Após o Plural revelar os bastidores da destruição de centenas de ex-votos da milagreira mais conhecida de Curitiba, Maria Bueno, a administração do São Francisco de Paula respondeu à reportagem que o processo de tombamento do local estaria “suspenso” e que “está sendo realizado um estudo pelo país, onde existe tombamento, pra ver se é viável”. Mas, documentos obtidos pelo jornal via Lei de Acesso à Informação contradizem a declaração, mostrando a existência de processo de tombamento da necrópole em andamento e com pedido de proteção cautelar.

Leia reportagem completa sobre a destruição dos ex-votos da Maria Bueno, no Cemitério Municipal de Curitiba.
Entre 2017 e 2020, os integrantes do Conselho Municipal de Patrimônio Cultural (CMPC) oficializaram em atas “estar de acordo com o tombamento, aprovando a abertura do processo e solicitando a proteção temporária”. Bem como registraram que o processo “após passar por todos os órgão competentes, ele foi aprovado pela Câmara Técnica – CAPC (...)”, e ainda que “(...) o processo já foi apresentado e aprovado.”
Em resposta ao jornal, é afirmado que atualmente o processo está na Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA), órgão que está providenciando a “compatibilização com diretrizes previstas quando do tombamento com os procedimentos aplicáveis na administração do Cemitério”, conforme o novo projeto de lei sobre regras de uso dos cemitérios municipais. Não há registro de arquivamento ou “sobrestado” (mesmo em caso de suspensão temporária, a proteção cautelar é mantida). Ou seja, o processo está ativo (como informado anteriormente pelo jornal) e na mesma secretaria responsável pela divisão de cemitérios de Curitiba (do setor do Departamento de Serviços Especiais).
A reportagem solicitou à administração do São Francisco de Paula documentos que comprovem a suspensão e questionou se foram feitos laudo e pedido de autorização ao CMPC antes de programar a retirada dos ex-votos, para reparo ou mudança no local. A aprovação do conselho é exigida tanto pela Lei de Patrimônio Cultural do Município quanto pela Lei de Crimes Ambientais Federal (e a destruição ou descaracterização pode ser considerada crime). Há jurisprudência sobre o estado de proteção cautelar durante o processo de tombamento.
Os responsáveis diretos pelo cemitério e a assessoria de imprensa da SMMA não retornaram. O espaço continua aberto.




Indícios das obras na metade superior da parede, onde não estavam as placas e pedras de agradecimento à Maria Bueno.(Fotos: Tami Taketani/Plural.)
Proposta para instituir a impunidade
Segue em andamento na Câmara de Curitiba o projeto (055.00109.2026) para acabar com a proteção cautelar a partir da abertura do processo, estabelecendo a segurança dos bens somente a partir do fim de todas as etapas até o tombamento efetivo. A mudança entra em conflito com a legislação federal e significa alto risco de perdas irreparáveis, como a que aconteceu no Cemitério Municipal, segundo profissionais da área.
Após a publicação da reportagem do Plural revelando a destruição dos ex-votos com agradecimentos à Maria Bueno, a Câmara encaminhou pedido de mais informações sobre a proposta para a Prefeitura.
A reportagem questionou o posicionamento do CMPC sobre a proposta de lei e o caso no São Vicente de Paula. Até a publicação deste texto não houve resposta. O espaço continua aberto.

Histórias, fé e afetos destruídos
Um dos ex-votos destruídos ali era um marco da fé, das tradição e dos afetos da família de Stéphanie Potier, que, aos 26 anos de idade, trabalha como profissional de marketing e social media. A história do agradecimento simboliza um pouco da importância da milagreira na vida das pessoas e da cidade de Curitiba.
“Eu passava muito tempo com minha avó quando criança e toda semana íamos ao cemitério levar flores para Maria Bueno” explica Stéphanie, afirmando que as visitas ao túmulo são algumas das memórias mais fortes de sua infância. Ela conta que, mesmo quando o objetivo não era promessa, a peregrinação acontecia e considera o caso desrespeito à sua família.
O caminho de fé da família da jovem, e de várias outras, começou décadas antes de ela nascer. Mesmo antes de 1974, quando a santa consagrada pelo povo era tão venerada que se tornou uma peça de teatro de Oracy Gemba, estrelada por Lala Schneider, com temporada de um ano em cartaz. E muito antes de 1979, ano em que a milagreira esteve diariamente na casa dos paranaenses com a telenovela "Maria Bueno", da TV Paraná - Canal 6 . A avó de Stéphanie, Aracy Pedrozo, é uma das atrizes que estavam no elenco da produção.
A jovem não se tornou uma grande devota, mas a reverência existe até hoje. Sempre viu as súplicas da avó serem atendidas, inclusive quando o avô foi curado de um enfisema e o ex-voto com o nome Edgar surgiu em frente ao jazigo mais visitado do São Francisco de Paula, no início dos anos 2000. Avó e neta ainda não decidiram se farão um novo agradecimento para colocar no cemitério.



Capela de Maria Bueno no Cemitério Municipal. (Fotos: Tami Taketani/Plural.)
