A moda agora é respeitar os direitos humanos?

A indústria da moda muitas vezes tem sido associada a violações do direitos humanos. Mas não precisa ser assim

Historicamente, a indústria da moda tem sido associada a uma série de violações de direitos humanos, incluindo trabalho infantil, trabalho forçado, salários injustos, e condições de trabalho inseguras e insalubres. Além disso, o impacto ambiental da moda rápida (fast fashion) — desde a poluição da água com produtos químicos tóxicos até a contribuição significativa para o acúmulo de resíduos têxteis — levanta questões críticas sobre a sustentabilidade do setor. A necessidade urgente de se adaptar a padrões mais sustentáveis e éticos não é apenas uma resposta às crescentes pressões regulatórias e às demandas dos consumidores, mas também um imperativo moral e ambiental.

No Brasil, há um movimento crescente dentro da indústria da moda para abraçar os princípios de ESG (ambientais, sociais e de governança), como um meio de reformar práticas históricas e alinhar-se com padrões éticos mais elevados. O aumento dos brechós online e a crescente adoção de práticas de logística reversa por grandes marcas são indicativos de uma mudança de paradigma em direção a um modelo de negócios mais circular e responsável. Estas iniciativas não apenas ajudam a mitigar o impacto ambiental da indústria, mas também promovem a inclusão social e econômica, ao oferecer alternativas acessíveis e sustentáveis para as consumidoras e os consumidores.

No âmbito das diretivas internacionais, destacam-se os Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos da ONU, conhecidos como Princípios Ruggie, surgem como um marco normativo fundamental, instando as empresas a identificar, prevenir e mitigar impactos negativos sobre os direitos humanos em suas cadeias de suprimentos. Estes princípios estabelecem uma estrutura clara para a responsabilidade corporativa, enfatizando a importância de processos de devida diligência para evitar a cumplicidade em violações de direitos humanos. No cerne dessa abordagem está a expectativa de que as empresas não apenas respeitem os direitos humanos, mas também tomem medidas proativas para promover práticas justas e sustentáveis em todas as suas operações.

Contudo, o greenwashing – uma combinação de “green” (verde), com “washing” (lavagem ou apagamento), – expressão que significa encobrir ou dissimular fatos, representa um risco sério para a credibilidade e a autenticidade do movimento da indústria da moda em direção à sustentabilidade. O objetivo é capitalizar sobre a crescente preocupação com questões ambientais, atraindo-os com uma imagem de responsabilidade que não corresponde à realidade. O greenwashing não apenas engana os consumidores e as consumidoras, que buscam fazer escolhas mais responsáveis, mas também mina os esforços legítimos de empresas verdadeiramente comprometidas com a mudança positiva.

Neste contexto, a transparência torna-se um pilar fundamental. É essencial que as empresas não apenas adotem práticas de sustentabilidade genuínas, mas também se comprometam com a transparência em suas operações e cadeias de suprimentos. Isso inclui relatar de forma clara e verificável suas ações e impactos ambientais e sociais, permitindo que consumidores, investidores e partes interessadas avaliem e comparem o desempenho de sustentabilidade das empresas de forma objetiva.

A adoção de padrões internacionais, como os Princípios Ruggie e as diretrizes de ESG, estabelece um quadro de responsabilidade e transparência que as empresas podem seguir. Além disso, regulamentações mais rigorosas e ações de fiscalização por parte dos órgãos governamentais e instituições independentes são cruciais para garantir que as empresas sejam responsabilizadas por suas alegações de sustentabilidade.

Em última análise, a jornada da indústria da moda em direção a um futuro mais sustentável e ético é um reflexo do crescente consenso global sobre a importância dos direitos humanos e da sustentabilidade ambiental. À medida que avançamos, a capacidade da indústria da moda de se adaptar nesta direção não só definirá o seu sucesso no mercado, mas também o seu legado no mundo.

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