | 09/03/2026 | ARP26000640 |
| 252 | Santa Candida | 05/12/2024 | ARP24002430 |
| 250 | Campo De Santana | 30/05/2025 | ARP25001151 |
| 247 | Cidade Industrial De Curitiba | 15/10/2024 | ARP24001903 |
| 242 | Campo De Santana | 12/03/2025 | ARP25000455 |
| 182 | Campo De Santana | 20/03/2025 | ARP25000538 |
Fonte: SIMA/Prefeitura de Curitiba. Protocolos consultáveis em sima.curitiba.pr.gov.br/CorteArvore/Pesquisar.
Como apuramos — Os dados vêm do sistema SIMA da Prefeitura de Curitiba, de publicação obrigatória desde 2020 (Lei Municipal 15.376/2019), coletados em julho de 2026. O bairro de cada endereço foi determinado pelo cadastro oficial de logradouros do GeoCuritiba/IPPUC, com 98% de cobertura. Os registros se referem a autorizações concedidas, não necessariamente ao corte realizado. O número de árvores por decisão só passou a ser preenchido de forma padronizada a partir de 2023 — por isso as comparações de contagem usam esse recorte; o volume de pedidos cobre toda a série desde 2019.