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Curitiba já pagou quase metade dos ar-condicionados das escolas e menos de um quarto da instalação

A Prefeitura pagou 47,3% dos R$ 74,9 milhões em aparelhos e 21,9% dos R$ 29,5 milhões da instalação. Pela média dos contratos, cerca de 1.900 equipamentos recebidos seguem sem instalar

Curitiba já pagou quase metade dos ar-condicionados das escolas e menos de um quarto da instalação
Foto: Zulfugar Karimov / Unsplash

A Prefeitura de Curitiba comprou 7.426 aparelhos de ar-condicionado para a rede municipal de ensino e já pagou 47,3% do valor dos equipamentos — mas apenas 21,9% da instalação. Pela média de preços dos próprios contratos, são cerca de 3.600 aparelhos entregues contra cerca de 1.700 instalações atestadas: uma diferença de aproximadamente 1.900 equipamentos já recebidos e pagos que ainda não foram instalados. Nenhum documento público informa onde estão guardados, quais unidades foram atendidas nem qual é o cronograma de instalação.

As prorrogações das Atas de Registro de Preços 928/2025 e 929/2025, do Pregão Eletrônico 55/2025-SME, foram assinadas em 1º de outubro pelo secretário municipal da Educação, Paulo Afonso Schmidt, e publicadas no Diário Oficial desta sexta-feira (2). Elas renovam por mais um ano registros que somam R$ 154.486.426,09 e permitem contratar o segundo ano do programa. Na mesma edição do Diário, a Prefeitura renovou o contrato da merenda com a Risotolândia.

Esta reportagem é do Plural, a partir dos microdados do Censo Escolar do Inep, da base de dados própria com o texto integral do Diário Oficial desde janeiro de 2024 e das fichas dos seis contratos e dos 32 empenhos no Portal da Transparência do município.

Os aparelhos chegam; a instalação não acompanha

A Lei Federal 4.320/1964, no artigo 63, exige que a liquidação da despesa seja instruída com o comprovante da entrega do material ou da prestação efetiva do serviço. Na prática: o município só liquida e paga depois de reconhecer que recebeu. Como os contratos empenham o equipamento e a instalação em rubricas separadas, a comparação entre as duas mostra onde o programa está.

RubricaEmpenhosEmpenhadoLiquidadoPago% pago
Aparelhos (449052)14R$ 74.933.352,04R$ 36.163.791,88R$ 35.429.220,8447,3%
Instalação (339039)18R$ 29.496.676,27R$ 6.595.761,05R$ 6.456.623,6321,9%
Total32R$ 104.430.028,31R$ 42.759.552,93R$ 41.885.844,4740,1%

Quase metade dos equipamentos já foi entregue e paga. Da instalação, pouco mais de um quinto foi aceito. A instalação responde por 28,2% do valor empenhado e por apenas 15,4% do valor liquidado.

Dá para converter isso em aparelhos. O preço médio dos 7.426 equipamentos comprados é de R$ 10.090,67, e a instalação empenhada equivale a R$ 3.972,08 por aparelho. Aplicando essas médias aos valores liquidados, chega-se a cerca de 3.600 aparelhos entregues e cerca de 1.700 instalações atestadas — um para cada dois equipamentos recebidos. A conta é uma estimativa: a instalação é contratada como serviço comum de engenharia, medida por evolução física, e os preços médios variam entre os seis contratos. Mas é a única aproximação possível, porque os empenhos de instalação trazem uma única linha de item, sem quantidade. A contagem de aparelhos existe; a de instalações, não.

Um segundo teste aponta no mesmo sentido. As liquidações registram o número do protocolo administrativo, e em 17 deles o município atestou equipamento e instalação no mesmo lote de obra. Nesses 17 protocolos, o equipamento soma R$ 13.396.643,00 e a instalação R$ 2.229.395,77 — a instalação é 14,3% do par, metade da proporção que ela tem no contrato.

Não é atraso na partida. As 194 notas fiscais anexadas aos empenhos começam no mesmo dia nas duas rubricas, 18 de dezembro de 2025: 94 notas de equipamento, 100 de instalação, todas emitidas em São Paulo, a última de instalação em 3 de setembro de 2026. As duas frentes andam juntas no calendário — e em ritmos diferentes.

A Secretaria Municipal da Educação não publica o prazo de instalação de cada lote nem o local de guarda dos equipamentos já recebidos. Os contratos vencem em novembro de 2026.

