> Adjudicação do lote 3 publicada no Diário Oficial do Município de 7 de outubro de 2026. Leilão da nova concessão do transporte marcado para 26 de novembro, na B3.
A Prefeitura de Curitiba homologou nesta quarta-feira (7) a última das três obras que faltavam no corredor BRT Leste/Oeste: o lote 3, das avenidas Affonso Camargo e Prefeito Maurício Fruet, saiu por R$ 87.300.530,87 para o Consórcio VC Affonso Camargo. Oito dias antes, em 29 de setembro, o lote 1 havia sido adjudicado por R$ 58.912.093,59 ao Consórcio BRC 019. Com o lote 2.3, contratado em 2025, a cidade fechou R$ 189.830.183,36 em obras do eixo — e vai entregá-las sem saber quem vai operar os ônibus que rodarão nelas: o leilão da nova concessão do transporte coletivo está marcado para 26 de novembro, daqui a sete semanas.
As duas adjudicações foram assinadas pelo superintendente de Implantação de Obras Urbanas, Airton Sozzi Junior, nos processos 01-084461/2026 e 01-060708/2026. Os contratos ainda não foram publicados — o Diário trouxe até agora apenas a adjudicação e a homologação de cada licitação. As obras integram o Programa de Mobilidade Urbana Sustentável de Curitiba, bancado por financiamento externo.
Três lotes, três descontos muito diferentes
O eixo Leste/Oeste foi dividido em sete lotes, licitados em concorrências separadas ao longo dos anos. Os três que fecharam agora tiveram comportamento bem distinto na disputa:
| Lote | Trecho | Vencedor | Valor máximo estimado | Valor adjudicado | Desconto |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Rua Deputado Heitor Alencar Furtado, da Rua Eduardo Sprada à Rua General Mário Tourinho | Consórcio BRC 019 | R$ 70.350.560,11 | R$ 58.912.093,59 | 16,3% |
| 2.3 | Av. Sete de Setembro e canaleta da Av. Affonso Camargo, com as estações-tubo Eufrásio Correa, Mariano Torres e Rodoferroviária | O Betacem | R$ 45.577.386,54 | R$ 43.617.558,90 | 4,3% |
| 3 | Av. Affonso Camargo, da Rua Schiller à divisa com Pinhais, e Av. Prefeito Maurício Fruet | Consórcio VC Affonso Camargo | R$ 94.277.563,05 | R$ 87.300.530,87 | 7,4% |
| Total | R$ 210.205.509,70 | R$ 189.830.183,36 | 9,7% |
O lote 1, com desconto de 16,3%, foi quase quatro vezes mais disputado em preço do que o lote 2.3. A diferença importa porque o desenho da competição nesse edital já foi questionado — e por quem fiscaliza.
O Tribunal de Contas suspendeu o lote 3 e ainda não julgou o mérito
A licitação do lote 3, a Concorrência Eletrônica CE/021/2026-SMOP/OPP, ficou parada quase dois meses. A suspensão foi pedida pela Coordenadoria de Obras Públicas do próprio Tribunal de Contas do Estado do Paraná, e a cautelar foi concedida em 14 de julho pelo conselheiro Maurício Requião de Mello e Silva.
O ponto era o enquadramento da obra. A Prefeitura tratou a licitação como "obra comum de engenharia", categoria em que a Lei 14.133/2021 exige apenas 10 dias úteis entre a publicação do edital e a abertura das propostas. Para os auditores, pela complexidade técnica e pelas interfaces com sistema ferroviário e equipamentos públicos, era "obra ou serviço especial de engenharia" — o que elevaria o prazo mínimo a 25 dias úteis. O parâmetro invocado foi a Nota Técnica IBR nº 1/2021 do Instituto Brasileiro de Auditoria de Obras Públicas. A área técnica apontou um indício concreto de competição restrita: no lote 2 do mesmo edital, estimado em R$ 80,65 milhões, houve apenas duas propostas válidas.
O plenário do tribunal não homologou a cautelar, e a Prefeitura retomou o certame em 9 de setembro, afirmando no aviso manter o compromisso com "a transparência, a isonomia e a ampla competitividade" — exatamente o ponto sob questionamento. Mas a representação continua viva: o processo TCE nº 404594/26 não teve o mérito julgado. Em tese, o edital pode ser declarado irregular depois de o contrato estar assinado, o que embute risco jurídico para o vencedor.
