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Humaitá, editora negra que ecoa ancestralidade em Curitiba

O Zelador Kandiero criou editora para publicar histórias afroparanaenses e afrocuritibanos

homem negro de perfil usando dreads
De zelador cultural a empreendedor e livreiro, Kandiero fundador da editora Humaitá. Foto: Tami Taketani/Plural
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Esta reportagem é parte de uma série de perfis de empreendedores negros que o Plural publica ao longo de novembro, em homenagem ao Mês da Consciência Negra.

Colocar em papel aquilo que está oculto ou salvo apenas na oralidade é o propósito da editora Humaitá, de Curitiba. Criada pelo zelador cultural Kandiero, ativista dos direitos da população preta, que viu no empreendedorismo uma possibilidade de ampliar as vozes negras do Paraná.

“Eu, lá em 2015, toda vez que eu batia numa porta, lembrando que não tinha política forte para a cultura. Toda vez que eu batia na porta de um parlamentar para pedir ajuda, o que ele me oferecia? Papel. Era papel. Eu te dou um cartaz, eu te dou um flyer. Falei: puxa vida, mas se eles só estão dando isso, eu vou ter que utilizar da criatividade, eles estão dando papel, eu posso fazer livro”.

A editora, que completou dez anos neste 2025, já publicou mais de 50 títulos, todos eles escritos por autores negros e contando histórias com protagonistas negros. O norte da editora é trabalhar com o conhecimento acessível. Para Kandiero, trata-se de romper os muros das universidades e “traduzir” a questão racial e a própria história do afroparanaense, afrocuritibano para a população.

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“Consciência Negra, para mim, sem sombra de dúvidas, é conhecer. Mas onde é que está o nosso conhecimento? A academia está produzindo um monte de conhecimento que fica lá dentro da biblioteca dela. Entende?”

Nesse contexto, a década de existência da Humaitá, pode ser lida como uma forma de resistência editorial. Um estudo da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), revelou que houve queda na venda de livros.  O recuo entre 2006 a 2024 chega a 44%. Se forem incluídas as transações com o governo por meio dos planos de compra de livros, a queda no período é de 30%.

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Há ainda uma outra barreira. Se no passado escravocrata pessoas negras eram impedidas de serem alfabetizadas, agora existe a questão econômica. Dados do Governo Federal revelam que a exclusão do mercado de trabalho leva esses trabalhadores a exercerem atividades precarizadas e até em condições análogas à escravidão.

Levantamento de dados do seguro-desemprego para pessoas resgatadas em condições análogas à escravidão, de 2002 a 2024, mostram que 66% dos trabalhadores que recebam o benefício são negros.

Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do 2º trimestre de 2024, do Ministério do Trabalho e Emprego, apontam que as mulheres negras são as mais prejudicadas no mercado de trabalho. Elas têm o dobro do desemprego dos homens não negros.  Segundo a RAIS, no 2º trimestre de 2024, havia 7,5 milhões de desocupados e a taxa de desemprego média é de 6,9%. Para os homens não negros, é de 4,6% e 10,1% para as mulheres negras.

Se há dificuldades da população negra relacionadas com questões financeiras, as próprias condições de disparidade de renda com a população branca fazem com que o empreendedorismo seja uma saída.

“Às vezes a gente parte de uma ideia do empreendedorismo de que é uma questão nova. Parece que agora todo mundo é empreendedor, todo mundo está Mas eu tenho uma impressão de que o empreendedorismo nasceu justamente com a população preta, que não era contratada, que precisava dar seu jeito de sobreviver (...) O negro ter que se reinventar a todo dia para poder sobreviver. Aí você vem com a questão dos escravos de ganho”, diz o zelador.

Em 1827 Jean-Baptiste Debret usou aquarela sobre papel. A obra se chama “Negra tatuada vendendo caju”. Mesmo em situação de escravização, a população negra agia com criatividade para obter renda para si e/ou para escravocratas. “Quer mais empreendedorismo que isso?”.

Criatividade

“A necessidade é a mãe da criatividade. Em todas as editoras que eu bati na porta para poder lançar as coisas que eu estava começando a escrever não abriram espaço para a gente”, reclama Kandiero.

Com a sequência de “nãos” e com a possibilidade de ajuda para materiais impressos, ele mesmo escreveu livros. Embora reticente em dizer que é escritor, o fundador da editora segue pela linha das “escrevivências”, cunhadas por Conceição Evaristo, na qual a própria experiência de vida se mistura com a ação da escrita.

O mesmo preceito permeia as obras publicadas pela Humaitá: poesias, dissertações de mestrado, histórias infantis e ficção compõem o acervo de obras. “Alguns desavisados pode olhar e achar que é ficção, mas é realidade. Então é muito complicado. Eu escrevi, eu sempre escrevi para curar minhas dores. Eu uso a escrita, a capoeira, o samba, o maracatu, para mim são instrumentos de cura, não é lazer”, rebate.

A editora consegue captar recursos via editais, com a própria venda dos livros  - sobretudo em feiras e eventos voltados para o público leitor. No outro extremo, a seleção e o preparo das obras que são ou serão publicadas dependem do próprio olhar do zelador, que agora também é livreiro.

Ecoar

Ecoar vozes negras em um estado e uma cidade que tem um imaginário branco e ainda fazer disso um negócio rentável é um desafio para qualquer empreendedor. Misturar militância com atuação profissional pode parecer contraditório, porém, no contexto da editora Humaitá, faz todo sentido.

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“Contando histórias que a história não conta”. O slogan da Humaitá é tão ousado quanto manter uma editora que só publica autoras e autores negros. Para o fundador da empresa, dinheiro é importante, porém, mais importante que isso é fazer com que mais gente possa falar – e escrever.

Entre os destaques da editora está Ubuntu Mulheres, o primeiro livro de Rosane Arminda, escritora curitibana finalista do Prêmio Carolina Maria de Jesus, em 2023.

Os títulos disponíveis estão à venda online, no site da editora, com entrega para todo Brasil.

Aline Reis

Aline Reis

Jornalista e especialista em Gestão da Comunicação, Assessoria e Marketing pela Universidade Positivo (UP). Mestra em Estudos de Linguagens pela UTFPR. Presidenta do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná.

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