Marcos Pamplona | Crônicas

Leão

Ele desce a escada devagar. Mais de sessenta anos, tantas escadas. Tira o boné e tenta cobrir a calva com os longos cabelos brancos que ainda resistem do lado esquerdo da cabeça

Marcos Pamplona

Maria de Lurdes

Desde que chegamos ao restaurantezinho, não me dirige a palavra. Se digo ou pergunto algo, responde à minha companheira

Marcos Pamplona

FRANCISCO

A luz à minha volta se expande para dentro da matéria. Me sinto cercado pelos deuses. Súbito, me sorvem, sou parte deles, no sopro para fora que é um regressar a si, fundamente

Marcos Pamplona

Daemon

Contaminamos o menino com países, religiões, profissões, números, sobrenomes, diferenças de sexo, de classe, de raça, desenhamos em sua nuvem multiforme o mapa sombrio das fronteiras

Marcos Pamplona

As esquecidas

Posso imaginá-la sentada na poltrona de veludo gasto, pequena, rechonchuda, entre santos de gesso descorado, andorinhas de porcelana negra e retratos de parentes mortos

Marcos Pamplona

Tapada das Necessidades

A bola vermelha cai diante do banco em que estou sentado. Olho em volta, à procura de quem virá buscá-la. Curiosamente, ninguém aparece. Imagino alguém que desistiu de jogar, de ter metas, de provocar em si as excitações da derrota ou da vitória

Marcos Pamplona

Em busca do velho

Numa curva – esta curva aqui – vi o homem à minha frente. Tinha o andar destrambelhado e novidadeiro de meu pai. Os mesmos cabelos lambidos, reluzentes de brilhantina

Marcos Pamplona