Desde o anúncio do primeiro “Disney Celebra: Um Natal Inesquecível” em Curitiba, produtores culturais da cidade relatam que estão enfrentando dificuldades para captar recursos via Lei Federal de Incentivo à Cultura (Rouanet) destinados a projetos locais. À reportagem do Plural, eles afirmam que empresas que costumam incentivar projetos artísticos de diferentes áreas (como teatro, artes visuais, dança e música) concentraram os repasses no Natal da Disney em 2025, que captou sozinho mais de R$ 12 milhões.
Segundo dados do Ministério da Cultura (Salic) essa cifra representou 16,8% de todo o dinheiro vindo do mecanismo federal para incentivo à cultura em Curitiba. O valor também é o maior captado entre todas as mais de 600 propostas aprovadas da cidade que conseguiram algum aporte no ano passado. (Acima de R$ 2 milhões, há apenas três projetos.) A empresa por trás do evento, a Air Promo, ainda recebeu R$ 4,2 milhões do Instituto Municipal de Turismo (IMT) pela compra do título de “Host City”, cidade-sede da produção. Assim, a vinda do espetáculo da gigante norte-americana do entretenimento para o Parque Barigui ultrapassou R$ 16 milhões.
Prefeito não vê prejuízo para produções locais durante o ano
Em coletiva de imprensa na quinta-feira (25) para lançamento da programação do Natal de 2026, o prefeito Eduardo Pimentel (PSD) anunciou algumas novidades e confirmou a 2ª edição do Natal da Disney na cidade. Em resposta ao Plural, ele afirmou que o valor pago pelo novo contrato de cidade-sede do evento será o mesmo de 2025. Sobre a concentração dos R$ 12 milhões no espetáculo da Disney resultar em prejuízo para a produção cultural ao longo do ano, ele discordou: “Não. Pelo contrário, fortalece.” Pimentel também afirmou que o investimento da Disney trouxe um milhão de pessoas para o Parque Barigui.

O prefeito ainda repetiu os dados apresentados na abertura da coletiva, números de toda a programação do Natal curitibano e não do projeto do “Disney Celebra”. “Nós tivemos o investimento na cidade de R$ 722 milhões através do Natal e, como eu falei agora há pouco, sem contar a apresentação que a Disney faz, em torno de 700 atores, coreografistas, artistas da cidade de Curitiba são contratados, garantindo assim um décimo terceiro a classe artística na cidade. Inclusive em nossos editais de cultura, nós aumentamos em mais de 30% do ano passado para este ano.”
Incentivo para Natal estadunidense
Os produtores culturais ouvidos pelo jornal afirmaram que projetos anuais, com cerca de 700 pessoas envolvidas por exemplo, já estão sendo reduzidos pela captação menor. Serão menos vagas, duração menor e o público também sofrerá impacto. Outras produções, nem sairão do papel. A preferência das empresas pelo “Disney Celebra” acontece, entre outras coisas, por causa da cobertura na imprensa, a oferta de ativações e a influência da chancela da prefeitura. Além da barreira de aporte para a cultura local ao longo do ano, a crítica se estende sobre o tema do espetáculo, pois o projeto leva ao palco e ao parque o ideal do Natal dos Estados Unidos, inclusive com apelo ao consumismo e loja da própria Disney no local. A cultura nacional e a criatividade dos artistas curitibanos são deixadas de lado.
Na avaliação dos produtores de cultura da cidade, o espetáculo é bem-vindo, desde que como iniciativa privada da gigante do entretenimento norte-americano, que lucraria sem precisar de incentivo via renúncia fiscal brasileira. Antes de Curitiba, "Disney Celebra: Una Navidad Inolvidable" (Disney Celebra: Um Natal Inesquecível) foi apresentado na Argentina, em 2024.

Mais Mickey
Pimentel também afirmou que o “Disney Celebra” aumentará o número de apresentações do espetáculo, de sessões de cinema, de interações, de ativações e de crianças da Rede Municipal de Educação que irão “assistir gratuitamente os espetáculos que são feitos dentro do pavilhão” de 10 mil para 15 mil.
O projeto aprovado para 2026 pela Air Promo na Lei Rouanet continua falando apenas em decoração do parque e uma palestra formativa para 500 ou mais alunos e professores da rede pública de ensino como contrapartida social. Já o número de apresentações do espetáculo sobe de 16 para 22, contudo não são indicadas quantas sessões de cinema acontecerão. Na proposta de 2025, o total previsto era de 55 exibições. Na rubrica de direitos autorais para a Disney está indicado pagamento de R$ 1,8 milhões, mas o item é limitado ao teto de 10% do valor total do projeto (do que for captado).