Há um detalhe de cronologia que a retomada não resolve. A disputa de lances do lote 3 ocorreu em 30 de junho, duas semanas antes da suspensão. A retomada seguiu com as propostas já apresentadas — e o problema levantado pelos auditores era justamente o prazo curto que os interessados tiveram para formulá-las.
Quem ganhou
O Consórcio VC Affonso Camargo, do lote 3, reúne a Viaplan Engenharia (CNPJ 80.024.557/0001-00), de Curitiba, aberta em 1987, com capital social de R$ 8,45 milhões e três sócios-administradores desde a fundação, e a CTG Construtora (28.390.929/0001-93), aberta em 2017, com capital de R$ 3 milhões e um único sócio-administrador, Fernando Claudino. É a segunda vez que as duas se juntam: em março de 2026 elas assinaram, como Consórcio VC Inter 2, o contrato 27509, de R$ 57.743.377,29, para obras do corredor Inter 2 financiadas pelo BID.
A Viaplan é presença recorrente nas obras de mobilidade da cidade. Nos extratos do Diário desde janeiro de 2024, ela aparece, sozinha ou em consórcio, em cinco contratos de grande porte que somam R$ 351.374.630,90 — valor dos contratos, não a parcela dela, que os extratos não informam:
| Contrato | Objeto | Contratada | Valor |
|---|---|---|---|
| 25888 (01/2024) | conduto forçado nos rios Pinheirinho e Vila Guaíra | Viaplan sozinha | R$ 19.043.027,82, hoje R$ 27.266.348,06 |
| 25962 (04/2024) | Linha Direta Inter 2, lote 3.1 | Consórcio TCV Inter 2 Xaxim | R$ 96.289.201,47 |
| 27270 (01/2026) | Linha Direta Inter 2, pacote 2 | Viaplan sozinha | R$ 82.775.173,21 |
| 27509 (03/2026) | Inter 2, lotes 4.1 e 5 | Consórcio VC Inter 2 | R$ 57.743.377,29 |
| lote 3 BRT (10/2026) | Av. Affonso Camargo e Av. Maurício Fruet | Consórcio VC Affonso Camargo | R$ 87.300.530,87 |
O Consórcio BRC 019, do lote 1, é formado por O Betacem Construções e Empreendimentos (95.413.779/0001-83), de Curitiba, aberta em 1993, capital de R$ 7 milhões, e R. Cordeiros Construtora (07.734.183/0001-18), de Curitiba, aberta em 2005, capital de R$ 1,385 milhão. A Betacem está nos dois lotes: venceu sozinha o lote 2.3 em 2025 e agora integra o consórcio do lote 1.
Duas observações de checagem. O cruzamento no cadastro de CNPJ não encontrou sócio em comum entre as empresas de nenhum dos dois consórcios — nem entre Viaplan e CTG, nem entre Betacem e R. Cordeiros. Mas o sobrenome Cordeiro aparece nas duas empresas do lote 1: a Betacem tem como sócio-administrador Juarez Nassur Cordeiro, desde 2005, e a R. Cordeiros tem Juarez Richter Cordeiro, Felipe Richter Cordeiro e Guilherme Richter Cordeiro. Os CPFs parciais do cadastro são diferentes, ou seja, não é a mesma pessoa, e os registros públicos não permitem afirmar parentesco. É pergunta a fazer à Prefeitura e às empresas.
A obra avança; a operação vai a leilão
É aqui que as duas pontas se encontram. O corredor está sendo construído com dinheiro de fora: segundo o IPPUC, o Programa de Mobilidade Urbana Sustentável soma cerca de US$ 227 milhões em financiamentos externos com contrapartida municipal. O BRT Leste/Oeste é bancado pelo Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos BRICS, em projeto de US$ 93,75 milhões, com contrato assinado em dezembro de 2021. O corredor Inter 2 vem do BID, com US$ 133,4 milhões. E há € 100 milhões do banco alemão KfW para 84 ônibus elétricos que rodarão nos dois eixos. O Leste/Oeste prevê 22,5 km de canaletas exclusivas, 34 estações-tubo, cinco terminais e projeção de 200 mil passageiros por dia.
Enquanto a obra é contratada, a operação está sendo recolocada no mercado. O leilão da nova concessão do transporte coletivo de Curitiba está marcado para 26 de novembro, na sede da B3, em São Paulo, e definirá quem opera o sistema a partir de 2027. Os operadores atuais são os consórcios Pioneiro, Transbus e Pontual, liderados por Viação Cidade Sorriso, Auto Viação Redentor e Transporte Coletivo Glória — as três da família Gulin, que controla 73% dos ônibus da cidade.
