Marcos Pamplona | Crônicas

Pelo branco

Faço uma pinça com o polegar e o indicador, tateio o pelo na base e, com um puxão exagerado, aqui está o pelo diante dos meus olhos. Tornou-se minúsculo, quase invisível

Marcos Pamplona

Jaci no céu

A bruxa está solta. Posso senti-la agora, sozinho em minha cadeira de preguiça sob esse lume lunático. Quisera fosse sempre assim, e as coisas saíssem de vez das planilhas, saltassem para fora da realidade adestrada

Marcos Pamplona

A droga da felicidade

Nunca tive tão pouca grana, tão poucos planos ou perspectivas, no entanto fui acometido por uma felicidade tal que vejo na tristeza alheia um vício adquirido

Marcos Pamplona

Carta ao amigo sumido

Bons tempos aqueles, mesmo sabendo que nos fazíamos de ingênuos enquanto você já semeava, com a nossa tola conivência, a monocultura da matéria

Marcos Pamplona

Passaram mesmo por cima

Já não existe mais aquela vida dura e larga do povo do rio, suas falas gritadas, a trama explícita de alegria, comércio, lamento, religiosidade, sexo

Marcos Pamplona

Janelas verdes

E lá, para além das águas, meu povo afunda, mas não morre. Quantas vezes já foi à lama, e ergueu-se, inoxidável ao sol?

Marcos Pamplona