Um levantamento realizado pelo projeto Opaná: Chão Indígena, no litoral do Paraná, revela que profissionais da educação não sabem lidar com o racismo no ambiente escolar. Entre os docentes, 46% disseram não se sentir preparados para trabalhar o tema e 58,8% afirmaram não saber como agir ou encaminhar situações de discriminação. Os dados mostram também que 70,8% dos participantes desconhecem a Lei nº 11.645/08, que determina o ensino da história e cultura indígena e afro-brasileira nas escolas.
A pesquisa abrangeu os municípios de Paranaguá, Pontal do Paraná, Antonina, Guaraqueçaba, Morretes e Piraquara. Criado com base nos Indicadores de Qualidade na Educação: Relações Raciais na Escola (2013) — elaborados pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) — o questionário foi direcionado a gestores, professores, pedagogos e outros profissionais escolares, reconhecendo o papel de cada um na promoção de uma educação antirracista.
De acordo com a assessora de projetos do Opaná, Hanin Dawud, responsável pelo diagnóstico no litoral, a intenção é mapear lacunas e oferecer subsídios para políticas públicas. “Esse levantamento torna visíveis as desigualdades raciais existentes nas escolas e fornece elementos para a formulação de políticas de enfrentamento ao racismo”, afirma Dawud.
Preconceito e abandono escolar
O despreparo se reflete no cotidiano escolar. Jessica Kerexu, do povo Mbya Guarani, lembra de ter sido a única aluna indígena na escola onde estudou, em Antonina: “Ali descobri o que era o preconceito. Eu era constantemente alvo de piadas e deboches por conta da minha aparência e língua materna. Os professores sabiam o que acontecia, mas não tinham preparo para lidar com aquilo e nunca demonstraram interesse em conhecer minha história e a do meu povo. Todas as vezes em que precisei de ajuda, senti que não havia ninguém ali para me ouvir.”
A alta evasão de estudantes indígenas das escolas também está ligada ao racismo. Kerexu relata que o irmão abandonou os estudos após sofrer discriminação de um professor. “Nada foi feito, nenhuma medida foi tomada. Isso nos mostrou que, se nós, povos indígenas, não lutamos por respeito, ele simplesmente não acontece”, diz Kerexu.
Mas fora da escola, na vida adulta, não é diferente. Desde que começou a trabalhar, a indígena é abordada com perguntas ofensivas, como “você tem dinheiro para pagar isso?” ou “você recebe dinheiro do governo?”. “As pessoas dizem que enfrentar o preconceito nos torna mais fortes, mas, infelizmente, até que a gente descubra isso, ele machuca. Ele nos fere e nos aprisiona na dor causada por pessoas que não nos conhecem e que nos rejeitam apenas por sermos indígenas”, afirma Kerexu.
Racismo linguístico
Dentre as formas mais frequentes de discriminação contra pessoas indígenas está o racismo linguístico. Para muitos povos Guarani Mbya, o português é a segunda língua, sendo comum a presença de sotaques e formas diferentes de uso das palavras. A antropóloga Bianca Blanco explica que há diferença no tratamento de indígenas e de estrangeiros quanto ao domínio do idioma:
“Todo mundo, quando fala a segunda língua, tem sotaque, tem a maneira própria de dizer as coisas, a forma de articular o pensamento. Percebo que quando é alguém de fora, de países como a Inglaterra ou a Alemanha, as pessoas não se importam tanto. Mas quando são os indígenas que têm o português como segunda língua, existe um desprezo, que vem de um racismo imperialista.”
É comum, ainda, ouvir pessoas se referirem aos indígenas do litoral como “paraguaios”, numa tentativa de negar sua presença histórica no território. “É uma maneira de dizer que eles não são dali, como se eles não tivessem direito de estar ali. Ouvi isso muitas e muitas vezes”, diz a antropóloga.
Outras narrativas
A maneira de abordar a história do país no ensino também pesa na perpetuação do preconceito. Na época da colonização, a República do Guaíra, no Paraná, por exemplo, era mais urbanizada e povoada que alguns países da Europa, como explica Blanco. Os indígenas eram povos poderosos, que tiveram grande influência na construção do Brasil. Colocá-los nos livros de história como frágeis vítimas esconde a importância das dinâmicas indígenas na formação do que é hoje o povo brasileiro.
A Lei nº 11.645/08 surge como uma ferramenta para a revisão da história e o estabelecimento de outras narrativas. Após 17 anos de sua publicação, no entanto, a maioria dos educadores desconhece a legislação que determina o ensino da luta dos povos indígenas e afro-descendentes, suas culturas, tradições, organização social e influência nas áreas política, econômica e cultural.
Para Dawud, a falta de formação adequada em todas as etapas de ensino e mesmo durante as licenciaturas contribui para a invisibilização dos povos indígenas ou para representações distorcidas e folclorizadas, o que reforça a discriminação e perpetua uma cultura institucional de racismo.
Entre as recomendações apontadas a partir do diagnóstico estão a criação de Planos de Formação Continuada, protocolos pedagógicos para gestores e professores, e a aplicação periódica de diagnósticos para avaliar avanços. “Sem indicadores e avaliação, políticas não se consolidam”, reforça a assessora de projetos.
Quebrando preconceitos, construindo respeito
Com o objetivo de contribuir para a desconstrução de estigmas e incentivar a valorização da pluralidade étnico-racial, o projeto Opaná relançou a cartilha “Quebrando preconceitos, construindo respeito: luta e resistência dos povos indígenas no Brasil”, elaborada por autores e autoras indígenas. O material contesta ideias enraizadas pelo colonialismo, como “índio de verdade mora na aldeia”, “povos indígenas pertencem ao passado” ou “os indígenas têm terra demais” e será distribuído em instituições de ensino como recurso pedagógico.
Para Rodrigo Mariano, do povo Guarani e um dos organizadores, o principal diferencial da publicação é que o conteúdo nasce da própria experiência indígena: “É uma forma de ecoar o que a gente vive, sente e percebe no cotidiano”.
A cartilha fala da diversidade dos mais de 300 povos indígenas no Brasil, com suas histórias, línguas e modos de vida distintos, além dos desafios enfrentados tanto nos territórios quanto na convivência com a sociedade não indígena. “Essa é uma contribuição importante para que as próximas gerações indígenas, ao ingressarem em universidades, no mercado de trabalho e em outros espaços, encontrem uma sociedade mais preparada para compreendê-las”, afirma Mariano.
“A educação é a base de tudo”, diz Jessica Kerexu. “Que lugar melhor para ensinar sobre respeito e inclusão do que a própria escola? Ninguém nasce racista ou preconceituoso. Ensinar sobre empatia, diversidade e respeito pode transformar o presente e o futuro de milhares de pessoas, indígenas e não indígenas”.