Atrás do cão

Na lanchonete da estação, comprei um sanduíche de presunto. Deixei-o diante do cão. Com calma, ele catou o pão e percorreu o sombrio corredor que leva às ruínas da antiga estação de comboios do Barreiro

Marcos Pamplona

Boi desgarrado

Nossos corpos se tocavam na perfeita ignorância do passado, confiantes no interesse comum pelo teatro, por Sófocles, Artaud, pela urgência de um grito

Marcos Pamplona

Nos braços do amor

Nosso amor começou tímido, na adolescência, quando os adultos nos afastavam a toda hora. “Vá fazer alguma coisa”, diziam, como se deitado no sofá, com um livro nas mãos, eu não estivesse fazendo nada

Marcos Pamplona

O quintal

Ao contrário das nossas, sempre temporárias, precárias, caóticas, a moradia dos meus avós exalava a calma de uma família estável e bem organizada

Marcos Pamplona

O anjo da incerteza

Você pode achar esquisito, mas o que sinto agora é ternura e respeito pelos confusos, pelos hesitantes, pelos tímidos, perdidos, céticos, por todos aqueles que caminham sobre a mais profunda ignorância, sem impor seu exemplo a ninguém

Marcos Pamplona

Aquarela

Sempre que saio do meu quarto, a primeira coisa que vejo é essa fusão de duas épocas da minha vida. Gosto de pensar que uma surge da outra, como se as andorinhas partissem da praia longínqua, inalcançável no tempo e no espaço

Marcos Pamplona

Ave migratória

Abro o livro e, antes mesmo de partirmos, entro no mundo das mulheres quebradiças de Alice Munro. Conto a conto, vou vendo seus pedacinhos se espalharem em desventuras com filhos distantes, homens fugidios, pais indiferentes…

Marcos Pamplona

Negacionismo sentimental

Penso em dizer à moça entristecida que não foi do nada, o rapaz já vinha elaborando aquilo, claro. Não somos máquinas, nem para amar, nem para ir embora

Marcos Pamplona