E a transição está em disputa judicial. Os três consórcios e o SETRANSP, o sindicato patronal, pediram à Justiça que a Prefeitura acerte até R$ 584,5 milhões de "passivo regulatório" antes de encerrar os contratos atuais e definir o modelo futuro. A ação corre na 4ª Vara da Fazenda Pública desde 21 de maio, e a URBS já respondeu, por ofício, que não vai incluir esse valor na modelagem da licitação.
O custeio do sistema, hoje, também está sob pressão. A Prefeitura colocou R$ 121.657.367,64 de reforço no subsídio da tarifa desde o fim de junho, em quatro rodadas, puxando dinheiro da reserva de contingência, da dotação de precatórios e do superávit de 2025. Os R$ 150 milhões previstos no Orçamento para o ano inteiro já estavam gastos em junho.
Em termos práticos: a cidade está terminando de contratar o asfalto, as canaletas e as estações de um corredor cujo operador, cujo modelo de remuneração e cujo acerto de contas com os concessionários atuais ainda não estão definidos.
O que ainda falta
Os contratos dos lotes 1 e 3 não foram publicados, e com eles vêm as datas de ordem de serviço e os prazos de execução. O lote 2, de revitalização urbana entre o Terminal Campina do Siqueira e a Praça Rui Barbosa, estimado em R$ 80,65 milhões, é o único do edital que ainda não teve vencedor divulgado — e é justamente o que recebeu duas propostas válidas.
Vale olhar também o ritmo do que já está em obra. Em julho de 2026, o relatório de medições da Prefeitura registrava o contrato 26809, do lote 2.3, com 12,91% de execução física e valor já em R$ 45.959.695,55, 5,4% acima do assinado em agosto de 2025.
Perguntas rápidas
Quanto custam as obras do corredor BRT Leste/Oeste em Curitiba?
Os três lotes contratados somam R$ 189.830.183,36: R$ 87.300.530,87 no lote 3, R$ 58.912.093,59 no lote 1 e R$ 43.617.558,90 no lote 2.3. O lote 2, estimado em R$ 80,65 milhões, ainda não teve vencedor divulgado.
Quem vai executar as obras?
O Consórcio VC Affonso Camargo (Viaplan Engenharia e CTG Construtora) no lote 3; o Consórcio BRC 019 (O Betacem e R. Cordeiros Construtora) no lote 1; e a O Betacem, sozinha, no lote 2.3.
Por que a licitação do lote 3 ficou suspensa?
O Tribunal de Contas do Estado do Paraná concedeu cautelar em 14 de julho porque a Prefeitura classificou a obra como comum de engenharia, com prazo mínimo de 10 dias úteis para propostas, quando os auditores entendiam ser obra especial, com prazo de 25 dias úteis. O plenário não confirmou a cautelar e o certame foi retomado em 9 de setembro. O mérito da representação ainda não foi julgado.
Quando é o leilão da nova concessão dos ônibus de Curitiba?
Em 26 de novembro de 2026, na sede da B3, em São Paulo. Definirá quem opera o sistema a partir de 2027.
Como apuramos esta reportagem
O Plural leu os termos de adjudicação e homologação dos lotes 1 e 3 e os avisos de licitação e de retomada publicados no Diário Oficial do Município, além dos extratos de contratos do eixo Leste/Oeste e do corredor Inter 2. Os dados das empresas vêm do cadastro público de CNPJ. O desenho e o financiamento do programa são do IPPUC e da Prefeitura; os fundamentos da suspensão, do Tribunal de Contas do Estado do Paraná. O calendário do leilão, o passivo regulatório e os reforços ao subsídio foram apurados em reportagens anteriores do Plural, citadas no texto.
Três limites. Os contratos dos lotes 1 e 3 ainda não foram publicados, de modo que prazos de execução e datas de ordem de serviço não são conhecidos. Nos consórcios, os extratos não informam a participação de cada integrante, e por isso os valores atribuídos às empresas são os dos contratos, não a parcela de cada uma. E o arquivo do Plural com o Diário Oficial começa em janeiro de 2024: contratos anteriores dos mesmos lotes e das mesmas empresas ficam fora dessa contagem.
Última atualização: 8 de outubro de 2026.