Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora, uma das cinquenta pessoas mais influentes do mundo em diversidade, segundo a The Economist, e autora do livro “Pacto da Branquitude”, Cida Bento esteve em Curitiba na última semana para falar a um auditório lotado de mulheres pretas, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
A palestra era a mais esperada do Seminário Pretas Acadêmicas, organizado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pelo mandato da deputada federal Carol Dartora (PT).
Enquanto circulava pelo pátio da UTFPR, na avenida Sete de Setembro, Cida Bento era tietada por mulheres de pele escura, cabelos crespos e olhares de admiração. Essas mudaram, por dois dias, o padrão do pátio da instituição, que via de regra tem homens brancos (alunos jovens, professores experientes) circulando pelas instalações.
Romper com essa aura de intelectualidade branca é justamente o objetivo do Pretas Acadêmicas, que neste ano teve eventos esgotados, entre eles a palestra de Cida Bento.
Cofundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), Cida Bento fechou a noite de sexta-feira (11) do evento, com o questionamento: onde estão pretos e brancos nos espaços de poder?
Ovacionada pela plateia, que ao fim da palestra se aglomerou para fazer uma foto com a pesquisadora, ela defende que movimentos sociais e sindicais são figuras centrais para um mercado de trabalho que seja menos desigual para negros, indígenas, mulheres e LGBTs.
Baseada na própria história
Cida Bento, graduada em psicologia, era profissional de recursos humanos e fazia recrutamentos. Dentro da própria experiência de trabalho começou a notar as situações de violência no mercado de trabalho. Depois, foi pesquisar sobre trabalhadores. No mestrado, ouviu trabalhadores e dirigentes sindicais e identificou a importância dos sindicatos em uma luta antirracista – coisa que nem sempre em bem-vinda sob a crítica de que o “identitarismo” prejudica a luta de classes.
O movimento sindical, o sindicalista, ele se senta como empregador. Então ele precisa compreender que são indissociáveis as lutas de raça, classe, gênero, LGBT. Não há um antagonismo entre eles, não é o “identitário” e “nós” (...)Elas são lutas que caminham junto”, adverte a pesquisadora.

Se faltam lideranças negras no mercado de trabalho também faltam nos sindicatos. Para Cida Bento, o perfil é o mesmo: homens brancos. “E aí as pessoas acham que eu estou errada em dizer uma coisa dessas [que só há lideranças brancas], mas eu estou certa (...) Na esquerda, na direita, nos movimentos mais à esquerda e mais à direita você raramente tem pessoas negras liderando, num país onde a maioria é negra. Então olhar para isso ajuda as instituições a avançar ao próprio sindicalismo”.
Pacto da branquitude
Esses comportamentos podem ser encaixados no que a autora chama de pacto da branquitude, conceito que tornou o livro homônimo best seller e um dos mais lidos no que tange questões raciais no país.
O pacto da branquitude, nesse sentido, é um acordo não-verbal de pessoas brancas – que mesmo se dizendo antirracistas ou progressistas – não aceitam abrir mão dos seus espaços de privilégio para deixar a sociedade mais justa racialmente.
(Antes da palestra e da entrevista de Cida Bento, a deputada Carol Dartora, primeira vereadora negra de Curitiba e primeira deputada federal negra do Paraná, relembrou da sua própria história em galgar os lugares de poder, geralmente ocupados por brancos).
Para Cida Bento, eventos como o Pretas Acadêmicas – aqueles que colocam “minorias” em evidência e como produtores de conhecimento, com poder de influência e decisão – têm o poder de balançar as estruturas. “A sociedade como um todo balança, porque as pessoas [brancas] têm medo de perder seus lugares de liderança, que são lugares onde você pensa o país. Isso deixa também as instituições inseguras, porque elas e seus ocupantes não conseguem manter o status quo, ou seja, não conseguem manter tudo exatamente do jeito que está”, critica a escritora.

Neste contexto, o pacto da branquitude também pode ser um entrave para o avanço da democracia, à medida que as instituições que representam os trabalhadores nunca tiveram mulheres negras e talvez homens negros na liderança, ou que há falta de pluralidade nos espaços políticos partidários. Conforme Cida Bento, é preciso que pessoas brancas adotem, de fato, práticas antirracistas e saiam do seu lugar de privilégio.
“E não é para [branco] ter medo, é para ficar junto. Se você quer uma sociedade democrática, se você é antirracista, se você fala em democracia, tem que estar junto. Democracia pressupõe um país para todos”.
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