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Por que cotas trans? Justiça histórica e inclusão na UFPR

A iniciativa da UFPR não apenas rompe o isolamento dessa política no estado do Paraná, mas representa um passo ético fundamental para transformar a academia em um espaço genuinamente democrático, diverso e acolhedor

Por que cotas trans? Justiça histórica e inclusão na UFPR
Foto: ev / Unsplash

A população travesti e transexual no Brasil enfrenta uma realidade estrutural de profunda exclusão escolar, sofrendo um alto grau de evasão no ensino fundamental e médio, sobretudo a partir dos 13 anos de idade. Esse afastamento forçado das salas de aula é impulsionado por um ciclo de preconceito familiar, discriminação e violência institucional, que empurra a maioria desses jovens para fora do sistema formal de ensino. Apesar desse cenário historicamente adverso, no vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) de 2026, expressivos 3% das candidatas e candidatos solicitaram o uso do nome social no ato da inscrição. As cotas recém-aprovadas pela UFPR remetem diretamente a esse percentual e fazem profunda justiça social a esta população, oferecendo uma oportunidade de reparação e de ingresso democrático no ensino superior público.

Essa exclusão contemporânea reflete um longo histórico de violência coletiva e apagamento sistemático que remonta ao início da formação do país. Desde o século XVI, com as perseguições dos Tribunais do Santo Ofício, o Estado e as instituições atuaram para silenciar identidades em dissidência, sobretudo de sexualidade e identidade de gênero, como exemplifica a execução do indígena Tibira em 1614.

No século XX, mecanismos jurídicos como a Lei das Contravenções e Vadiagem serviram de pretexto para que as forças de segurança perseguissem travestis nas capitais brasileiras.

Durante a Ditadura Militar, essa repressão estatal culminou em episódios brutais, a exemplo da Operação Tarântula, em 1987, que resultou na prisão arbitrária e tortura de centenas de pessoas sob o pretexto de higienização pública.

Somam-se a esse panorama a patologização médica, que rotulou essas identidades como transtornos psiquiátricos até anos recentes, e a vergonhosa liderança do Brasil no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, onde a agressão física é o desfecho final de uma trajetória de morte social.

Para romper com esse ciclo de desumanização e marginalização, as políticas de ações afirmativas emergem como instrumentos urgentes e legítimos de transformação. Com a aprovação dessa medida, a UFPR torna-se a 40ª universidade federal brasileira a adotar o sistema de cotas para pessoas trans para cursos de graduação. A instituição se une a um movimento nacional robusto, já consolidado por grandes e tradicionais instituições de ensino do país, como a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Ao reservar vagas para travestis e transexuais, o Brasil assume uma importante vanguarda e liderança institucional inédita nesta política pública específica quando comparado a outros países, onde o debate sobre igualdade de gênero raramente alcança as estruturas de acesso ao ensino superior de forma tão concreta. A iniciativa da UFPR não apenas rompe o isolamento dessa política no estado do Paraná, mas representa um passo ético fundamental para transformar a academia em um espaço genuinamente democrático, diverso e acolhedor.

Megg Rayara Gomes de Oliveira

Megg Rayara Gomes de Oliveira

Pró-Reitora de Ações Afirmativas e Equidade da UFPR

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