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“Escrever e atuar em temas tão sensíveis não é a coisa mais fácil”

Monólogo terá três apresentações em Maringá neste fim de semana

“Escrever e atuar em temas tão sensíveis não é a coisa mais fácil”
Fotos: Erick Costa

Às vésperas da estreia de Neblina, que inicia curta temporada nesta sexta-feira, 11 de setembro, às 20h, no Teatro Barracão, em Maringá, o ator e dramaturgo Guilherme Veneral fala com exclusividade ao Plural sobre o processo de criação do espetáculo, a escolha pela autoficção e o desafio de levar ao palco uma obra que transforma experiências pessoais e relatos LGBT+ em matéria cênica. Ele reflete sobre o desafio de atuar uma obra tão próxima da própria trajetória. O monólogo terá mais três apresentações gratuitas, nos dias 18, 19 e 20 de setembro. 

Como nasceu a primeira ideia de Neblina e em que momento você percebeu que essa história precisava virar um espetáculo?

A primeira ideia de Neblina surgiu na graduação, quando eu perguntei pra alguns amigos o que era expectativa pra eles e reuni algumas respostas. A ideia nunca foi pra frente, só que isso ficou guardado em mim. Alguns anos depois, eu comecei a entender que o que gostaria de falar não se tratava de expectativa, mas sim de estar ansioso para que algo acontecesse.

Quando eu comecei a materializar um pouquinho mais sobre um espetáculo solo sobre ansiedade, eu entendi que, na verdade, ansiedade era um sintoma de algo maior. No meu caso, a ansiedade é um sintoma da minha vivência enquanto homem gay. Então as expectativas eram de individualidade e de ter autonomia. Já a parte de ansiedade é por estar vivendo num estado de alerta, em meio ao preconceito e em meio às dificuldades, sendo um homem gay, participando da comunidade LGBTQIAPN+.

Eu comecei a perceber que a ideia de montar um espetáculo não tava saindo da minha cabeça. Até então, não tinha um tema muito específico, uma narrativa, um começo, meio e fim. Foi então que eu relembrei esse desejo antigo de falar sobre ansiedade, dessa vez já entendendo como esse assunto poderia surgir em cima do palco. Primeiro eu estruturei a dramaturgia através da Política Nacional Aldir Blanc, em 2025, com apoio da Secretaria de Maringá. Recebi uma bolsa-pesquisa para investigar esses temas e criar uma dramaturgia. Como se tratava de uma percepção individual sobre ansiedade e homofobia, optei pelo gênero da autoficção, o que me levou a ouvir relatos de outras pessoas e construir primeiro a dramaturgia e, no ano seguinte, a produção da peça com temporada em setembro.

O que foi mais difícil no processo de transformar memórias e temas tão íntimos em material de cena?

Esse processo foi bem doloroso, na verdade. Quando eu comecei a escrever, no meio de 2025, eu precisei pensar nas histórias que me atravessaram e que eu tinha deixado esquecidas, porque eu não queria ficar nutrindo meus traumas, os meus desconfortos por toda a minha vida.

Mas eu comecei a perceber que, sim, coisas aconteceram, e provavelmente vão continuar acontecendo com outras pessoas. Mesmo que elas se identifiquem num grau maior ou menor, o sofrimento, a falta de autonomia e o preconceito ainda acontecem hoje em dia. 

Eu fiz um formulário no qual eu pedi relatos da comunidade LGBTQIAPN+. Foi muito difícil ler algumas coisas nesses relatos: muito cruéis, muito reais e, infelizmente, muito repetitivas. Em vários relatos, eu reconheci situações que aconteceram em mim; em vários relatos, existem situações que se repetem em pessoas diversas. E as respostas vieram de diferentes faixas etárias, mostrando que situações se repetem ao longo de anos, décadas e séculos. Foi olhando pra isso que se justificou o uso da autoficção, dos relatos externos e da coleta de casos reais que marcam a vivência da comunidade no Brasil. Porque, se me dói, também dói outras pessoas.

Como é, para você, atuar em um texto que também escreveu e que carrega experiências tão próximas da sua própria trajetória?

Olha, idealizar, escrever e atuar em temas tão sensíveis não é a coisa mais fácil, mas eu estou com uma equipe muito boa que consegue me dar uma assistência muito grande pra que eu possa realmente pensar nesse processo artístico e nesse processo de relato pessoal. Dentro dos ensaios, eu tenho tentado lembrar o porquê eu estou fazendo isso, pra quem eu estou fazendo, e se a minha criança interior, se o meu adolescente interior, estaria feliz e orgulhoso desse material que eu estou trazendo aqui.

O que mudou em Neblina entre a primeira versão do texto e o espetáculo que agora chega ao público?

A primeira versão de Neblina surgiu para eu identificar e colocar os assuntos na mesa, e a partir disso selecionar o que eu queria dizer; também me trouxe algumas abordagens dramatúrgicas e começar a construir esteticamente o universo que eu queria pra Neblina. 

Já a segunda versão, ela vem bem mais amadurecida, porque ela condensa essas ideias e reorganiza-as de uma maneira mais fluida. Antes, o texto tinha uma característica de ser muito quadrado, quase como se fossem esquetes de assuntos: saindo um assunto, entrando outro e assim seguindo. 

Agora, nessa segunda versão, eu tenho uma liberdade um pouco maior e mais criativa para trabalhar a subjetividade da mente humana, trazendo situações que podem ou não ser verídicas e ter acontecido comigo, mas que dialogam com a poesia do espetáculo. Então eu brinco mais com essa subjetividade da mente humana, de forma que a gente possa imaginar e visualizar esse estado mental de cobrança, com preocupação em excesso, exigindo de si próprio, e também mostrar como ter ferramentas pode auxiliar a lidar com a Neblina, que é esse processo em que você não consegue reconhecer o espaço em que você está, vivendo em um constante estado de alerta.

Serviço:

Monólogo Neblina
Dias 18, 19 e 20 de setembro Horário: 20hLocal: Teatro Barracão - Praça Professora Nadir Cancian, sem número, na Zona 7, Maringá - PR
Entrada gratuita. Os ingressos serão distribuídos meia hora antes do espetáculo

Ficha técnica

Co-direção: Mariela Lamberti e Victor LovatoCoordenação de produção e produção executiva: Barbara BittencourtTexto e atuação: Guilherme VeneralDireção musical: Nicholas EmmanuelTrilha sonora: Nicholas Emmanuel, Chá di Lirian e Mateus RossatoSonoplastia: Nicholas EmmanuelIluminação: Victor LovatoFigurino: Jo SerbaiAcessibilidade: Forféu — Renan Parma e Pedro SienaFotos e vídeos: Erick Costa DomingosComunicação: Madá CriativaDesigner e identidade visual: Naju Campos

Projeto contemplado no Edital de Fomento Aniceto Matti nº 051/2025, da política de incentivo à Cultura de Maringá.

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Assuntos: Maringá cultura

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