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Curitiba renova merenda da Risotolândia com alta de 10,8% — e o maior contrato vence em dezembro sem licitação à vista

O valor anual de um dos contratos subiu R$ 2.256.752,00 em doze meses — 2,6 vezes o IPCA. A empresa passa a ter R$ 209,5 milhões por ano em três contratos, e o maior deles vence em 20 de dezembro sem nova licitação publicada

Curitiba renova merenda da Risotolândia com alta de 10,8% — e o maior contrato vence em dezembro sem licitação à vista

A Prefeitura de Curitiba prorrogou por mais um ano os dois contratos de alimentação escolar dos CMEIs com a Risotolândia. O valor anual de um deles subiu R$ 2.256.752,00 em doze meses — 10,84%, duas vezes e meia o IPCA do período. Com a renovação, a empresa passa a ter R$ 209,5 milhões por ano em três contratos com a cidade, 59,7% de todo o mercado da merenda municipal. O maior deles, de R$ 167,9 milhões, chega ao limite legal de cinco anos em 20 de dezembro — e o Diário Oficial não registra nenhuma nova licitação de alimentação escolar desde janeiro de 2024.

Os aditivos saíram no Diário Oficial do Município nas edições de 28 e 30 de setembro, com errata em 1º de outubro. Prorrogam até 20 de outubro de 2027 os contratos 25020 e 25021, assinados em 21 de outubro de 2022 a partir do Pregão Eletrônico 195/2022, que atendem a educação infantil.

O levantamento é do Plural, a partir da base de dados própria com o texto integral do Diário Oficial desde janeiro de 2024, de documentos do processo judicial em que a empresa contesta uma multa da Prefeitura e de apurações anteriores da reportagem sobre os contratos da merenda.

De quanto foi o reajuste

O contrato 25020 valia R$ 20.816.432,00 quando foi prorrogado, em setembro de 2025. Chega à renovação deste ano valendo R$ 23.073.184,00. A diferença é de R$ 2.256.752,00 — alta de 10,84%.

A prorrogação em si não aumentou o valor: o crescimento veio de três aditivos assinados no intervalo entre uma renovação e outra.

AssinaturaAditivoObjetoAcréscimoParcela da alta
24/10/202512ajuste de valores+R$ 1.049.490,0046,5%
25/03/202613reajuste pelo IPCA de jul/2024 a jun/2025+R$ 767.468,0034,0%
20/05/202614ajuste de valores+R$ 439.794,0019,5%
29/09/202614prorrogação por 12 meses——

Os três acréscimos somam exatamente os R$ 2.256.752,00. Há, porém, uma inconsistência nos próprios extratos: o valor global publicado depois do aditivo 13 é de R$ 22.533.390,00, mas o global anterior somado ao acréscimo daquele aditivo dá R$ 22.633.390,00 — R$ 100 mil a mais. O erro se anula no aditivo seguinte, cujo global publicado volta a fechar com a cadeia. O primeiro e o último valores, que sustentam a alta de 10,84%, estão publicados e não dependem dessa conta.

Apenas 34% da alta — R$ 767.468,00 — vêm do reajuste contratual pela inflação. Os outros 66% estão em dois aditivos de "ajuste de valores", que os extratos não explicam. Nos contratos de merenda, esse tipo de aditivo costuma refletir mudança na quantidade de refeições — mais crianças ou mais unidades atendidas —, e não aumento de preço. O Diário não informa qual é o caso, e é a diferença entre um contrato que ficou mais caro e um contrato que ficou maior.

O IPCA acumulado de setembro de 2025 a agosto de 2026, último dado disponível, foi de 4,22%. A alta do contrato é 2,6 vezes isso.

No contrato 25021, o movimento é parecido e um pouco maior: de R$ 16.549.170,00 para R$ 18.562.396,00, alta de 12,17% — 2,9 vezes o IPCA.

Três contratos, R$ 209,5 milhões por ano

A Risotolândia atende Curitiba por três contratos simultâneos, todos de fornecimento de refeições para a rede municipal de ensino:

ContratoLicitaçãoAssinado emEtapaValor anualVigência até
24652PE 135/202121/12/2021ensino fundamentalR$ 167.869.954,0020/12/2026
25020PE 195/202221/10/2022educação infantilR$ 23.073.184,0020/10/2027
25021PE 195/202221/10/2022educação infantilR$ 18.562.396,0020/10/2027

O contrato 24652 é o maior contrato de alimentação da cidade. Quando teve o nono aditivo assinado, em 29 de fevereiro de 2024, valia R$ 136.181.476,00. Oito aditivos depois — o último assinado em 8 de julho deste ano — está em R$ 167.869.954,00. São 23,27% a mais em 28 meses, contra um IPCA de 11,58% no mesmo intervalo, e R$ 31,7 milhões de acréscimo. Os aditivos anteriores ao nono são de antes de janeiro de 2024, início da base de dados do Plural, e não entram nessa conta.

A empresa não é a única fornecedora. O Pregão 195/2022, que abastece os CMEIs, gerou sete contratos: cinco com a Singular Gestão de Serviços, que somam R$ 141.146.736,74 por ano, e dois com a Risotolândia, de R$ 41.635.580,00. Somados, os dois pregões que abastecem a rede municipal valem R$ 350.652.270,74 por ano, e a Risotolândia responde por 59,7%.

