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5 das 6 bacias hidrográficas de Curitiba possuem qualidade da água abaixo da ideal

Questão preocupa moradores e especialistas tanto pela saúde humana quanto ambiental

5 das 6 bacias hidrográficas de Curitiba possuem qualidade da água abaixo da ideal

O último Monitoramento da Qualidade das Águas dos Rios de Curitiba, realizado em 2023 e presente no Plano Municipal de Saneamento Básico, apontou que apenas a Bacia do Rio Passaúna possui o Índice de Qualidade de Água (IQA) considerado “bom”. As demais se enquadram em “razoável”, “ruim” e até “péssimo”. Para o pesquisador de recursos hídricos e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade Tecnológica do Paraná (UTFPR), Julio César Rodrigues de Azevedo, o fato não combina com a propaganda ecológica da capital.

“Curitiba é uma cidade ecológica se vista de cima, ela tem um verde bem estruturado, mas ela deixa de ser ecológica quando a gente pega uma amostra de água de rio”, diz o pesquisador 

A qualidade da água preocupa os consumidores da capital e da RMC. A moradora de Pinhais, Marcia Oliveira, reclama da incerteza da condição da água que chega a sua torneira, às vezes com aspecto lodoso ou esbranquiçado, poder ser resultado de uma falta de tratamento ou ainda de excesso de compostos para limpar as sujidades provenientes dos rios. “A gente não tem nem como ter muita clareza se a água dos rios que chega nas nossas torneiras é tratada mesmo”, comenta. Para o pesquisador, os riscos mais comuns de ter contato com esse tipo de água de rios de baixa qualidade são danos bacteriológicos imediatos à saúde, como intoxicações e diarreias, além da alteração de bactérias mais resistentes e, a longo prazo, contaminações químicas, que podem causar problemas irreversíveis ao organismo. No que se trata de meio ambiente, todo o ecossistema ligado ao rio é afetado,como baixa presença de peixes e plantas. 

O IQA, criado em 1970 nos Estados Unidos pela National Sanitation Foundation, fornece um número de referência que proporciona a avaliação da qualidade da água de forma padronizada, tornando possível realizar uma análise global e utilizar como subsídio para a tomada de decisão em ações, projetos e programas, em termos de contaminação decorrente de lançamentos de efluentes. O IQA é determinado com base em um conjunto de variáveis, como turbidez – excesso de partículas dentro da água – oxigênio dissolvido, coliformes fecais, pH, nitrogênio, fósforo, temperatura, sólidos totais e demanda bioquímica de oxigênio (DBO). A Agência Nacional de Águas (ANA), para o Estado do Paraná, apresenta as Faixas de Qualidade de Água e o correspondente nível de qualidade.

Classificação da qualidade da Água de acordo com as faixas de IQA. Tabela: Ana, 2020.

A pior qualidade foi detectada na Bacia do Rio Barigui: foram 42 pontos de amostragem e 24,88 no IQA, que configura como “ruim”. Em seguida, na Bacia do Rio Belém foram realizados 32 pontos de monitoramento e o resultado IQA foi de 39,90, considerada também “ruim”. Dentre as “razoáveis” estão a do Rio Atuba, a do Ribeirão do Padilha e a do Rio Iguaçu, com 12, 14 e 11 pontos de amostragem e 60,39, 60,03 e 62,22 de IQA, respectivamente. A Bacia do Rio Passaúna foi monitorada em 18 pontos, sendo o resultado de IQA de 87,32, a única “boa” da capital.

Para o diretor do Departamento de Recursos Hídricos e Saneamento (MARHS) da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA), Antônio Carlos Gerardi, em rios inseridos em contexto urbano, alcançar classificações como “boa” ou “ótima” constitui desafio significativo, uma vez que esses corpos hídricos, em geral, encontram-se canalizados, com margens alteradas e submetidos a poluição difusa. Curitiba possui seis Bacias Hidrográficas, divididas em 214 sub-bacias, destas, 120 sub-bacias monitoradas encontram-se no município. Em 2023 foram coletados 129 pontos de amostragem distribuídos de forma estratégica por todas as bacias hidrográficas inseridas nos limites do município.

Despejo irregular de esgoto é principal causa 

Por dez anos, o escritor e pesquisador Eduardo Emilio Fenianos, também conhecido como Urbenauta, navegou por rios de Curitiba, com apoio do Corpo de Bombeiros do Estado do Paraná e Polícia Ambiental. Como resultado da expedição, foi gerado, em 2024, um relatório ambiental, catalogando e demarcando 284 pontos de despejo irregular de esgoto nos rios navegados, além de nascentes que deságuam nesses rios e que precisam ser preservadas.

Segundo o professor, pesquisas realizadas nas instituições comprovam a existência de esgotos nos rios da capital paranaense. “A gente faz, por exemplo, testes de presença de cafeína, porque o único animal que toma cafeína é o ser humano. Então se eu encontro cafeína na água do rio é porque eu tenho entrada de esgoto”, conclui. Ainda conforme o Plano Municipal de Saneamento Básico, Curitiba possui mais de 90 mil domicílios com esgoto irregular. Para a SMMA, as ligações irregulares de esgoto podem, sim, contribuir para a degradação da qualidade da água e, consequentemente, para o comprometimento dos indicadores ambientais. 

De acordo com a Sanepar, o tratamento de esgoto é um dos pilares da empresa: “Na Sanepar, temos o compromisso de tratar 100% de todo o esgoto coletado em nossa rede. Operamos um sistema complexo e tecnológico para remover as impurezas e garantir que a água possa retornar ao meio ambiente sem causar poluição.” No entanto, Julio César ressalta: “coletar 100% é uma coisa, tratar 100% é outra, e ser eficiente 100% é mais difícil ainda. Então a Sanepar pode estar lá coletando 100%, mas a eficiência do tratamento dela não é 100%.”

Compromisso público

A Prefeitura de Curitiba argumenta que o “monitoramento da qualidade dos corpos hídricos do município vem sendo aprimorado com o intuito de torná-lo mais eficiente e alinhado às demandas atuais de gestão ambiental.” Desde julho de 2018, existe o Fundo Municipal de Saneamento Básico, uma parceria entre prefeitura e Sanepar. Para a revitalização do Rio Belém, o maior rio urbano da cidade, e suas sub-bacias, o fundo destinou cerca de R$ 168 milhões a ações voltadas ao diagnóstico de ligações irregulares de esgoto, educação ambiental, limpeza e drenagem de vários pontos da bacia, entre outras medidas. Segundo o diretor, no período de 2019 até 2025, foram realizadas cerca de 10 campanhas de orientações em TV, outdoors, jornais, redes sociais, porta-a-porta (em residências por meio de técnicos ambientais). Há ainda em Curitiba o programa Amigos do Rio que, conforme o Gerardi, “busca recuperar os rios da Grande Curitiba e como cada pessoa pode fazer a diferença neste processo.”

Marya Marcondes

Marya Marcondes

Estagiária do Jornal Plural. Estudante de Jornalismo da UFPR. Palmeirense e colecionadora de hobbies.

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