Marcos Pamplona | Crônicas

O talho do Moreira

Desde que me mudei para cá vejo idosos por toda parte, andando cabisbaixos, hesitantes, parados nas esquinas para olhar boquiabertos uma banalidade qualquer, sentados nos bancos de praça com suas máscaras mal colocadas

Marcos Pamplona

Lavanderia Roupa Feliz

As lavadoras de antigamente lavavam com água e produziam espuma espessa. Faziam um barulho assustador, às vezes tinham ataques epilépticos e saltitavam pelo chão

Marcos Pamplona

À sombra de Salazar

A fome era tanta que tinham uma ficha metálica com um triângulo vazado no meio. De posse desta ficha podiam buscar comida “na tropa” ou na Santa Casa de Misericórdia

Marcos Pamplona

Barco na chuva

Por entre as nucas das pessoas à minha frente, estáticas como eu diante da vidraça da estação de barcos do Barreiro, o Fernando Namora descreve…

Marcos Pamplona

Leão

Ele desce a escada devagar. Mais de sessenta anos, tantas escadas. Tira o boné e tenta cobrir a calva com os longos cabelos brancos que ainda resistem do lado esquerdo da cabeça

Marcos Pamplona

Maria de Lurdes

Desde que chegamos ao restaurantezinho, não me dirige a palavra. Se digo ou pergunto algo, responde à minha companheira

Marcos Pamplona

FRANCISCO

A luz à minha volta se expande para dentro da matéria. Me sinto cercado pelos deuses. Súbito, me sorvem, sou parte deles, no sopro para fora que é um regressar a si, fundamente

Marcos Pamplona

Daemon

Contaminamos o menino com países, religiões, profissões, números, sobrenomes, diferenças de sexo, de classe, de raça, desenhamos em sua nuvem multiforme o mapa sombrio das fronteiras

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