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Creches conveniadas são as que têm menos professor formado

124 escolas particulares recebem convênio da prefeitura para atender crianças pequenas. Nelas, 36% dos docentes da educação infantil não concluíram o ensino superior: o pior índice da cidade, em qualquer rede

Creches conveniadas são as que têm menos professor formado
CMEI Centro Cívico. Foto: Tami Taketani/Plural

Das 328 creches e pré-escolas particulares com fins lucrativos de Curitiba, 124 recebem dinheiro público por meio de convênio com o poder público municipal — quase quatro em cada dez. São 760 professores de educação infantil, dos quais 643 atuam em creche, com crianças de até 3 anos.

São também as unidades com a menor proporção de professores formados de toda a cidade. Nelas, 36,4% dos docentes de educação infantil não têm curso superior. Na rede municipal, que atende a maior parte das crianças, esse índice é de 9,4%. Nas creches filantrópicas que não recebem convênio, é de 10,3%.

Os dados são do Censo Escolar 2025, do Inep, e foram cruzados pela reportagem com os registros de vínculos formais da RAIS e com a folha de pagamento da Prefeitura de Curitiba.

Quanto mais dinheiro público, menos professor com diploma

O padrão se repete em todas as categorias da rede privada. Entre as escolas com fins lucrativos, as conveniadas têm mais professores sem diploma do que as não conveniadas. Entre as filantrópicas, o mesmo. A relação vale nos dois lados:

Rede privada Escolas Professores sem curso superior
Particular com fins lucrativos — com convênio 124 36,4%
Particular com fins lucrativos — sem convênio 204 26,0%
Filantrópica/comunitária — com convênio 73 22,7%
Filantrópica/comunitária — sem convênio 37 10,3%
(referência) Rede municipal 399 9,4%

A explicação mais óbvia seria a idade das crianças: creches de 0 a 3 anos historicamente empregam mais profissionais sem diploma do que a pré-escola, e as conveniadas concentram-se justamente na creche — 85% dos seus professores atuam nessa etapa, contra 56% nas particulares sem convênio.

A reportagem testou essa hipótese. Não é isso. Olhando apenas para os professores de creche, o gradiente permanece: nas particulares conveniadas, 61,6% têm curso superior; nas particulares sem convênio, 68,8%; nas filantrópicas conveniadas, 74,4%; nas filantrópicas sem convênio, 89,1%. Na rede municipal, 86%.

Quem cuida das crianças pequenas ganha menos

Os dados salariais contam uma história paralela — e é preciso cuidado para não misturá-las. A RAIS não identifica quais creches são conveniadas, de modo que não é possível afirmar que o convênio puxa o salário para baixo.

O que os números mostram é a distância entre as redes. Um professor de educação infantil da prefeitura tem vencimento básico médio de R$ 5.621 por 40 horas semanais — o equivalente a R$ 32,34 por hora. Nas creches privadas de Curitiba, normalizando os salários para a mesma jornada de 40 horas, o professor de uma unidade com fins lucrativos recebe R$ 24,48 por hora, e o de uma filantrópica, R$ 16,45.

A rede municipal paga, por hora, cerca de duas vezes o que paga uma creche filantrópica — e essa é uma estimativa conservadora, porque compara apenas o vencimento básico do servidor (sem gratificações) com a remuneração total do trabalhador privado.

Dentro do setor privado, porém, há uma inversão: as creches com fins lucrativos pagam 49% mais por hora que as filantrópicas — mas são as que têm menos professores formados. Elas contratam em jornada mais curta (29,5 horas semanais, contra 41 horas nas filantrópicas), o que faz o salário mensal parecer menor do que de fato é por hora trabalhada.

O que os números não dizem

A associação entre convênio e menor escolaridade docente é forte e consistente, mas é uma correlação — não uma relação de causa e efeito. Creches conveniadas atendem outro público, em outros bairros, e é possível que já operassem com custo e perfil de contratação distintos antes do convênio. Sem o contrato e sem os critérios de seleção das entidades, não é possível afirmar que o convênio produz esse resultado.

Também há defasagem entre as fontes: o Censo Escolar é de 2025, a folha da prefeitura é de maio de 2026 e a RAIS, de dezembro de 2024. A ordem entre as redes é robusta; os valores absolutos não são estritamente contemporâneos.

Como esta reportagem foi produzida

Foram cruzadas três bases públicas:

- Censo Escolar 2025 (Inep) — microdados de escolas e docentes, mais os indicadores de percentual de docentes com curso superior e de adequação da formação docente. Os percentuais de cada escola foram ponderados pelo número de professores de educação infantil da unidade, para que escolas pequenas não distorcessem a média.

- RAIS 2024 (Ministério do Trabalho e Emprego) — vínculos formais ativos em 31/12/2024 em estabelecimentos de CNAE 8511-2/00 (educação infantil – creche) no município de Curitiba. A separação entre creches com e sem fins lucrativos usou a natureza jurídica: entidades 3xxx (associações e fundações privadas) foram classificadas como sem fins lucrativos.

- Folha de pagamento da Prefeitura de Curitiba (maio de 2026) — cargo "Professor de Educação Infantil", somando efetivos e contratados por processo seletivo simplificado (PSS). Usou-se o vencimento básico de cada servidor e não o total de vantagens, para expor o salário-base do cargo. Isso torna a comparação conservadora: o vencimento básico não inclui gratificações (titulação, regência, tempo de serviço), enquanto a remuneração da RAIS, do lado privado, já contempla os componentes regulares. A distância real entre as redes é, portanto, provavelmente maior do que a apresentada.

Os salários foram normalizados para uma jornada de 40 horas semanais — a jornada oficial do cargo municipal — usando a carga horária contratual individual de cada vínculo da RAIS. Sem essa normalização, a diferença entre as redes é superestimada, porque professores de creche privada trabalham, em média, 34 horas por semana.

No Censo, "com fins lucrativos" corresponde à categoria particular; "filantrópica/comunitária" reúne as categorias comunitária, confessional e filantrópica. O convênio foi identificado pelo campo parceria ou convênio com o poder público.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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