Woody Allen é um gênio. Em Match Point, de 2005, vemos algo bater na rede e concluímos que aquilo vai resultar numa derrota. No fim, porém, vemos que estamos equivocados. Simples, e por isso mesmo genial. Allen já usou esse truque outras vezes, mais notoriamente em sua vida pessoal, quando conseguiu, com sucesso, atribuir a acusação de abuso sexual feita pela sua filha adotiva Dylan a índole "vingativa" da ex-mulher, a atriz Mia Farrow.
Quem rejeita essa acusação costuma apontar para o relacionamento de Allen com Soon-Yi, filha adotiva de Farrow, como a razão real para a acusação de Dylan. Por volta da mesma época em que a acusação veio à tona, Farrow também havia descoberto que Allen, seu companheiro por doze anos, estava se relacionando sexualmente com a filha dela, então com 22 anos.
Quando Allen e Farrow começaram seu relacionamento, a atriz já tinha sete filhos. Três eram filhos biológicos dela com o ex-marido, André Previn e outros quatro - inclusive Soon-Yi, eram adotados. Pelos próximos doze anos, os dois viveram como casal até o rompimento, provocado pela descoberta, por Farrow, de fotos de Soon-Yi nua em poses sensuais no apartamento de Allen.
Quando olhamos para o relacionamento de Allen com Soon-Yi - eles se casaram em 1997 - acabamos supondo que a natureza longeva do caso entre eles prova algum tipo de pureza do envolvimento deles, mesmo que Allen, na época em que eles começaram a se relacionar, fosse uma espécie de padrasto de Soon-Yi e tivesse 56 anos.
Nas últimas semanas a história de Allen, Farrow, Dylan e Soon-Yi voltou a ser discutida com a estreia do documentário em quatro partes Allen v. Farrow, na HBO. Trata-se, como os que o descartam, da versão de Dylan e Farrow do caso, já que Allen e Soon-Yi não quiseram participar. É a versão "delas", por que ouvir?

Para mim, o documentário serviu para lembrar que a acusação de Dylan contra Allen não é uma contraposição ao caso/casamento de Allen com Soon-Yi. Há trinta anos Dylan, que foi adotada por Mia durante o relacionamento dela com Allen e depois adotada por ele como filha, conta a mesma história: a de ter sido abusada pelo pai no sótão da casa de verão de Mia.
Mais do que isso, Dylan diz que o pai dava uma atenção excessiva a ela na infância, a colocando no colo ou deitando a cabeça no colo dela. Ou a colocando deitada na cama com ele só de cueca. Pode parecer só carinho. Mas para ela, esses carinhos pareciam opressivos e a incomodavam. Naquele dia de verão ele a levou pela mão até o sótão, a colocou deitada de bruços num colchão e abusou dela. Dylan tinha 7 anos.
A versão de Dylan está em inúmeros documentos legais, mas também pode ser lida aqui, num artigo dela publicado no New York Times em 2014. Para Allen, Dylan foi "treinada" a contar essa história por Mia. Ou seja, para livrá-lo da acusação, temos que condenar Dylan como mentirosa e vítima de manipulação e Mia como uma mãe negligente e insidiosa que machuca a filha para poder atingir Allen.
É preciso também descartar o depoimento da babá e da professora particular que estavam na casa no dia do suposto abuso e que disseram ter perdido Dylan de vista por 20 minutos. E de amigas da família que afirmaram achar o relacionamento e a atenção que Allen dava a Dylan "estranhos".
Sim, há um laudo do Yale New Haven Hospital que afirma categoricamente que as lembranças de Dylan do incidente no sótão foram inventadas. O documentário trata disso. No que é baseado o laudo? Em entrevistas com Dylan na época. Por que podemos aceitar o resultado de um laudo com base na fala dela, mas não o que ela fala? E fala consistentemente há 30 anos?
De fato, Allen não chegou a ser processado por abuso sexual de menores porque o promotor do caso - que afirmou existir "causa provável" - desistiu do processo para proteger Dylan. Mas ele perdeu o processo em que pediu a guarda das crianças (ele e Mia tiveram um filho biológico - Ronan - e adotaram duas crianças, Moses e Dylan).
É nesse processo que consta algo perturbador: Allen teria começado o caso com Soon-Yi antes, quando ela ainda estava no Ensino Médio, o que testemunhos de porteiro do prédio do cineasta e de funcionários dele teriam confirmado. O juiz do caso, que decidiu a favor de Mia Farrow, achou, como eu, que o mero fato de Allen se relacionar com a filha adotiva da namorada um sinal claro de falta de bom julgamento por parte de Allen.
Para mim parece claro que o homem que entra na casa de uma mulher com filhos precisa assumir uma responsabilidade só: a de saber que aquele espaço é um ambiente de desenvolvimento daquelas crianças. Ali elas não são objetos sexuais nem interesse romântico de ninguém. Isso não é negar que crianças e adolescentes não tenham sexualidade, mas sim que são pessoas em desenvolvimento e precisam ser cuidadas e protegidas como tal.
Um homem de 56 anos não é, de forma alguma, um parceiro sexual adequado para uma adolescente. Um homem de 56 anos que entrou numa casa como parceiro romântico da mãe da criança não é um parceiro sexual adequado para uma adolescente. Não é puritanismo. É bom senso. É reconhecer que há um diferença de forças entre homem adulto de 56 anos e uma adolescente. E que a adolescente é o lado mais fraco aí.
No entanto, a sociedade misógina em que estamos teima em não reconhecer isso. Meninas são vistas como sedutoras, como predadoras. Mas esse é só um discurso que tenta absolver homens que estão tentando se aproveitar da diferença de poder entre eles e meninas, crianças.
É o mesmo discurso que absolve Allen. Que descarta Dylan, mesmo que ela insista que está falando de suas próprias experiências há 30 anos. É a mesma teoria sem base científica usada contra mães que denunciam abuso e violência doméstica na justiça brasileira sob o argumento disso ser "alienação parental", uma ideia sem nenhuma corroboração científica de que um pai pode colocar os filhos contra o outro.
Para Allen, ser acusado de abuso sexual custou muito pouco. Sim, ele não ganhou a guarda dos filhos. Mas continuou a ser um gênio reconhecido e celebrado. Ele é, inclusive, celebrado por suas personagens femininas. Mas quanto custou a Farrow e a Dylan tudo isso? Porque alguém iria se submeter a isto para acusar quem quer que seja de abuso sexual?
Não sei o que aconteceu naquele verão em 1992 entre Dylan e Allen. Nem cabe a mim nem a ninguém que é fã ou não de Allen julgá-lo ou condená-lo por isto. Mas incomoda muito ver o quão facilmente se descarta a fala de uma mulher. E se descarta porque sempre se supõe que é a mulher que, ferida pela rejeição, é capaz de qualquer coisa para ferir. No entanto, há pilhas de corpos de mulheres mortas por ex-namorados, ex-maridos ou mesmo estranhos rejeitados que provam justamente o contrário.
Allen se relacionou sexualmente com uma menina. Uma menina que poderia muito bem tê-lo visto como pai nos 10, 12 anos em que ele manteve um relacionamento com a mãe dela. O quão longe isso está de ter abusado sexualmente de outra menina? Uma menina que o via como pai? É importante que a gente pense bem em quem precisa calar, deslegitimar, desqualificar para não ver o que a distância entre uma coisa e outra é muito pequena. Pequena demais para deixar de lado, mesmo que Allen seja mesmo um gênio. E talvez justamente por isso.