Marcos Pamplona | Crônicas

Nevoeiro

A tranquilidade das pessoas me faz pensar que já passaram por isso. Nesse caso sabem que o piloto nunca erra, ou pelo menos nunca errou, mesmo nas piores condições climáticas

Marcos Pamplona

A feira

Como se o sistema súbito falhasse, uma rês desgarrada estaca diante de mim. É uma mulher de uns trinta anos. Avalio sua expressão neutra; não consigo definir se poderia ser um dos raros leitores de poesia que passam por aqui

Marcos Pamplona

Pelo branco

Faço uma pinça com o polegar e o indicador, tateio o pelo na base e, com um puxão exagerado, aqui está o pelo diante dos meus olhos. Tornou-se minúsculo, quase invisível

Marcos Pamplona

Jaci no céu

A bruxa está solta. Posso senti-la agora, sozinho em minha cadeira de preguiça sob esse lume lunático. Quisera fosse sempre assim, e as coisas saíssem de vez das planilhas, saltassem para fora da realidade adestrada

Marcos Pamplona

A droga da felicidade

Nunca tive tão pouca grana, tão poucos planos ou perspectivas, no entanto fui acometido por uma felicidade tal que vejo na tristeza alheia um vício adquirido

Marcos Pamplona

Carta ao amigo sumido

Bons tempos aqueles, mesmo sabendo que nos fazíamos de ingênuos enquanto você já semeava, com a nossa tola conivência, a monocultura da matéria

Marcos Pamplona

Passaram mesmo por cima

Já não existe mais aquela vida dura e larga do povo do rio, suas falas gritadas, a trama explícita de alegria, comércio, lamento, religiosidade, sexo

Marcos Pamplona