Imagine que, antes da apuração, você tivesse de cravar os vencedores de uma eleição sem saber nada sobre os candidatos — nem o partido, nem as propostas, nem a biografia. Só o quanto cada um gastou na campanha. Você acertaria bem mais do que imagina.
Aplicamos esse teste às eleições do Paraná com os dados de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A regra foi simples: ordenar os candidatos pelo total de despesas e "eleger" os primeiros colocados, até preencher o número de vagas. O resultado:
| Disputa | Cadeiras | Acertos só pelo gasto | Taxa |
|---|---|---|---|
| Deputado federal (PR, 2022) | 30 | 21 | 70% |
| Deputado estadual (PR, 2022) | 54 | 32 | 59% |
| Vereador (Curitiba, 2024) | 38 | 19 | 50% |
Para a Câmara de Curitiba, acertar 19 dos 38 vereadores apenas olhando o extrato de campanha é cerca de dez vezes mais preciso do que o acaso entregaria — se o dinheiro fosse irrelevante, o sorteio dos maiores gastadores acertaria menos de dois nomes.
O abismo entre quem gasta e quem não gasta
A distância financeira entre eleitos e derrotados não é uma diferença — é um abismo. Na disputa por uma vaga de deputado estadual (PR, 2022), o eleito gastou, na mediana, cerca de R$ 480 mil. O não eleito, R$ 4 mil. Uma diferença de mais de cem vezes.
Nas eleições municipais, na eleição de vereador (Curitiba, 2024) o eleito gastou R$ 161 mil (mediana); não eleito, R$ 11 mil. Quinze vezes mais. Em Curitiba, cada voto de um vereador eleito custou, na mediana, R$ 18. Não é retórica: é o preço de mercado de uma cadeira na Câmara.
As exceções que confirmam a regra
Dinheiro não é destino. Em Curitiba, Camilla Gonda (PSB) se elegeu vereadora gastando R$ 30 mil — menos de um quinto da mediana dos eleitos. Laís Leão (PDT) e o "Da Costa do Perdeu Piá" (União) também entraram gastando cerca de R$ 40 mil.
Na ponta oposta, gastar muito não garante nada: Thadeu Vermelho (PP) desembolsou R$ 410 mil — o maior orçamento entre os não eleitos — e ficou de fora. Gerolane (PT, R$ 377 mil) e Alexandre Leprevost (União, R$ 342 mil) tiveram o mesmo destino.
O dinheiro, portanto, não compra a vitória. Ele compra a chance de disputar de verdade: sem um mínimo de recursos, o candidato praticamente não existe para o eleitor. Acima desse piso, entram nome, rede e voto. Mas o piso é alto — e sobe a cada eleição.
Quem controla o dinheiro que prevê
Há uma reviravolta na história. Esse dinheiro que antecipa o resultado deixou de ser privado. No Paraná, a fatia das campanhas bancada por dinheiro público — o Fundo Eleitoral e o Fundo Partidário — saltou de 1% em 2014 para cerca de 70% em 2022 e 2024.
As campanhas paranaenses também ficaram mais caras: as receitas dos candidatos passaram de R$ 164 milhões (2016) para R$ 403 milhões (2024).
Ou seja: prever o vencedor pelo dinheiro é, cada vez mais, prever o vencedor pela decisão dos partidos — são as cúpulas partidárias que distribuem o fundo público e escolhem quem recebe o suficiente para competir. O eleitor ainda dá a palavra final. Mas a lista de quem pode, de fato, concorrer é definida bem antes, na planilha de repasses.
E o dinheiro de 2022 teve cor
Se o dinheiro prevê quem vence, então quem recebe o dinheiro prevê quem manda. Vale, então, olhar como os recursos foram repartidos na última eleição estadual — a de 2022, para a Assembleia Legislativa do Paraná.
Por gênero, a distribuição foi quase proporcional. As mulheres foram 33% das candidaturas e ficaram com 31% do dinheiro (R$ 29 milhões, contra R$ 64 milhões dos homens). A candidata mediana arrecadou mais que o candidato homem mediano. As regras que obrigam os partidos a destinar fundo público proporcional às mulheres parecem ter funcionado — ao menos no meio da tabela.
Mas o total proporcional esconde uma segunda camada: entre as próprias mulheres, o dinheiro ficou concentrado em poucas. As 10% mais bem financiadas — cerca de 30 candidatas — abocanharam 56% de tudo que foi para mulheres; as dez primeiras, sozinhas, ficaram com 31%. A candidata mais rica levantou R$ 1,29 milhão; a mediana, R$ 37 mil — trinta e cinco vezes menos. Na outra ponta, 21 candidatas não passaram de R$ 1.000.
O padrão se repete no dinheiro público: das mulheres que disputaram, 38 não receberam um centavo de fundo eleitoral, enquanto as dez maiores beneficiárias ficaram com 30% de todo o fundão destinado a candidatas. E não é coincidência que esse dinheiro concentrado seja o dinheiro que elege: das oito mulheres que mais receberam fundo público, sete se elegeram. Não é o caso clássico de candidatura "laranja" — a maioria recebeu alguma verba —, mas os partidos escolheram poucas para valer a pena, e deixaram as demais para cumprir a cota de 30%. (A concentração, vale dizer, não é maior que a dos homens: é um traço estrutural do financiamento, não uma punição de gênero.)
Por raça, o buraco é outro. Candidatos negros (pretos e pardos) eram 24% dos concorrentes, mas receberam apenas 17% de todo o dinheiro — e 21% do dinheiro público do fundão. Os brancos, três quartos das candidaturas, abocanharam 82% dos recursos.
O cruzamento de gênero e raça deixa a hierarquia nítida. Na média de arrecadação:
| Perfil | Candidatos | Arrecadação média |
|---|---|---|
| Homem branco | 449 | R$ 120 mil |
| Mulher branca | 226 | R$ 98 mil |
| Mulher negra | 69 | R$ 95 mil |
| Homem negro | 146 | R$ 66 mil |
O homem branco levantou, em média, quase o dobro do homem negro. (As mulheres negras, curiosamente, foram mais bem financiadas que os homens negros — um efeito provável das cotas de fundo, que somam os incentivos de gênero e raça; ainda assim, só uma delas se elegeu.)
O resultado fecha o círculo. Dos 54 deputados estaduais eleitos no Paraná em 2022, 49 são brancos — mais de 90%. Apenas cinco são negros, num estado em que pretos e pardos são a maioria da população. O dinheiro previu a eleição. E o dinheiro, no Paraná, ainda é branco.
Como essa reportagem foi produzida: prestação de contas eleitorais (despesas contratadas) e resultados do TSE, candidatos do Paraná. O índice de "Acerto pelo gasto" foi calculado pelos candidatos ordenados por despesa total; consideram-se acertos os eleitos que ficaram entre os maiores gastadores, considerando o número de vagas. Medianas usadas para evitar distorção por valores extremos. Base própria da Plural.