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Quem mais contrata em Curitiba são terceirizadoras, mostra Caged

4 dos 5 maiores empregadores de Curitiba são terceirizadoras: 115 mil vagas em 12 meses, quase 1 em cada 4 contratos formais. Análise do Caged mostra cargos e salários

Quem mais contrata em Curitiba são terceirizadoras, mostra Caged
Trabalhadores no transporte coletivo de Curitiba Foto: Tami Taketani/Plural

Em cada quatro novas vagas formais abertas em Curitiba nos últimos 12 meses, uma foi feita por uma empresa de terceirização. Os setores de locação de mão-de-obra temporária, terceirização de RH, agências de emprego e BPO administrativo — quatro segmentos que reúnem as empresas cuja atividade-fim é alugar trabalhadores para outras companhias — somaram 115.396 admissões entre maio de 2025 e abril de 2026. Para efeito de comparação, o comércio de hipermercados e supermercados, citado como o maior empregador da capital pelo governo do Paraná, fez 20,2 mil admissões no mesmo período.

Os números vêm dos microdados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho, filtrados pela Plural para o município de Curitiba. A leitura é feita pelo setor de atuação da empresa contratante — agrupamento que organiza as companhias por tipo de negócio (call centers, restaurantes, bancos, hospitais, fábricas de software etc.).

A maior porta de entrada do mercado curitibano é uma empresa de aluguel de gente

As empresas de locação de mão-de-obra temporária abriram, sozinhas, 79.432 vagas em Curitiba no período — mais de 16% de todo o mercado formal filtrado. São empresas que registram o trabalhador em carteira e o cedem para outra companhia onde ele de fato exerce a atividade.

Quem essas empresas mais contrataram?

Quem essas empresas mais demitiram?

As ocupações que mais entram são exatamente as que mais saem — em volumes parecidos e com salários praticamente idênticos. O segmento termina o quadrimestre com saldo positivo de +3.357 vagas, mas movimenta perto de 155 mil contratos em 12 meses para isso. A porta giratória é a regra, não a exceção.

O salário médio de admissão na atividade foi de R$ 2.071 e o de desligamento, R$ 2.070. Praticamente igual — o que significa que, em média, nem o trabalhador que entra perde para quem sai, nem ganha. É um mercado em regime de substituição contínua, com salários ancorados perto do piso de cada profissão.

Os outros três segmentos de terceirização no topo

Se a locação de mão-de-obra temporária é a estrela do ranking, há outros três segmentos do mesmo grupo entre os 10 maiores empregadores da capital:

Somados, os quatro segmentos de terceirização foram responsáveis por mais admissões em Curitiba do que indústria de transformação, construção civil, atendimento hospitalar, educação e serviços profissionais juntos.

Tirando a terceirização da conta: quem realmente contrata em Curitiba

Excluindo os quatro segmentos de terceirização, a fotografia muda. Os setores produtivos e de atendimento que mais contrataram diretamente em Curitiba nos últimos 12 meses foram:

  1. Call centers — 21.901 admissões (salário médio R$ 1.701)
  2. Restaurantes — 17.402 (R$ 1.985)
  3. Empresas de limpeza — 14.728 (R$ 1.903)
  4. Hipermercados — 11.436 (R$ 1.947)
  5. Lanchonetes e casas de suco — 8.856 (R$ 1.931)
  6. Hospitais — 8.788 (R$ 2.654)
  7. Supermercados de bairro — 8.731 (R$ 1.840)
  8. Construção de edifícios — 8.082 (R$ 2.693)
  9. Apoio e zeladoria a edifícios — 7.978 (R$ 1.912)
  10. Vigilância e segurança privada — 6.873 (R$ 2.324)

A leitura é direta: tirando a terceirização, o emprego formal em Curitiba é puxado por atendimento ao consumidor, alimentação fora do lar, varejo, serviços de limpeza e construção. Os salários médios desses dez maiores ficam entre R$ 1.700 e R$ 2.700 — a maioria abaixo dos R$ 2 mil.

Cargo a cargo, o desenho da contratação é repetitivo. Em call centers, 11.761 das 21.901 vagas foram para operadores de telemarketing ativo e receptivo (salário R$ 1.566) — e 12.736 dos desligamentos também. Em restaurantes, os cinco cargos mais contratados (auxiliar de alimentação, atendente de lanchonete, cozinheiro, garçom e faxineiro) reaparecem entre os mais demitidos em volumes praticamente iguais. Nas empresas de limpeza, 7.987 faxineiros foram contratados e 7.409 foram desligados — o mesmo cargo, ganhando R$ 1.717 na entrada e R$ 1.703 na saída.

A construção de edifícios é um dos contrapontos: contratou 8.082 com saldo positivo de +546 vagas e salário médio mais alto (R$ 2.693). É o setor que combina volume relevante com remuneração acima da média.

Os hospitais também se destacam: 8.788 admissões, saldo +673, salário médio R$ 2.654. Os cargos mais contratados são técnicos de enfermagem, auxiliares administrativos e auxiliares de saúde. Enfermeiros entram em faixa salarial bem maior (acima de R$ 4 mil), mas em volume bem menor, porque a estrutura assistencial brasileira é fortemente apoiada no técnico.