A etapa com menos ar-condicionado é a que tem crianças de berçário

O Censo Escolar registra, unidade por unidade, quantas salas de aula estão em uso e quantas são climatizadas. Separando as 439 unidades municipais em atividade pela etapa que oferecem, em 2025:

Tipo de unidadeUnidadesSalasClimatizadas%
Só educação infantil (CMEIs)2381.493231,5%
Educação infantil + fundamental1612.334632,7%
Só ensino fundamental27371215,7%
Outras (sem etapa comum declarada)131212924,0%
Total4394.3191363,1%

As unidades exclusivamente de educação infantil são mais da metade da rede e têm a menor cobertura: 1,5% das salas, contra 5,7% nas escolas só de ensino fundamental — quase quatro vezes menos. São os prédios onde ficam bebês e crianças de até 5 anos, em turno integral, inclusive nos meses de verão. É também a etapa em que a Prefeitura abriu 608 vagas de professor com vencimento abaixo do piso nacional e em que esvaziou o Vale-Creche para dobrar o repasse a creches privadas.

O dinheiro do programa acompanha o tamanho das duas etapas, não a diferença de cobertura. Os 32 empenhos se dividem quase pela metade entre as duas subfunções do orçamento: R$ 53.066.784,61 em educação infantil (50,8%) e R$ 51.363.243,70 em ensino fundamental (49,2%). A subfunção educação infantil cobre tanto os CMEIs quanto a etapa infantil das 161 escolas que atendem as duas — não é possível, nos documentos públicos, separar quanto cabe a cada grupo.

O ponto de partida: 3,1% das salas

CensoEscolasSalas de aula em usoClimatizadas%
20234294.278761,8%
20244344.2651363,2%
20254394.3191363,1%

Entre 2024 e 2025, o número de salas climatizadas não mudou: 136 nas duas apurações. Em 2025, 394 das 439 unidades não tinham uma única sala climatizada. Nove tinham todas.

O Censo de 2025 tem data de referência em maio, antes de a Prefeitura assinar os contratos, em novembro. É, portanto, a linha de base do programa: 4.183 salas de aula sem ar-condicionado.

O que foi comprado: 7.426 aparelhos

As páginas dos 32 empenhos detalham item a item o que foi comprado:

PotênciaQuantidadePreço unitárioTotal
12.000 BTUs2.016R$ 7.520,12 a R$ 7.654,98R$ 15.254.829,06
30.000 BTUs1.834R$ 14.074,62 a R$ 14.327,02R$ 25.977.670,28
24.000 BTUs1.285R$ 11.499,04 a R$ 11.705,25R$ 14.870.504,37
18.000 BTUs1.190R$ 9.374,13 a R$ 9.542,23R$ 11.226.321,00
9.000 BTUs1.101R$ 6.863,77 a R$ 6.986,85R$ 7.604.027,33
Total7.426R$ 74.933.352,04

São aparelhos em quantidade suficiente para, potencialmente, atender todas as salas de aula da rede — eram 4.319 em 2025, 4.183 delas sem ar-condicionado.

O Consórcio Climatiza responde por 4.812 aparelhos; a Construtora Sandin, por 2.614. Os de 12.000 BTUs são o item mais numeroso — 2.016 unidades, 27% do total. Os de 30.000 BTUs são os que mais consomem dinheiro: R$ 25,98 milhões, mais de um terço do valor dos equipamentos.

Nada disso aparece de forma consolidada em nenhum lugar. Os documentos publicados não trazem a relação de unidades atendidas, a quantidade de aparelhos por escola ou CMEI, nem o cronograma de instalação. A própria quantidade total de equipamentos só se conhece abrindo, um a um, os 32 empenhos no Portal da Transparência.

Onze empenhos sem um centavo pago

Dos 32 empenhos, 11 não registram nenhum pagamento — somam R$ 21.708.650,95:

ContratoEmpenhoValor
27173 (Sandin)35493R$ 8.274.617,42
27173 (Sandin)35492R$ 3.647.374,30
27173 (Sandin)1817R$ 2.759.740,30
27173 (Sandin)1815R$ 1.217.532,49
27093 (Sandin)35472R$ 1.309.386,44
27093 (Sandin)22265 e 22270R$ 1.500.000,00
27177 (Climatiza)22271 e 22272R$ 1.500.000,00
27178 (Climatiza)22278 e 22280R$ 1.500.000,00

O contrato 27173, da Construtora Sandin, não teve um único empenho movimentado. Os quatro, que reservam R$ 15.899.264,51, estão integralmente sem liquidação — as páginas registram "nenhuma movimentação encontrada". O contrato prevê 1.164 aparelhos para as regionais Bairro Novo, Boa Vista e Boqueirão, e vence em 24 de novembro.

Chamam atenção também os seis empenhos de valores redondos emitidos em 22 de julho de 2026 — R$ 900 mil e R$ 600 mil em cada um de três contratos, R$ 4,5 milhões no total. Nenhum teve liquidação.

Há ainda R$ 873.708,46 liquidados e não pagos: serviço reconhecido como entregue e não quitado, quase todo no contrato 27181.

