Marcos Pamplona | Crônicas

A droga da felicidade

Nunca tive tão pouca grana, tão poucos planos ou perspectivas, no entanto fui acometido por uma felicidade tal que vejo na tristeza alheia um vício adquirido

Marcos Pamplona

Carta ao amigo sumido

Bons tempos aqueles, mesmo sabendo que nos fazíamos de ingênuos enquanto você já semeava, com a nossa tola conivência, a monocultura da matéria

Marcos Pamplona

Passaram mesmo por cima

Já não existe mais aquela vida dura e larga do povo do rio, suas falas gritadas, a trama explícita de alegria, comércio, lamento, religiosidade, sexo

Marcos Pamplona

Janelas verdes

E lá, para além das águas, meu povo afunda, mas não morre. Quantas vezes já foi à lama, e ergueu-se, inoxidável ao sol?

Marcos Pamplona

Newchance

É uma loja estreita, longa e escura onde mal se pode andar. Prateleiras, balcões e araras estão atulhados de milhares de artigos usados, objetos tão diversos que os olhos e o olfato não encontram repouso naquele caleidoscópio do mundo kitsch da pequena burguesia

Marcos Pamplona

Só as sombras falam

O nepalês passa a navalha pela minha nuca, eu não respiro. No espelho, a imagem transida de medo me ironiza, sorri para mim: A navalha é o risco, você não tem controle sobre ela

Marcos Pamplona

Lampião no carrossel

Tento conceber os livros, que tanto admirei ao longo de mais de quarenta anos, como pesos de papel, revistas abandonadas por falta de imagens, inúteis caixas de palavras desprovidas de valor

Marcos Pamplona