Os três contratos batem no teto de cinco anos

As datas não são coincidência. O contrato 24652 foi assinado em 21 de dezembro de 2021 e a prorrogação atual vai até 20 de dezembro de 2026: exatamente 60 meses. Os contratos 25020 e 25021 foram assinados em 21 de outubro de 2022 e agora vão até 20 de outubro de 2027: também exatamente 60 meses.

Sessenta meses é o prazo máximo de prorrogação que o artigo 57, inciso II, da Lei 8.666/1993 admitia para serviços contínuos. É a lei que o edital do pregão dos CMEIs cita do começo ao fim, e sob a qual esses contratos foram firmados. O mesmo artigo, no parágrafo 4º, permite estender o prazo por até doze meses a mais, em caráter excepcional e com justificativa da autoridade superior — saída que a Prefeitura ainda pode usar, mas que precisaria ser fundamentada.

O contrato de R$ 167,9 milhões termina em 20 de dezembro, a 79 dias desta reportagem. Na base do Plural, que reúne todas as edições do Diário Oficial desde janeiro de 2024, não há nenhum aviso de licitação para alimentação escolar em Curitiba nesse período — nem pregão, nem resultado, nem homologação. A única licitação de refeições da Secretaria da Educação publicada em 2026 é de kits lanche e refeições prontas, por seis meses e R$ 430.780,00, um contrato de outra escala.

R$ 4,02 por refeição, 54 ocorrências e uma multa suspensa

Os documentos do processo em que a Risotolândia contesta uma punição municipal dão a medida do contrato das escolas. Entre junho e outubro de 2023, a empresa forneceu 13.948.557 refeições e faturou R$ 56.076.956,83 — R$ 4,02 por refeição.

No mesmo período, a Gerência de Alimentação da Secretaria Municipal da Educação registrou 54 ocorrências em 36 escolas: larvas em caixas térmicas, inseto em sanduíche, baratas em caixas de frutas, comida fora da temperatura, descumprimento de dietas especiais — inclusive para estudantes com fenilcetonúria —, porções abaixo do per capita contratado e atrasos de entrega.

A SME aplicou multa de R$ 1.220.373,22, equivalente a 2,18% do faturamento do período. A Risotolândia recorreu, perdeu na via administrativa e foi à Justiça. Em 29 de janeiro de 2025, dois dias depois de ajuizar a ação, obteve tutela antecipada suspendendo a cobrança. A empresa sustenta que a multa correta seria de R$ 19.747,24 — 62 vezes menor. O Município também ficou impedido de reter pagamentos do contrato.

O Plural publicou essas apurações em 2024 e em junho deste ano. A multa segue suspensa.

Quem é a Risotolândia

Fundada em 1975 em Araucária, na Região Metropolitana, a Risotolândia Indústria e Comércio de Alimentos Ltda. (CNPJ 76.900.463/0001-71) é controlada pela Campodoro Participações Societárias, holding da família Gusso. Em dezembro de 2024, a holding integralizou R$ 20 milhões adicionais no capital da operadora, elevando-o de R$ 4,2 milhões para R$ 24,2 milhões.

Além de Curitiba, a empresa fornece refeições ao sistema penitenciário do Paraná: o contrato 0275/2025, do Pregão Eletrônico 260/2024, valia R$ 58,3 milhões no primeiro ano e foi renovado em abril de 2026, com reajuste pelo IPCA, por mais R$ 61,5 milhões. Esse contrato é objeto de ação judicial movida por uma concorrente inabilitada no pregão.

Em Santa Catarina, a Risotolândia é investigada na Operação Arbóreo, do GAECO do Ministério Público estadual, que apura suposto esquema de corrupção ativa e passiva, fraude à licitação e organização criminosa, com bloqueio de R$ 3,6 milhões em bens dos investigados. O Plural noticiou a investigação em 29 de junho deste ano.

O que não está publicado

Os extratos dos aditivos não informam quantas refeições cada contrato prevê, o preço unitário por refeição, quantas unidades são atendidas, nem o que motivou os dois "ajustes de valores" que responderam por 66% da alta do ano. Também não há, no Diário, estudo técnico ou cronograma para a licitação que precisa substituir o contrato que vence em dezembro.


Fontes: extratos de contratos e aditivos publicados no Diário Oficial do Município de Curitiba, na base de dados do Plural com o texto integral das edições desde janeiro de 2024; edital do Pregão Eletrônico 195 da Secretaria Municipal da Educação; IPCA do Banco Central (série 433); documentos do processo nº 0000212-74.2025.8.16.0179, do Tribunal de Justiça do Paraná, em que a Risotolândia contesta a multa — entre eles o relatório de ocorrências da SME, as planilhas de faturamento e a decisão de 29 de janeiro de 2025; contrato da empresa com o Estado do Paraná para o sistema penitenciário; e reportagens anteriores do Plural sobre a merenda escolar. Levantamento feito em 2 de outubro de 2026.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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