Contrato por contrato

ContratoEmpresaValor inicialValor atualizadoAditivadoEmpenhadoPago
27093SandinR$ 19.805.194,81R$ 24.731.021,6424,87%R$ 21.290.323,41R$ 11.285.657,49
27173SandinR$ 15.909.091,17R$ 15.909.091,17—R$ 15.899.264,51R$ 0,00
27174ClimatizaR$ 16.558.441,32R$ 16.558.441,32—R$ 16.555.030,62R$ 6.350.913,71
27177ClimatizaR$ 21.103.896,10R$ 26.248.622,2624,38%R$ 22.581.107,17R$ 12.195.505,76
27178ClimatizaR$ 9.090.909,09R$ 11.315.165,8224,47%R$ 10.571.835,32R$ 5.968.538,55
27181ClimatizaR$ 17.532.467,28R$ 17.532.467,28—R$ 17.532.467,28R$ 6.085.228,96
TotalR$ 99.999.999,77R$ 112.294.809,49R$ 104.430.028,31R$ 41.885.844,47

Os seis contratos foram assinados em novembro de 2025 e somavam, na origem, R$ 99.999.999,77 — 23 centavos abaixo de R$ 100 milhões.

Os aditivos chegaram rente ao teto legal. Em junho de 2026, três contratos foram aditados em oito dias: o 27093 em 17 de junho (R$ 4.925.826,83), o 27177 em 19 de junho (R$ 5.144.726,16) e o 27178 em 25 de junho (R$ 2.224.256,73). Juntos, R$ 12.294.809,72, nos percentuais de 24,87%, 24,38% e 24,47% — abaixo, mas rente ao limite de 25% que o artigo 125 da Lei 14.133 admite.

Os empenhos se concentraram no fim de 2025: a maior parte saiu em 18, 26 e 29 de dezembro, reserva de orçamento na virada do exercício. Todos os seis contratos vencem em novembro de 2026, entre os dias 11 e 27.

O que foi renovado

Os três lotes da Educação foram prorrogados com reajuste idêntico de 4,14% sobre a proposta de 2025:

LoteRegionaisProposta em out/2025Ata renovada
1Bairro Novo, Boa Vista, BoqueirãoR$ 51.079.423,75R$ 53.194.111,89
2Cajuru, Matriz, CICR$ 48.971.591,21R$ 50.999.015,09
3Santa Felicidade, Pinheirinho, Portão, TatuquaraR$ 48.293.930,39R$ 50.293.299,11
TotalR$ 148.344.945,35R$ 154.486.426,09

O lote 1 ficou com a Construtora Sandin; os lotes 2 e 3, com o Consórcio Climatiza Curitiba.

Perguntas rápidas

Quantos aparelhos de ar-condicionado Curitiba comprou para as escolas?

7.426 aparelhos, por R$ 74.933.352,04, detalhados nos 32 empenhos de seis contratos assinados em novembro de 2025. A instalação é contratada à parte, por outros R$ 29.496.676,27 — R$ 104.430.028,31 no total empenhado.

Quantas salas de aula da rede municipal de Curitiba têm ar-condicionado?

No Censo Escolar de 2025, 136 das 4.319 salas de aula em uso, ou 3,1%. Em 394 das 439 escolas e CMEIs, nenhuma sala era climatizada. Nos CMEIs, eram 23 salas de 1.493 — 1,5%.

Quanto a Prefeitura de Curitiba já pagou do contrato de ar-condicionado?

R$ 41.885.844,47 até 2 de outubro de 2026, 40,1% do valor empenhado. O pagamento é desigual entre as duas pontas: 47,3% dos aparelhos e 21,9% da instalação.

Quais escolas de Curitiba vão receber ar-condicionado?

Não há documento público com essa informação. Nem as atas, nem os extratos do Diário Oficial, nem as fichas dos contratos trazem a relação de unidades atendidas, a quantidade de aparelhos por escola ou CMEI, ou o cronograma de instalação.

Quando vencem os contratos de ar-condicionado das escolas de Curitiba?

Os seis contratos vencem em novembro de 2026, entre os dias 11 e 27. As atas de registro de preços foram prorrogadas em 1º de outubro de 2026 por mais um ano, com reajuste de 4,14%, somando R$ 154.486.426,09.


Fontes: microdados do Censo Escolar da Educação Básica de 2023, 2024 e 2025 (Inep), escolas e CMEIs municipais de Curitiba em atividade e seus equivalentes de educação especial exclusiva); Diário Oficial do Município de Curitiba — prorrogação das Atas de Registro de Preços 928/2025 e 929/2025 do Pregão Eletrônico 55/2025-SME (2 de outubro de 2026) e extratos dos seis contratos e do aditivo 27178/01; base de dados do Plural com o texto integral das edições desde janeiro de 2024; fichas dos contratos 27093, 27173, 27174, 27177, 27178 e 27181 e os 32 empenhos a eles vinculados, com as respectivas movimentações de liquidação e pagamento e as 194 notas fiscais anexadas, no Portal da Transparência de Curitiba, consultados em 2 de outubro de 2026; Lei Federal 4.320/1964 e Lei Federal 14.133/2021. Levantamento feito em 2 e 3 de outubro de 2026. Última atualização: 3 de outubro de 2026.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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