Trajano Reis está sitiada, dizem comerciantes

O som do divertimento está dando lugar a sons dissonantes: saque de armas, sirenes e palavras de ordem

Preconizei, ao “final da pandemia”, que, em se tratando da rua Trajano Reis, havia um silêncio, que pairava no ar, antecedente a um esporro futuro. Acertei. O barulho foi retomado, literal e figurativamente, com a rua lotada. Porém, em noites recentes, o som do divertimento está dando lugar a sons dissonantes: saque de armas, sirenes e palavras de ordem. Uma performance opressiva que disputa o território com outra, a hedonista, rebelde e autêntica dos jovens, tomou conta do espaço e divide opiniões sobre os 800 metros mais controversos da cidade.

A Trajanos Hells vibra. Em muitas direções. Seu trajeto de sobe e desce, rompe a inércia dos passantes, empurrando-os em um fluxo errático e multidirecional. Só não poderia ser uma metáfora melhor a rua ligar uma igreja a um cemitério, por se tratar da realidade. Entre o céu e o inferno, passando por pontos de se professar a fé, uma padaria de mais de um século, gastronomia vibrante, pequenas boates, shots, drinks e cerveja barata, a rua é tomada todos os finais de semana por tipos dos mais diversos. Assim foi antes e voltou a ser, depois da pandemia.

A rua, em sentido amplo, é lugar de disputa. Fora de questionamento, porém, está a necessidade de segurança pública para os habitantes da cidade. Se é verdade que os índices de criminalidade aumentam, algo deve ser feito. Sem uma razão clara, no entanto, ou fato especial que o justificasse, houve uma intensificação brutal das operações policiais na Trajano. Luzes vermelhas piscando vêm tomando a noite do Centro Histórico. O que poderia significar mais segurança para todos, não se percebeu desta maneira: comerciantes e frequentadores, estão em claro desacordo com a operação e duvidam não só dos métodos empregados, mas também de sua eficácia.

Clima de sítio

Conversei com três donos de bares e restaurantes da rua e presenciei eu mesmo, muitas dessas ações. Uma cena se repetiu por noites a fio: jovens sendo revistados com armas apontadas para as suas cabeças, encostados de frente para a parede, recebendo ordens e gritos, enquanto o clima de diversão da rua, ia dando espaço a um repressivo clima de sítio. Para a vergonha do nosso êxito civilizatório, com medo de represálias, os empresários não quiseram se identificar, porém contam a mesma história que testemunhei.

“As operações de revista começaram tem uns 3 meses, acho importante esse tipo de operação na região, porém na maioria das vezes estão enquadrando o público errado”, me conta A., que está empreendendo na rua há mais de oito anos. Chegado a menos tempo na rua e igualmente indignado, está W. proprietário de um bar na região há dois anos, “Não, não faz sentido. O tráfico continua como sempre, abordam clientes ao invés de pessoas que estão fazendo coisa errada”, reclama.

F., que está presente na rua há quase cinco anos, se queixa, assim como os outros, dos efeitos deletérios da conduta policial, “as operações são espalhafatosas, mais espetaculares do que efetivas. A justificativa é o combate ao tráfico de drogas, mas quem trabalha aqui sabe que o tráfico continua normalmente. Fora que, às vezes, pra fazer revista em 1 pessoa, ficam até 8 policiais em volta, com arma em punho. O policiamento que deveria nos trazer uma sensação de segurança faz exatamente o oposto. Fica sempre um clima tenso no ar”, me conta o empresário.

“Ordem social”

A disputa parece ser mais abrangente do que uma simples operação antidrogas. Nas confissões que me fizeram, um dos empresários reclamou que, já tendo seu comércio instalado lá, quis ampliar seus registro de CNAES e regularizar o uso de mesas e cadeiras na calçada; após protocolar o projeto arquitetônico, obteve uma negativa da prefeitura, que o informou não mais liberar novas solicitações para bares, lanchonetes, restaurantes e similares em função do “distúrbio da ordem social”. O que, para uma rua que sempre funcionou como um ponto de encontro da noite curitibana, não faz o menor sentido, em especial para um bar lá já instalado.

“Nós abrimos cedo e fechamos cedo. Depois de tantos anos nesse ramo e nessa rua, entendemos que a partir de uma da manhã, o público muda e acabam vindo pessoas que, além de não consumir, geram confusão. As operações deveriam iniciar após esse horário, pois é quando há um fluxo grande de tráfico de drogas. O que acontece hoje é que essas operações começam cedo, geralmente entre oito e dez da noite, que é bem o nosso melhor momento de faturamento, e elas acabam não dando em nada na maioria das vezes”, me explica A., em consenso com seus colegas, sobre o prejuízo financeiro que a polícia vem lhes causando.

F. é categórico: “Se o objetivo é acabar com o tráfico de drogas, não vejo eficácia. Levam um aviãozinho hoje, amanhã tem mais 3 no lugar. Se o objetivo é diminuir a circulação de pessoas e com isso diminuir a bagunça na rua e o barulho. aí é efetivo sim. Porém estão sufocando o comerciante e a diversão do jovem com menor poder aquisitivo, em resposta a uma manifestação de uma pequena parte da elite de Curitiba que se incomoda com isso”, conclui o empresário.

Por que das intensificações das operações na Trajano? Qual seria o protocolo de ação das abordagens? Quais foram os efeitos das operações? Qual era o perfil buscado? Se houve uma queda do fato gerador criminoso perceptível após as operações, dentre outras, faziam parte do rol de perguntas que encaminhamos da redação do Plural para a Polícia Militar do Paraná e a mesma se recusou a responder.

Choque

O que fica claro, no entanto, é a disputa entre uma velha noção de segurança, que se apresenta de forma performática de mau gosto, para agradar interesses rasos e já desconexos com a realidade de uma cidade do tamanho de Curitiba. O choque é claro entre uma realidade que clama o centro para si, não só para usufruto, mas comercial e identitariamente, e outra que destoa do projeto higienista que ainda tenta ser mantido pelas velhas vozes presentes na Prefeitura e na Câmara.

As idiossincrasias da Trajano Reis fazem com que naquele território o projeto Lerner de cartão postal se perca frente a Curitiba de verdade: a do jovem periférico que ali frequenta, das mazelas que a cidade apresenta, da juventude queer que inventa uma maneira de expressar, dos notívagos, alternativos e trabalhadores cansados, atrás de uma cozinha aberta à meia noite, como eu. Logo, quando apagam-se as vermelhas luzes e sirenes, a teimosa rua do centro responde, fazendo piada das tentativas de domá-la: “verde, bala, raio”! E segue o sobe e desce.

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