Quanto tempo dura uma vaga? O mapa da rotatividade

Em Curitiba, 7 dos 12 setores que mais contratam operam com taxa de reposição acima de 95% — o que significa que praticamente toda a vaga aberta no período foi acompanhada de outra fechada. É a definição estatística da porta giratória: o trabalhador entra, fica alguns meses, sai, é substituído por outro com o mesmo cargo e salário parecido.

No setor de restaurantes, a taxa de reposição em 12 meses chegou a 99,3% — para cada 100 pessoas contratadas, 99 foram desligadas. Lanchonetes ficaram em 99,5%. Call centers, em 98,2%. Em todos esses setores, o cargo predominante é o mesmo na admissão e no desligamento — e o salário médio que entra é praticamente idêntico ao que sai. Estudos do Dieese estimam, para esse perfil de atividade, tempo médio de permanência entre 6 e 12 meses.

Empresas de locação de mão-de-obra temporária — o maior contratador de Curitiba — operam com giro mensal de 12.959 movimentações (somando entradas e saídas). É como se a carteira de trabalhadores do setor inteiro fosse substituída em pouco mais de um ano, na média. A taxa de reposição é de 95,8%.

No outro extremo do ranking, hospitais e construção civil apresentam taxas de reposição mais baixas — 92,3% e 93,2%, respectivamente — combinadas com saldo positivo robusto. São os setores onde o tempo médio de permanência tende a ser mais alto, na casa de 2 a 4 anos segundo as séries do Dieese para o Brasil. Empresas de vigilância e segurança privada (saldo +865) e empresas de limpeza (saldo +1.604) também escapam do padrão da porta giratória pura — estão entre as poucas grandes que crescem mais do que repõem.

O que esses números desenham é um mapa nítido: quanto mais o setor opera com mão-de-obra alugada para terceiros, mais curta tende a ser a permanência média do trabalhador. Quanto mais o setor depende de qualificação específica e estrutura própria (hospitais, indústria, construção), mais longo é o vínculo médio.

A "porta giratória" e o salário médio de desligamento

Em Curitiba, como no resto do país, quem é desligado costuma ganhar mais do que quem é contratado. O fenômeno tem nome econômico — "rotatividade com perda salarial" — e aparece em praticamente todos os 12 segmentos analisados. A diferença não é dramática (R$ 102 na média do mercado), mas é sistemática.

Onde ela é maior, vale a observação: nas empresas de BPO administrativo, o salário de desligamento (R$ 3.038) é R$ 317 mais alto do que o de admissão (R$ 2.721) — diferença de 11,6%. É o setor onde o "desconto" embutido na rotatividade é mais expressivo.

Olhando para o saldo líquido, quatro dos 12 maiores segmentos encerraram o período com mais desligamentos do que admissões: call centers (-393), restaurantes (-117), BPO administrativo (-458) e agências de emprego (-1.043). Todos os outros oito puxam o saldo do mercado para cima — com destaque para empresas de limpeza (+1.604), terceirização de RH (+1.537) e hospitais (+673).

O retrato do mercado

A imagem que esses números desenham é a de uma capital que cresce por intermediação: a primeira porta de acesso ao emprego formal hoje é uma empresa que cede trabalhador para outra. Em 23,3% das contratações dos últimos 12 meses, o trabalhador foi registrado por uma terceirizadora — onde, em regra, o vínculo é curto, o salário ancorado no piso e a substituição é contínua.

Para o trabalhador, esse padrão significa vínculo mais frágil, menor estabilidade e — como a comparação cargo a cargo dos contratos mostra — quase nenhuma diferença salarial entre quem entra e quem sai. Para a empresa-fim, significa flexibilidade. Para o Estado, significa um mercado de trabalho cuja rotatividade efetiva é maior do que sugerem os saldos mensais divulgados pelo governo: parte do contingente "entra" e "sai" da mesma empresa terceirizadora em ciclos curtos, sem mudar de uniforme.

Os números deixam claro que o mercado curitibano abre muitas vagas formais — e mostra ao mesmo tempo que fica cada vez mais difícil descrever esse mercado pelo saldo, sem olhar para a velocidade com que ele se move.

Metodologia

A matéria é baseada nos microdados do Novo Caged (Ministério do Trabalho e Previdência) para Curitiba entre maio de 2025 a abril de 2026. Foram usados nos cálculos os contratos com salário declarado em base mensal, valores entre R$ 100 e R$ 200.000 e exclusão de aprendizes. Os totais foram filtrados para excluir registros incompletos e erros de preenchimento da fonte — por isso, podem ficar abaixo do saldo bruto que aparece em divulgações oficiais do Ministério (567.523 admissões e 556.266 desligamentos no quadrimestre, saldo bruto de +11.257). As médias são do salário médio aritmético dos contratos no período. Os rankings só consideram setores com volume mínimo (500 contratações) e, dentro de cada setor, ocupações com pelo menos 20 movimentações.

A Taxa de reposição é percentual obtido pela razão entre o menor e o maior valor entre admissões e desligamentos no mesmo período. Quanto mais próxima de 100%, mais o setor opera em regime de substituição contínua (porta giratória). Foi adotada como proxy de rotatividade porque o Caged não inclui a data da admissão de quem é desligado — informação que está somente na RAIS, divulgada anualmente. Estimativas de tempo médio de permanência por setor citadas no texto referem-se às séries do Dieese para o Brasil.

Limitação: os dados refletem apenas o vínculo formal celetista. Trabalhadores informais, autônomos e MEIs ficam fora do Caged.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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